quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Prefeituras do Paraná gastaram quase R$ 1,2 bilhão com shows; TCE aponta casos que podem virar fiscalização


Levantamento reúne 10,9 mil empenhos feitos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. Fernando & Sorocaba lideram entre artistas identificados, enquanto São José dos Pinhais aparece no topo entre os municípios que mais desembolsaram

O volume impressiona antes mesmo de qualquer comparação.

Entre 2021 e o fim do primeiro semestre de 2026, as prefeituras do Paraná registraram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em gastos com shows artísticos, segundo um novo levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).

Os dados mostram como a contratação de atrações para festas, exposições, aniversários municipais e outros eventos se transformou em uma despesa relevante nos orçamentos locais. No período analisado, foram contabilizados 10.900 empenhos de pelo menos R$ 20 mil, envolvendo despesas classificadas como “Festividades e Homenagens” e “Contratação Artística e Cultural”.

O universo é amplo: 1.158 artistas, duplas, bandas ou grupos aparecem nas informações encaminhadas pelas próprias administrações municipais ao Tribunal.

Dos 399 municípios paranaenses, apenas seis não apresentaram registros desse tipo de despesa dentro dos critérios utilizados pelo painel: Campo do Tenente, Guaporema, Nova Cantu, Paulo Frontim, Pinhal de São Bento e Piraquara. Ou seja, 98,5% das prefeituras do estado tiveram algum gasto enquadrado nessas categorias durante o período analisado.

O levantamento ganhou uma dimensão ainda mais sensível porque o TCE encontrou situações em que a origem contábil do dinheiro pode indicar o uso de verbas vinculadas a outras finalidades.

Entre elas aparecem recursos associados à saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Corpo de Bombeiros e iluminação pública.

O Tribunal ressalva que a presença de um dado no painel não representa automaticamente uma irregularidade. Mas informou que pretende instaurar procedimentos específicos nos casos em que a análise confirmar utilização indevida de recursos públicos.

Quase R$ 600 milhões aparecem sem artista identificado

Outro dado chama atenção.

Levantamentos realizados a partir do painel do TCE indicam que aproximadamente R$ 596 milhões — quase metade do total — aparecem sem identificação do artista nos dados analisados.

Isso não significa necessariamente que os pagamentos tenham sido feitos sem documentação ou que sejam irregulares. O painel é construído a partir das informações enviadas pelos próprios municípios, e diferenças de preenchimento, classificação e identificação podem interferir na forma como os dados são agrupados.

O próprio Tribunal ressalta que a responsabilidade pela exatidão das informações pertence aos representantes legais e técnicos das entidades que as encaminharam aos sistemas de controle.

Ainda assim, o volume sem identificação nominal ajuda a explicar por que o TCE decidiu criar uma ferramenta específica para permitir que cidadãos, jornalistas, vereadores, pesquisadores e órgãos de fiscalização cruzem dados sobre eventos municipais.

É justamente entre os gastos que puderam ser associados aos artistas que surge um ranking bastante conhecido do público sertanejo.

A dupla Fernando & Sorocaba lidera o levantamento detalhado divulgado a partir do painel, com aproximadamente R$ 18,142 milhões recebidos em 66 apresentações contratadas por municípios paranaenses.

Na sequência aparecem Guilherme & Benuto, com cerca de R$ 13,234 milhões em 65 shows; Ana Castela, com R$ 12,625 milhões em 31 apresentações; Luan Pereira, com R$ 11,746 milhões em 60 contratos; e Maiara & Maraisa, com aproximadamente R$ 11,682 milhões em 27 shows.

Os números ajudam a revelar uma característica dos grandes eventos municipais no interior do país: o sertanejo domina boa parte das contratações de maior valor.

Nomes como Leonardo, Clayton & Romário, Rio Negro & Solimões, Bruno & Marrone, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano e Zezé Di Camargo & Luciano também aparecem entre os artistas que acumulam milhões de reais em apresentações pagas por administrações municipais.

O TCE calculou que o valor médio das contratações registradas no período foi de R$ 112,3 mil. Naturalmente, essa média reúne desde atrações regionais até artistas nacionais cujos cachês individuais podem atingir valores muito superiores.

São José dos Pinhais lidera gastos entre as prefeituras

Do outro lado da conta estão os municípios.

São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, liderou o ranking de despesas, com aproximadamente R$ 41,744 milhões distribuídos em 65 empenhos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026.

Paranaguá aparece em segundo lugar, com aproximadamente R$ 29,64 milhões, seguida por Castro, com R$ 25,807 milhões; Ponta Grossa, com R$ 25,776 milhões; e Fazenda Rio Grande, com R$ 21,354 milhões.

Os dados também mostram uma forte aceleração dos gastos após o período mais crítico da pandemia.

Em 2021, quando ainda existiam fortes restrições e impactos provocados pela Covid-19, foram registrados R$ 25,1 milhões em despesas desse tipo.

Em 2024, o valor já havia chegado a R$ 292,2 milhões.

O recorde ocorreu em 2025, com R$ 403,5 milhões gastos em shows pelas administrações municipais.

Somente no primeiro semestre de 2026, os registros já somavam R$ 144,7 milhões.

A evolução demonstra que eventos públicos voltaram com força aos calendários municipais após a pandemia, acompanhados por um mercado artístico em que cachês de atrações nacionais frequentemente chegam a centenas de milhares de reais por noite.

O painel revela ainda que aproximadamente R$ 4,3 milhões vieram de transferências por emendas parlamentares destinadas a custear shows, o equivalente a cerca de 0,35% de todo o montante contabilizado.

Festa pública não é irregular; origem e destino do dinheiro fazem diferença

O levantamento do Tribunal não parte da premissa de que gastar dinheiro público com cultura, lazer ou entretenimento seja irregular.

A própria Corte destaca que cultura e lazer são direitos assegurados constitucionalmente e afirma que o painel tem caráter informativo, destinado a ampliar a transparência e incentivar a boa administração dos recursos públicos.

Uma festa municipal também pode gerar efeitos econômicos concretos.

Shows de grande porte atraem visitantes, aumentam o movimento em hotéis, bares e restaurantes, movimentam serviços de transporte, comércio ambulante e estruturas temporárias, além de produzirem exposição turística para cidades que normalmente teriam pouca projeção nacional.

O problema jurídico e administrativo surge quando a origem do dinheiro possui uma finalidade determinada.

Recursos vinculados à saúde ou à educação, por exemplo, não podem simplesmente ser deslocados para outras despesas porque uma prefeitura decidiu realizar um evento.

Foi justamente o cruzamento das fontes contábeis dos recursos que levou os técnicos do TCE a identificar situações que merecem análise mais profunda.

O Tribunal afirma que verificará os casos individualmente e instaurará procedimentos quando houver comprovação de uso irregular. Até que isso ocorra, é importante distinguir indício de irregularidade de irregularidade efetivamente comprovada.

Essa diferença também vale para os artistas.

A presença de Fernando & Sorocaba, Ana Castela, Guilherme & Benuto ou qualquer outro nome no ranking significa que apresentações foram contratadas por municípios e tiveram valores registrados no sistema. O levantamento, por si só, não atribui aos artistas qualquer responsabilidade por eventual problema na fonte utilizada pelas prefeituras para realizar os pagamentos.

A responsabilidade pela execução do orçamento, classificação das despesas e respeito às vinculações legais é da administração pública responsável pela contratação.

Um novo nível de transparência sobre os cachês

Talvez o aspecto mais relevante do levantamento esteja menos no ranking dos artistas e mais na possibilidade de acompanhar como esse dinheiro é gasto.

O Painel de Gastos com Eventos Municipais, incorporado ao Portal Informação para Todos do TCE-PR, permite pesquisar despesas por prefeitura, período, artista, valor e fonte do recurso. Também possibilita comparar o dinheiro destinado a shows com receitas municipais e investimentos em áreas como saúde e educação.

A ferramenta utiliza ainda processos automatizados de classificação de dados, com apoio de inteligência artificial, para organizar as informações encaminhadas pelos municípios.

E essa transparência pode produzir uma discussão mais qualificada do que simplesmente perguntar se uma prefeitura “deveria ou não” contratar determinado cantor.

Uma cidade pode decidir que uma grande festa é importante para sua economia, turismo ou identidade cultural. Outra pode considerar mais adequado priorizar outros investimentos.

O ponto central é que, quando a conta é paga com dinheiro público, a sociedade tem o direito de saber quanto foi gasto, quem recebeu, de onde saiu o recurso e se a legislação foi respeitada.

No Paraná, essa conta chegou a quase R$ 1,2 bilhão em seis anos e meio.

Agora, com milhares de contratos reunidos em uma única base e possíveis inconsistências sob análise, o próximo capítulo deixa os palcos e entra definitivamente na fiscalização das contas públicas.

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