Mudanças na rotina, hábitos familiares e ambiente ajudam a explicar por que algumas crianças comem na escola, mas recusam os mesmos alimentos em casa
A mudança de rotina entre casa e escola costuma refletir no sono, humor, e até no apetite dos pequenos. O resultado é uma maior recusa de alimentos, dificultando a introdução de novos itens no dia a dia. Um estudo publicado na revista de Medicina da USP de Ribeirão Preto sobre seletividade alimentar e o papel da escola reforça essa relação. Segundo a pesquisa, crianças que frequentam a escola regularmente aceitam, em média, mais alimentos do que aquelas que não frequentam. Esse resultado, em parte, é creditado a uma espécie de modelagem, em que há maior estímulo para experimentar ao observar os colegas fazendo o mesmo.
A nutricionista Lívia Almeida, do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas em São Paulo, explica que a seletividade ou neofobia alimentar é caracterizada pela aceitação de um número muito limitado de alimentos, geralmente em função da cor, textura, cheiro ou sabor. Embora esse comportamento seja esperado entre os 2 e os 6 anos deidade, ele passa a ser motivo de atenção quando compromete o peso corporal, o crescimento, o desenvolvimento e o estado nutricional, podendo causar deficiências de vitaminas e minerais, como ferro e vitamina B12. “Também é um sinal de alerta quando interfere na dinâmica familiar ou impede que a alimentação fora de casa”, alerta.
Por onde começar?
Para estimular a aceitação de novos alimentos, a nutricionista recomenda envolver os filhos no processo, desde a compra dos ingredientes até o preparo das refeições. Cozinhar em família, ouvir música e escolher receitas simples podem tornar a experiência mais positiva. A especialista também orienta oferecer um mesmo alimento de diferentes formas – cru, cozido, em sopas ou vitaminas, por exemplo – e não desistir diante da primeira recusa, já que a aceitação costuma exigir repetidas exposições.“Hábito é construção, e demanda tempo e paciência, ainda mais pensando em crianças. Mas quando essa base é bem construída, a chance de dificuldades em relação a alimentação na vida adulta e consequentes problemas de saúde relacionados a alimentação é muto menor”, afirma Lívia.
Obrigar a comer não é a melhor estratégia
A psicóloga Veruska Vasconcelos, do Hospital Alvorada Moema, em São Paulo, destaca que, quando existe grande expectativa ou preocupação dos pais, a refeição pode acabar se tornando um momento de tensão, o que reforça a recusa. “A criança pode aceitar um alimento na escola e recusá-lo em casa, ou o contrário. Isso acontece porque o comportamento alimentar é influenciado pelo ambiente. Na escola, os colegas servem de referência, há uma rotina mais organizada e a atenção dos adultos não fica voltada exclusivamente para a alimentação daquela criança”, comenta.
Insistir excessivamente, obrigar a comer, oferecer sobremesa como recompensa ou usar comida como punição podem aumentar a resistência e tornar as refeições mais difíceis. Segundo a psicóloga, essas atitudes alimentam um ciclo em que a recusa de alimentos para chamar atenção ou manter o controle da situação, enquanto os pais, preocupados, passam a insistir ainda mais. "O objetivo não deve ser só aquela refeição, mas construir uma relação positiva com os alimentos ao longo do desenvolvimento", complementa a especialista.Reduzir a pressão durante as refeições e servir de exemplo para uma alimentação variada são as principais recomendações de ambas as especialistas. Entre as orientações para estimular uma relação mais positiva com os alimentos estão:
- Manter horários regulares para as refeições;
- Oferecer os alimentos repetidamente, sem obrigar a criança a consumi-los;
- Envolver a criança no preparo das refeições;
- Fazer as refeições em família sempre que possível;
- Valorizar pequenos avanços, como tocar, cheirar ou provar um alimento;
- Evitar negociações, chantagens, recompensas e punições.
“O objetivo é promover uma exposição gradual e positiva aos alimentos, sem concentrar a atenção apenas na quantidade consumida naquele momento” complementa Veruska.
Hipersensibilidade extrema pode exigir abordagem multidisciplinar
Veruska lembra ainda que a seletividade alimentar pode estar associada à sensibilidade sensorial, ansiedade e alterações no desenvolvimento. Quando ela é severa, é importante investigar condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, transtornos de ansiedade, alterações gastrointestinais, disfagia e o Transtorno Alimentar Restritivo Evitativo (ARFID).
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) destaca que crianças com TEA apresentam maior tendência à recusa alimentar devido às alterações no processamento sensorial e à hipersensibilidade a texturas, cheiros e sabores, o que torna a introdução de novos alimentos ainda mais desafiadora. Nesses casos, Veruska ressalta a importância de uma abordagem interdisciplinar, envolvendo nutrição, psicologia e fonoaudiologia. "Essa abordagem é essencial para garantir que a criança amplie seu repertório alimentar de forma respeitosa e saudável, promovendo melhor qualidade de vida para ela e a família", afirma.
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