A misoginia — caracterizada pelo ódio e desprezo pelas mulheres — tem se manifestado de forma cada vez mais precoce entre adolescentes e jovens. Dados da SaferNet Brasil mostram que as denúncias desse tipo de discurso na internet cresceram 224% em 2025 em relação ao ano anterior. O aumento acende um alerta para a influência do ambiente digital na formação de comportamentos violentos, além do papel das famílias e da própria sociedade na construção de valores e relações desde a infância.
Em um mês marcado pelas mobilizações do 18 de Maio — Dia
Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes
—, o Hospital Pequeno Príncipe traz para o debate os impactos dos discursos
misóginos e da violência de gênero nas redes sociais. Ao completar 20 anos da
Campanha Pra Toda Vida — A Violência Não Pode Marcar o Futuro das Crianças e
Adolescentes —, a instituição reforça que discutir misoginia na adolescência
também significa prevenir violências e promover relações mais saudáveis.
A criação dentro de casa, somada ao acesso cada vez mais
precoce às redes sociais e a conteúdos violentos ou sexualizados na internet,
tem influenciado a forma como muitos adolescentes constroem suas percepções
sobre masculinidade, relacionamentos e papel das mulheres na sociedade.
Para a coordenadora do Serviço de Psicologia do Hospital
Pequeno Príncipe, Angelita Wisnieski da Silva, o enfrentamento desse cenário
exige participação coletiva. “Vivemos um momento em que o uso das redes sociais
e do universo virtual deixou de ser apenas uma questão familiar. Ele se tornou
um problema de saúde coletiva, que exige o envolvimento de diferentes esferas
da sociedade: políticas públicas, profissionais da saúde, educação e, claro, a
família”, afirma.
As mudanças necessárias dependem do fortalecimento do
diálogo dentro de casa, de ações educativas para relações mais respeitosas e do
envolvimento coletivo de famílias, escolas e demais profissionais que atuam
diretamente com esse público. O compromisso das plataformas digitais com
ambientes mais seguros também é apontado como parte fundamental da prevenção.
Focos de atenção
Recentemente, o TikTok — uma das plataformas com mais
denúncias de misoginia, segundo a SaferNet Brasil — virou alvo de investigações
por causa da trend criminosa conhecida como “Caso ela diga não”. Na prática,
homens simulavam agressões contra mulheres após uma suposta rejeição amorosa. O
episódio reacendeu o alerta sobre a banalização da violência e sobre como
determinados conteúdos podem normalizar agressões e humilhações contra
mulheres.
Muitos adolescentes recorrem à internet em momentos de
frustração, conflitos sociais ou desilusões amorosas e acabam encontrando
respostas simplistas e rígidas para lidar com inseguranças e sentimentos de
rejeição. Sem suporte emocional adequado, tornam-se mais vulneráveis a
conteúdos que reforçam estereótipos de gênero, objetificação feminina e padrões
rígidos de masculinidade.
Outro ponto de atenção é o papel dos algoritmos na formação
de comportamentos e percepções. Conteúdos misóginos frequentemente se
apresentam como soluções rápidas para dores emocionais reais, reforçando
discursos baseados em controle, poder e ressentimento. Especialistas ressaltam
que esse tipo de narrativa pode impactar negativamente tanto meninos quanto
meninas, além de estimular relações marcadas por hostilidade, discriminação e
violência simbólica.
A repressão emocional masculina também preocupa. Desde cedo,
muitos meninos aprendem a associar sentimentos como tristeza, insegurança e
vulnerabilidade à fragilidade. Quando emoções como frustração, rejeição ou medo
não encontram espaço de expressão saudável, podem transformar-se em raiva e
ressentimento, frequentemente direcionados ao feminino.
O papel da família
Na adolescência, a criação de vínculos de confiança é
considerada fundamental. Modelos parentais baseados apenas no medo e na punição
tendem a gerar afastamento e ocultação de comportamentos. Por isso, abrir
espaço para conversas sobre emoções, frustrações e até temas sociais, como
violência contra a mulher, pode funcionar como fator de proteção.
As famílias devem observar sinais, como mudanças bruscas de
comportamento, isolamento excessivo, consumo secreto de conteúdos on-line,
discursos recorrentes de ódio contra meninas e mulheres e dificuldade em lidar
com rejeições e frustrações. Em situações em que há perda completa de diálogo
ou mudanças mais intensas de comportamento, o acompanhamento psicológico pode
ajudar a compreender o que está acontecendo com o adolescente e fortalecer os
vínculos familiares.
Em 2026, com o mote “Proteger a infância é um compromisso de
todos”, a Campanha Pra Toda Vida reforça que garantir um desenvolvimento
saudável e seguro exige diálogo, educação emocional e responsabilidade coletiva
— dentro e fora do ambiente digital.
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