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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Bomba Oculta: força-tarefa mira 1.283 CNPJs e fecha cerco a postos usados na engrenagem financeira do crime organizado


Operação deflagrada nesta sexta-feira bloqueia cadastros e interdita estabelecimentos clandestinos; ofensiva é desdobramento da Carbono Oculto, investigação que revelou bilhões movimentados por uma estrutura infiltrada na cadeia de combustíveis, com suspeitas de lavagem de dinheiro, sonegação, adulteração e uso de empresas para ocultar patrimônio

Por trás de uma bomba de combustível aparentemente comum pode existir uma estrutura financeira muito mais sofisticada do que a simples venda de gasolina, etanol ou diesel.

É justamente essa engrenagem que autoridades federais e estaduais voltaram a atacar nesta sexta-feira, 28 de agosto, com a Operação Bomba Oculta, uma ofensiva destinada a impedir o funcionamento de postos clandestinos e cortar os mecanismos empresariais que permitiam que estabelecimentos sem autorização continuassem comprando, vendendo e movimentando combustíveis formalmente.

A força-tarefa prevê tornar 1.283 CNPJs inaptos, além de suspender 228 inscrições estaduais e lacrar postos que operavam sem autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Participam da ação a Receita Federal, a ANP, a Secretaria da Fazenda e Planejamento de São Paulo, as procuradorias das Fazendas Nacional e paulista e a Polícia Civil.

A operação é mais do que uma fiscalização administrativa.

Ela representa uma nova etapa de uma investigação que, há exatamente um ano, revelou como o setor de combustíveis se tornou uma das portas de entrada do crime organizado na economia formal brasileira.

Segundo a Receita Federal, a Operação Carbono Oculto demonstrou que organizações criminosas haviam se infiltrado em diferentes pontos da cadeia, passando pela importação, produção, distribuição e venda ao consumidor. A estrutura investigada teria utilizado empresas, fintechs e fundos de investimento para movimentar recursos e ocultar patrimônio.

O cenário descrito pelas autoridades ajuda a compreender por que o posto da esquina pode ter importância estratégica muito maior do que sua aparência sugere.

Combustível movimenta dinheiro diariamente, gera elevado volume de transações, possui uma extensa cadeia de fornecedores e consumidores e está presente praticamente em todo o território nacional.

Quando essa estrutura é capturada por organizações criminosas, o posto deixa de ser apenas o destino final de gasolina e diesel.

Pode se transformar em uma máquina de circulação e aparência de legalidade para dinheiro de origem criminosa.

Postos perdiam autorização, mas continuavam funcionando

Um dos pontos mais impressionantes revelados pela operação está na distância entre cancelar uma autorização e efetivamente retirar uma empresa do mercado.

Desde 2019, a ANP revogou a autorização de funcionamento de mais de 10 mil postos de combustíveis no Brasil. O problema é que parte desses estabelecimentos permaneceu com o CNPJ ativo e, segundo as autoridades, continuou utilizando essa existência empresarial formal para adquirir e comercializar produtos de maneira clandestina.

Na prática, a autorização regulatória desaparecia, mas a empresa ainda possuía instrumentos administrativos suficientes para tentar permanecer dentro da cadeia comercial.

Foi essa brecha que a Operação Bomba Oculta decidiu atacar.

A Receita Federal alterou recentemente as regras que permitem declarar uma pessoa jurídica inapta quando ela exerce atividade sem as autorizações exigidas. Com isso, informações produzidas por órgãos reguladores, como a ANP, podem ser utilizadas para acelerar o bloqueio cadastral dessas empresas.

A inaptidão do CNPJ e a suspensão das inscrições estaduais atingem pontos vitais de qualquer operação comercial. As medidas dificultam ou impedem a emissão de documentos fiscais e podem afetar movimentações financeiras vinculadas às empresas.

O objetivo declarado é eliminar justamente a condição que permitia a um estabelecimento continuar parecendo formalmente ativo mesmo depois de perder autorização para vender combustível.

Em São Paulo, o alcance é ainda maior. Novecentos e dez registros estaduais de postos já foram atingidos por suspensões ou inaptidões, sendo 682 em medidas anteriores e outros 228 nesta etapa.

A investigação chegou aos “laranjas” e ao patrimônio escondido

Fechar bombas e impedir a emissão de notas fiscais resolve apenas uma parte do problema.

A outra está em descobrir quem realmente controla as empresas.

Nesta nova fase, mais de 400 pessoas apontadas como possíveis “laranjas” estão sob investigação, segundo informações divulgadas sobre a operação. O objetivo é identificar os verdadeiros beneficiários de empresas, bens e fluxos financeiros que podem ter sido registrados em nome de terceiros.

O uso de interpostas pessoas é uma estratégia recorrente em esquemas de ocultação patrimonial.

No papel, determinado posto pode pertencer a uma pessoa sem grande patrimônio ou histórico empresarial relevante. Na prática, a administração, os recursos e os beneficiários econômicos podem estar em outro lugar.

É essa distância entre o proprietário formal e o controlador real que as investigações procuram reconstruir.

As autoridades estimam que as medidas adotadas nesta etapa possam retirar mais de R$ 10 bilhões de circulação das estruturas investigadas, ao bloquear fluxos financeiros e patrimoniais associados aos negócios atingidos.

O número ajuda a revelar a escala do problema.

Já não se está falando de alguns postos vendendo combustível irregular em bairros isolados. Trata-se de um setor em que empresas podem ser utilizadas para movimentar cifras comparáveis ao orçamento anual de grandes cidades brasileiras.

A operação de 2025 revelou R$ 52 bilhões movimentados por cerca de mil postos

Para compreender a dimensão da Bomba Oculta, é necessário voltar a 28 de agosto de 2025.

Naquele dia, a Operação Carbono Oculto reuniu diversos órgãos públicos naquilo que a Receita Federal classificou como uma das maiores ações já realizadas contra estruturas econômicas do crime organizado no Brasil.

A investigação apontou que cerca de mil postos de combustíveis vinculados ao grupo investigado movimentaram aproximadamente R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

A apuração também identificou uma fintech suspeita de funcionar como uma espécie de “banco paralelo” da organização e pelo menos 40 fundos de investimento utilizados em estruturas de ocultação patrimonial.

Os números revelaram um modelo muito diferente daquela imagem tradicional do crime organizado restrito a armas, drogas e territórios.

A sofisticação estava justamente na capacidade de entrar na economia legal.

Postos.

Distribuidoras.

Empresas.

Instituições financeiras.

Fundos.

Patrimônio formalmente registrado.

A lógica é simples: quanto maior a capacidade de misturar dinheiro ilícito com receitas aparentemente legítimas, mais difícil se torna seguir o caminho original dos recursos.

O setor de combustíveis oferece características especialmente atraentes para esse tipo de operação. Existe grande volume diário de vendas, movimentação constante de caixa, alta capilaridade e uma cadeia que, segundo o governo, reúne mais de 130 mil agentes econômicos.

É um ambiente de enorme complexidade regulatória, tributária e comercial.

E, segundo as autoridades, essa complexidade foi explorada para lavagem de dinheiro, fraude fiscal e adulteração de produtos.

Quando o crime chega à bomba, o consumidor também paga

A dimensão financeira costuma dominar as manchetes, mas existe outro personagem diretamente atingido por esse tipo de esquema: quem estaciona o carro para abastecer.

Um mercado contaminado por agentes clandestinos produz diferentes riscos.

Um deles é a adulteração do combustível.

Produto fora das especificações pode provocar falhas no motor, danos mecânicos, aumento de consumo e emissões superiores às permitidas.

Outro problema é tributário.

Empresas que sistematicamente deixam de recolher impostos conseguem vender em condições que estabelecimentos regulares dificilmente conseguem acompanhar, distorcendo a concorrência.

Há ainda uma terceira consequência, mais grave e menos perceptível para quem olha apenas o preço exibido na placa.

Quando um estabelecimento é utilizado para lavar recursos produzidos por outras atividades criminosas, parte do dinheiro gasto pelo consumidor pode circular dentro de uma estrutura financeira que não possui como finalidade principal apenas o comércio de combustível.

A Receita Federal afirma que o setor se tornou instrumento para lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, sonegação contumaz e adulteração de combustíveis.

Essa é provavelmente a dimensão mais perturbadora da investigação.

O crime organizado moderno não precisa controlar apenas esquinas.

Pode controlar empresas.

O posto como fronteira entre economia legal e dinheiro ilícito

O avanço das investigações sobre combustíveis revela uma transformação importante na forma como o Estado enfrenta organizações criminosas.

Durante décadas, a resposta esteve concentrada em apreensões de drogas, armas e prisões de integrantes das facções.

Essas operações continuam necessárias.

Mas possuem uma limitação evidente: organizações com grande capacidade financeira conseguem recompor parte das perdas enquanto mantêm funcionando seus mecanismos de financiamento.

A estratégia vista na Bomba Oculta procura atingir justamente esse ponto.

O objetivo deixa de ser apenas prender quem executa determinada atividade criminosa e passa a envolver o bloqueio da empresa que movimenta o dinheiro, do cadastro que permite emitir a nota fiscal, da conta bancária usada na operação e do patrimônio construído para armazenar a riqueza.

É o chamado estrangulamento financeiro.

Sem dinheiro, uma organização perde capacidade de comprar armas, financiar operações, corromper agentes, adquirir empresas, contratar intermediários e ampliar sua influência sobre setores da economia.

Por isso, a expressão “crime organizado” assumiu um significado muito diferente nos últimos anos.

Um grupo criminoso sofisticado pode possuir uma estrutura capaz de atravessar a fronteira entre clandestinidade e mercado formal repetidas vezes.

O dinheiro sai de uma atividade ilegal.

Entra em uma empresa.

Circula por outra.

Passa por uma instituição financeira.

Pode ser transformado em patrimônio.

E reaparece, depois de várias operações, com aparência de riqueza legítima.

É essa trilha que as autoridades tentam interromper.

Ainda é investigação — e isso precisa ficar claro

A dimensão da operação exige também cuidado jornalístico.

O bloqueio de um CNPJ, a interdição de um estabelecimento ou a inclusão de uma pessoa numa investigação não equivalem a uma condenação criminal definitiva.

Os diferentes envolvidos possuem direito de defesa, e responsabilidades individuais terão de ser demonstradas nos procedimentos administrativos e processos judiciais correspondentes.

Da mesma forma, seria incorreto concluir que todo o setor de combustíveis está contaminado pelo crime organizado.

O mercado brasileiro possui milhares de empresas regularmente autorizadas que operam de acordo com as regras tributárias, ambientais e regulatórias.

O problema apontado pelas operações está justamente na utilização de uma parcela dessa enorme infraestrutura econômica por grupos investigados por atividades ilícitas.

A ANP afirma que vem ampliando ferramentas de inteligência para identificar agentes suspeitos de irregularidades estruturadas e trabalhar em cooperação com autoridades criminais e fiscais.

A Bomba Oculta representa uma tentativa de integrar esses bancos de dados.

Se um posto perde autorização regulatória, a informação precisa chegar à Receita.

Se continua comprando combustível, o fluxo precisa ser identificado.

Se movimenta dinheiro por contas empresariais, as autoridades precisam conseguir seguir o patrimônio.

O desafio está justamente em fechar os espaços existentes entre diferentes órgãos do Estado.

A guerra contra o crime organizado também será travada no CNPJ

A imagem de policiais lacrando bombas de combustível é provavelmente a parte mais visível da operação desta sexta-feira.

Mas talvez não seja a mais importante.

O verdadeiro movimento ocorre nos cadastros, contas, documentos fiscais, estruturas societárias e fluxos financeiros.

A previsão de tornar 1.283 CNPJs inaptos demonstra que o Estado está tentando atacar aquilo que permitia a determinadas estruturas investigadas permanecerem vivas mesmo depois de perderem autorização para operar.

É uma guerra diferente daquela que costuma aparecer nas imagens de televisão.

Há menos fuzis.

Mais planilhas.

Menos barricadas.

Mais documentos fiscais.

Mas o objetivo é atingir a mesma estrutura criminosa pelo lugar em que ela mais precisa permanecer invisível: o dinheiro.

A Operação Carbono Oculto já havia mostrado que o posto de combustível poderia ser apenas a superfície de uma rede muito maior.

Um ano depois, a Bomba Oculta tenta cortar a ligação entre a bomba, o CNPJ e os recursos que continuam circulando.

O resultado dessa ofensiva ainda dependerá das investigações e dos processos que virão.

Mas uma conclusão já parece impossível de ignorar.

O combate ao crime organizado brasileiro deixou definitivamente de acontecer apenas nas ruas.

Agora, ele também passa pela contabilidade.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Nepal vive tragédia nos Himalaias: enchente repentina deixa 95 mortos e centenas de desaparecidos


Onda de água, lama e rochas devastou comunidades próximas à fronteira com o Tibete, destruiu estradas, pontes e usinas hidrelétricas e atingiu uma rota utilizada por peregrinos e turistas. Centenas de estrangeiros estão entre as pessoas ainda sem contato.

Uma das maiores tragédias naturais dos últimos anos no Nepal atingiu nesta quarta-feira, 26 de agosto, comunidades montanhosas no norte do país e deixou um cenário de destruição ao longo dos rios Bhotekoshi e Trishuli. O balanço divulgado pelo gabinete do primeiro-ministro nepalês chegou a 95 mortos, enquanto centenas de pessoas permanecem desaparecidas e equipes de resgate tentam alcançar localidades isoladas pela destruição de estradas e pontes.

A inundação começou pela manhã na região de Rasuwa, próxima à fronteira entre Nepal e o Tibete, na China. Testemunhas e imagens divulgadas ao longo do dia mostram uma enorme massa de água carregada de lama, pedras e destroços avançando pelos vales e atingindo construções em questão de minutos.

A força da correnteza destruiu casas, postos policiais, estruturas alfandegárias, projetos hidrelétricos e trechos inteiros das principais ligações rodoviárias da região. Segundo informações reunidas pelas autoridades nepalesas, 19 pontes transitáveis e aproximadamente 40 quilômetros de estradas pavimentadas foram destruídos ou gravemente danificados.

A dimensão humana da tragédia continua difícil de determinar. O Nepal Tourism Board informou que 403 turistas e viajantes estavam sem contato, sendo 341 estrangeiros e 62 nepaleses. A relação inclui cidadãos de mais de 25 países. Indianos formam o maior grupo estrangeiro listado, com 133 desaparecidos, seguidos por 47 americanos, 34 australianos, 33 britânicos e 24 canadenses.

Além deles, trabalhadores de projetos hidrelétricos, policiais, agentes de segurança e funcionários da alfândega também estavam sem contato ao longo do dia, o que significa que o número total de pessoas ainda não localizadas pode superar a relação de turistas divulgada pelas autoridades.

Parte dessas pessoas seguia em direção ao Monte Kailash, no Tibete, considerado sagrado por diferentes tradições religiosas e destino de peregrinação principalmente para hindus. Outros viajantes estavam na região de Gosaikunda, no Nepal, em um período de grande movimentação por causa de celebrações religiosas locais.

Uma parede de água desceu pelos vales

Os primeiros relatos indicam que a cheia atingiu o rio Bhotekoshi por volta das 9h da manhã no horário local. Em determinados pontos, o nível do sistema fluvial teria aumentado de maneira extraordinariamente rápida.

Pesquisadores do International Centre for Integrated Mountain Development, instituição especializada no estudo da região do Hindu Kush-Himalaia, informaram que medições hidrológicas registraram uma elevação de até nove metros em aproximadamente meia hora em um ponto do rio Trishuli.

Esse tipo de fenômeno ajuda a explicar por que a destruição foi tão rápida.

Diferentemente de uma inundação convencional, na qual o nível do rio pode subir gradualmente durante horas de chuva, uma enchente provocada pelo rompimento repentino de uma barreira natural pode lançar uma enorme quantidade de água pelo vale em poucos minutos.

Foi exatamente essa dinâmica que cientistas começaram a investigar ainda nesta quarta-feira.

Uma avaliação preliminar de pesquisadores nepaleses aponta que uma avalanche de gelo e rochas pode ter atingido e bloqueado o rio Lhende, tributário do Bhotekoshi. A água teria se acumulado atrás dessa barreira temporária até que ela cedeu, produzindo uma onda extremamente violenta em direção às comunidades localizadas abaixo.

A hipótese ainda está sendo investigada e não deve ser tratada como conclusão definitiva.

Autoridades do Nepal também analisam uma possível relação com um terremoto de magnitude 4,4 registrado naquela manhã próximo à fronteira com o Tibete. O ministro das Relações Exteriores informou ao Parlamento que o tremor ocorreu por volta das 8h37 e que a inundação foi percebida poucos minutos depois. Ainda não há comprovação, entretanto, de que o terremoto tenha sido diretamente responsável pelo desprendimento que desencadeou a tragédia.

A diferença é importante. Neste momento, os cientistas sabem que houve uma enorme liberação repentina de água e que há fortes indícios de participação de uma avalanche de gelo e rocha. Estabelecer exatamente o que provocou essa avalanche e reconstruir toda a sequência do desastre exigirá análise de imagens de satélite, registros sísmicos e observações de campo.

Cidades e infraestrutura foram devastadas

Rasuwa abriga estradas estratégicas que conectam o Nepal à fronteira chinesa e também diversos projetos de geração de energia.

A enchente atingiu áreas como Timure e Syabrubesi, dois pontos importantes para circulação de moradores, turistas e mercadorias.

O Departamento de Estradas informou que o trecho de aproximadamente 42 quilômetros entre Betrawati e a passagem fronteiriça de Rasuwagadhi sofreu destruição em vários pontos. Pontes de concreto foram arrancadas pela correnteza e a comunicação terrestre com determinadas regiões ficou interrompida.

Projetos hidrelétricos também foram atingidos. Informações divulgadas no Nepal indicaram que centenas de megawatts de capacidade de geração ficaram temporariamente fora de operação devido aos danos provocados pela inundação.

Em Nuwakot, mais abaixo no curso do rio, famílias relataram casas completamente destruídas e parentes arrastados pela correnteza. Moradores descrevem uma onda que chegou com pouca margem para reação e transformou comunidades inteiras em áreas cobertas por lama e destroços.

A operação de busca também enfrenta exatamente o mesmo problema deixado pela inundação: chegar aos lugares onde as pessoas precisam ser resgatadas.

Com estradas destruídas, pontes desaparecidas e comunicações interrompidas, helicópteros se tornaram essenciais. O Exército nepalês e operadores privados realizaram evacuações aéreas durante o dia, enquanto equipes terrestres buscavam sobreviventes nas margens dos rios e entre os escombros.

O governo pediu colaboração internacional. Índia e China ofereceram apoio às operações, e outros países começaram a mobilizar suas representações diplomáticas diante do grande número de estrangeiros desaparecidos.

No lado chinês da fronteira, a tragédia também provocou mortes e desaparecimentos. Autoridades chinesas informaram pelo menos três mortos e centenas de pessoas desaparecidas na região tibetana de Gyirong, elevando para pelo menos 98 o número de mortes confirmadas nos dois lados da fronteira até o balanço disponível nesta quarta-feira.

O Himalaia está cada vez mais vulnerável

A tragédia também reacendeu uma preocupação que cientistas vêm repetindo há anos: as altas montanhas do Himalaia estão passando por mudanças aceleradas.

A região Hindu Kush-Himalaia reúne algumas das maiores concentrações de gelo fora das áreas polares. O aumento das temperaturas altera geleiras, favorece a formação e expansão de lagos glaciais e pode desestabilizar encostas formadas por gelo, neve e rochas.

Isso não significa que seja possível atribuir individualmente qualquer avalanche ou enchente exclusivamente às mudanças climáticas sem estudos específicos. O que a literatura científica mostra é que o aquecimento da região aumenta fatores capazes de elevar o risco de eventos relacionados a geleiras e lagos glaciais.

Pesquisadores citados pela Associated Press afirmam que a perda de gelo nas geleiras da região acelerou desde o início deste século.

O Nepal conhece esse risco de perto.

A mesma região de Rasuwa já havia sido atingida por uma grande inundação no ano anterior. Naquela ocasião, a descarga repentina de um lago glacial no Tibete também provocou mortes e destruiu infraestrutura importante, incluindo uma ponte que ligava Nepal e China.

A repetição de dois episódios graves em pouco mais de um ano reforçou o debate sobre sistemas de alerta antecipado.

Quando uma inundação começa do outro lado de uma fronteira internacional e percorre rapidamente um sistema de rios montanhosos, minutos podem determinar a diferença entre evacuar uma comunidade e ser surpreendido pela onda.

O governo nepalês reconheceu nesta quarta-feira que ainda existem dúvidas sobre a origem exata da enchente e voltou a discutir a necessidade de mecanismos mais eficientes de troca de informações em tempo real com a China.

Número de vítimas ainda pode mudar

O cenário segue em desenvolvimento.

O número de mortos subiu rapidamente durante esta quarta-feira à medida que equipes conseguiram acessar novas regiões e corpos foram encontrados ao longo dos rios.

Da mesma maneira, parte das pessoas inicialmente consideradas desaparecidas pode estar viva, mas impossibilitada de estabelecer contato devido à destruição de estradas, energia e telecomunicações.

Por isso, os números devem ser tratados como provisórios.

Até a atualização mais recente consultada pelo Papo de Nível, as autoridades nepalesas contabilizavam 95 mortes no Nepal, enquanto centenas de pessoas permaneciam sem contato. Somadas as três mortes relatadas no Tibete, o desastre já havia provocado pelo menos 98 vítimas fatais na região de fronteira entre Nepal e China.

Mais do que os números, porém, as imagens que emergiram dos vales do Himalaia revelam a velocidade com que a tragédia aconteceu.

Onde poucas horas antes existiam estradas, casas, hotéis, postos policiais e estruturas de comércio internacional, restaram áreas cobertas por lama, pedras e destroços.

Para centenas de famílias, a noite desta quarta-feira começa sem qualquer confirmação sobre o paradeiro de parentes.

Para as equipes de emergência, a corrida será contra o terreno, o tempo e a possibilidade de novas instabilidades nos rios.

E para os cientistas, começa também uma investigação decisiva: compreender como uma avalanche nas altas montanhas conseguiu produzir uma onda capaz de atravessar vales inteiros e provocar uma das mais graves catástrofes recentes do Nepal.