*Marcelo Alves de Souza
Marcelo Alves de Souza, Gerente de Prevenção e
Combate à Fraude e PLDFT do Banco Bari
A transformação digital acelerou a inclusão
financeira no Brasil, mas também abriu espaço para uma nova geração de fraudes
altamente sofisticadas. O avanço da inteligência artificial (IA) trouxe ganhos
importantes para o sistema financeiro, como automação, análise preditiva e
melhoria da experiência do usuário. Porém, a mesma tecnologia passou a ser
utilizada por criminosos para aplicar golpes mais convincentes, personalizados
e difíceis de detectar.
Dados recentes da Polícia Federal apontam que o
número de vídeos e áudios falsos produzidos com IA cresceu mais de 800% entre
2024 e 2025, evidenciando a velocidade com que os crimes digitais estão
evoluindo. O cenário já preocupa bancos, fintechs e órgãos reguladores,
especialmente porque o Brasil se tornou um dos países mais visados por ataques
envolvendo deepfakes, engenharia social e manipulação de identidade digital.
Entretanto, a inteligência artificial mudou
completamente o cenário das fraudes financeiras nos últimos anos. As fraudes
ficaram mais sofisticadas, convincentes e escaláveis. Ao mesmo tempo,
conseguimos ver que a própria IA também fortaleceu os mecanismos de
monitoramento, detecção e tratamento de alerta suspeitos.
Essa disputa tecnológica entre criminosos e
instituições financeiras criou uma verdadeira corrida armamentista digital.
Hoje, os golpes não dependem mais apenas de mensagens mal escritas ou ligações
suspeitas facilmente identificáveis. Ferramentas de IA conseguem reproduzir
vozes, rostos, padrões de escrita e até comportamentos humanos com enorme
precisão, tornando os ataques quase indistinguíveis da comunicação legítima.
Ou seja, o impacto vai além do prejuízo financeiro.
A sofisticação dos golpes compromete a confiança do consumidor no sistema
bancário e provoca danos emocionais relevantes. Muitas vítimas relatam
constrangimento, insegurança e sensação de vulnerabilidade após serem enganadas
por fraudes cada vez mais realistas. Em um ambiente no qual a confiança é um
dos principais ativos do setor financeiro, o desafio reputacional também
cresce.
Outro ponto crítico é que não existe mais um único
perfil vulnerável. Enquanto idosos continuam sendo alvo frequente de golpes
ligados a falso suporte técnico e empréstimos consignados, os jovens e usuários
altamente conectados são impactados por fraudes em marketplaces, redes sociais,
jogos online e aplicativos financeiros. Isso mostra que a ameaça se espalhou
por todas as camadas digitais da sociedade.
Para enfrentar esse cenário, bancos vêm ampliando
investimentos em inteligência artificial aplicada à prevenção de fraudes.
Monitoramento comportamental, análise transacional em tempo real, autenticação
baseada em risco e biometria multicamadas já fazem parte da rotina das
instituições financeiras. O objetivo deixou de ser apenas identificar operações
suspeitas, agora é necessário distinguir comportamentos legítimos de ações
artificialmente manipuladas.
Não à toa, a segurança baseada em camadas se tornou
uma das estratégias mais eficientes. Biometria facial e autenticação em duas
etapas continuam sendo importantes, mas já não são suficientes isoladamente. O
cruzamento de dados comportamentais, localização geográfica, padrão de compra,
velocidade de navegação e perfil transacional passou a ser essencial para
detectar anomalias em tempo real.
Além da tecnologia, cresce também a necessidade de
educação digital. A população precisa entender que golpes modernos exploram
principalmente emoções humanas, como urgência, medo e ansiedade. Mensagens
alarmantes, contatos inesperados, ofertas “imperdíveis” e pedidos incomuns
continuam sendo sinais importantes de alerta, mesmo em uma era de conteúdos
gerados por IA quase perfeitos.
Do ponto de vista regulatório
O Brasil ainda está em fase de adaptação. O país
possui uma base relevante de normas relacionadas à proteção de dados e
segurança bancária, mas a velocidade da evolução tecnológica exige atualizações
constantes. O desafio regulatório será equilibrar inovação, segurança e
experiência do usuário sem criar barreiras excessivas para consumidores e
empresas.
A tendência para os próximos anos é clara, os
golpes com inteligência artificial se tornarão ainda mais personalizados,
automatizados e convincentes. Entretanto, o mesmo avanço tecnológico também
permitirá mecanismos de defesa mais inteligentes e preditivos. O futuro da
segurança financeira dependerá da capacidade de bancos, reguladores e
consumidores evoluírem juntos em um ambiente digital cada vez mais complexo.
No fim das contas, a inteligência artificial não é o problema em si. O verdadeiro desafio está na velocidade com que a sociedade consegue adaptar seus mecanismos de proteção diante de uma tecnologia que evolui diariamente. Em um país altamente digitalizado como o Brasil, proteger a confiança no sistema financeiro é tão importante quanto proteger o próprio dinheiro.
*Marcelo Alves de Souza, Gerente de Prevenção e
Combate à Fraude e PLDFT do Banco Bari
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.