Agentes de inteligência artificial começam a assumir atividades críticas nas empresas, indo além da interação com clientes e passando a executar fluxos completos de negócio. O movimento, que impacta diretamente custos e retenção, já avança no setor de utilities.
Na Light, distribuidora de energia do Rio de Janeiro, um dos
processos de maior impacto na jornada do consumidor — a contestação de faturas
por conta alta — operava de forma totalmente manual. Por ser um fluxo que exige
análise detalhada, o atendimento dependia integralmente de intervenção humana,
o que resultava em tempos elevados de resolução e limitava a capacidade de
retenção dos chamados.
A mudança veio com a implementação de um agente autônomo
desenvolvido pela Zenvia, utilizando o Amazon Bedrock, da Amazon Web Services
(AWS), como base de inteligência. Diferente de soluções tradicionais de
atendimento, o agente de inteligência artificial foi desenhado para executar o
fluxo completo de contestação — da interpretação do pedido à resolução final —
com integração direta aos sistemas transacionais da companhia.
O impacto foi imediato e mensurável. Já na primeira semana,
a retenção foi de 15% através do atendimento agêntico. Com o treinamento e
evolução do agente, em três meses, o índice chegou a 62%, tornando a frente
relevante em retenção de receita
Além disso, a automação permitiu uma redução de 40% no
esforço operacional. Mais do que redução de custo, o ganho veio acompanhado de
maior consistência nas decisões e aderência a regras de compliance, fatores
críticos em um setor altamente regulado.
Para Fabiola Mazzer, diretora de Operações na Zenvia, o
avanço está menos na tecnologia em si e mais na forma como ela é aplicada ao
negócio. “O diferencial está na orquestração. Não se trata apenas de usar
modelos de linguagem, mas de conectá-los a sistemas e operações para que a IA
execute ações completas. Quando isso acontece, deixamos de falar de atendimento
automatizado e passamos a falar de operação autônoma”.
Segundo Letícia D’Angelo, diretora de Clientes na Zenvia,
esse tipo de implementação aponta para uma mudança estrutural. “Em setores como
utilities, onde margens são pressionadas e a experiência impacta indicadores
regulatórios e financeiros, a migração de atendimento assistido para execução
autônoma não é mais tendência. É necessidade”, aponta.
Do lado da operação, o ganho vai além dos indicadores
tradicionais de eficiência. Para Thiago Matarazzo, gerente de Experiência do
Cliente na Light, o principal avanço está na capacidade de escalar qualidade.
“Antes, cada contestação de fatura dependia muito da análise individual, o que
gerava variação e retrabalho. Com o agente, conseguimos padronizar decisões e
ganhar velocidade. Isso muda completamente a forma como a gente enxerga o
atendimento”.
O executivo destaca ainda o impacto na experiência do
cliente. “Quando você reduz tempo de resposta e aumenta a resolutividade no
primeiro contato, a percepção muda. O cliente deixa de ver o processo como
burocrático e passa a enxergar valor na interação”, reforça Matarazzo.
O caso da Light ilustra uma mudança mais ampla no uso de
inteligência artificial nas empresas: até então, o avanço da IA esteve
concentrado na interface com o cliente. Agora, passa a atuar diretamente na
execução.
Na prática, isso significa que jornadas deixam de ser apenas conversacionais e passam a ser resolutivas, conectando descoberta, atendimento e solução em um fluxo contínuo, sem fricção.
Para empresas que ainda operam processos críticos de forma
manual, o recado é direto: a oportunidade não está apenas em reduzir custo, mas
em redefinir a capacidade operacional.

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