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domingo, 13 de setembro de 2026

Veículo de secretaria municipal é visto próximo a comício em Cabo Frio; prefeitura é procurada


Relato aponta que carro oficial teria transportado cinco mulheres até evento político na Praia do Forte

Um veículo adesivado da Secretaria de Políticas para as Mulheres de Cabo Frio foi visto, na manhã deste sábado (12), nas proximidades de um comício do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL), realizado na Praia do Forte.

Segundo informações divulgadas pelo Manchete Lagos, o carro teria sido utilizado para transportar cinco mulheres até o evento. No mesmo palanque estavam o prefeito Dr. Serginho (PL) e a irmã dele, Dra. Gabriela, candidata a deputada estadual pelo mesmo partido.

O automóvel, um Renault Kwid identificado na reportagem pela placa RJU-1C59, estava estacionado na Rua Sergipe, no bairro Vila Nova, próximo ao local do comício. Ainda de acordo com o relato, após o encerramento do evento, cinco mulheres entraram no veículo. Nenhuma delas estaria usando uniforme de trabalho.

Imagens analisadas pela reportagem mostram duas mulheres vestindo camisas com as cores da seleção brasileira e outra usando uma bandeira do Brasil amarrada à cintura. Os registros, no entanto, não comprovam sozinhos a finalidade do deslocamento nem quem autorizou o uso do automóvel.

Uso de veículo público pode configurar conduta vedada

A Lei das Eleições proíbe a cessão ou o uso de bens móveis e imóveis pertencentes à administração pública em benefício de candidatos, partidos ou coligações.

O Tribunal Superior Eleitoral considera que a utilização de veículo oficial em benefício eleitoral pode caracterizar conduta vedada prevista no artigo 73, inciso I, da Lei nº 9.504/1997. A configuração depende da análise das provas, da finalidade do deslocamento e da eventual ligação entre o uso do bem público e a atividade de campanha. Veja o entendimento do TSE sobre veículos oficiais.

Caso a irregularidade seja comprovada, os envolvidos podem ficar sujeitos a sanções eleitorais, incluindo multas. Dependendo da apuração, do grau de responsabilidade e das decisões tomadas pelas autoridades competentes, também podem existir consequências administrativas e judiciais.

A eventual responsabilização de um candidato beneficiado não é automática e depende da avaliação da Justiça Eleitoral sobre as provas e as circunstâncias do caso.

Prefeitura ainda não se manifestou

O Manchete Lagos informou que procurou a Prefeitura de Cabo Frio para esclarecer quem autorizou o deslocamento, qual era a finalidade oficial da viagem e se o veículo estava em serviço no momento do flagrante.

Até a publicação desta matéria, não havia sido divulgada resposta oficial. O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura, da Secretaria de Políticas para as Mulheres e dos demais citados.

A imagem que acompanha esta matéria é ilustrativa e não representa o veículo ou o momento exato do fato.



quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Brasil resgata 479 trabalhadores em condições análogas à escravidão; 13 eram crianças e adolescentes


Operação realizada em agosto percorreu todas as regiões do país, identificou vítimas no campo, na construção civil e dentro de residências e elevou para mais de 70 mil o número de resgatados desde 1995

Uma operação nacional de combate ao trabalho escravo contemporâneo resgatou 479 trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão durante o mês de agosto. Entre as vítimas estavam 13 crianças e adolescentes, além de migrantes de países como Argentina, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Senegal e Guiné-Bissau.

A Operação Resgate 6 realizou 231 ações fiscais em todas as regiões do Brasil. A força-tarefa reuniu auditores do Ministério do Trabalho e Emprego, integrantes do Ministério Público do Trabalho, Ministério Público Federal, Defensoria Pública da União e Polícia Federal.

Os empregadores identificados durante as fiscalizações deverão pagar cerca de R$ 3,49 milhões em verbas rescisórias às vítimas. Também foram emitidos 1.836 autos de infração por irregularidades relacionadas a trabalho infantil, falta de registro, ausência de equipamentos de proteção e descumprimento de normas de saúde e segurança.

As informações foram divulgadas nesta quarta-feira, 9 de setembro, pela Folha de S.Paulo e pelo UOL.

Maioria dos casos ocorreu no meio rural

As fiscalizações no meio rural representaram 57,5% das ações e resultaram no resgate de 292 trabalhadores. Foram identificadas irregularidades em plantações de café, cebola e batata, principalmente em Minas Gerais.

O estado concentrou 208 vítimas, muitas delas migrantes que trabalhavam em lavouras sem carteira assinada, sem água potável, sem instalações sanitárias e sem equipamentos de proteção.

Em algumas propriedades, os trabalhadores dormiam em cozinhas ou em alojamentos improvisados, conviviam com instalações elétricas precárias e não tinham locais adequados para fazer refeições ou descansar.

Também houve registros de exposição a poeira, sujeira, agrotóxicos e jornadas extensas em atividades agrícolas. Em determinados casos, os trabalhadores eram recrutados em outros estados e ficavam submetidos a uma situação de dependência que dificultava a saída do local.

Construção civil e carvoarias também aparecem

No meio urbano, a construção civil foi o setor com maior número de vítimas, com 85 trabalhadores resgatados.

As equipes encontraram problemas relacionados à falta de registro, alojamentos inadequados, ausência de equipamentos de segurança e condições precárias de higiene. Parte dos trabalhadores vivia no próprio local onde prestava serviço, sem estrutura mínima de moradia.

Em Roraima, cinco trabalhadores venezuelanos foram encontrados em uma carvoaria instalada em condições improvisadas. Segundo os relatos da fiscalização, eles estavam expostos a poeira, calor, sujeira e instalações sem segurança adequada.

Em outro caso, um trabalhador permaneceu por aproximadamente um ano e meio sem registro e sem receber salário enquanto atuava na construção de cercas e na criação de animais.

Trabalhadora doméstica ficou décadas sem salário

Um dos casos mais delicados foi registrado em São Paulo, onde uma mulher de 51 anos foi resgatada após passar cerca de 40 anos trabalhando para a mesma família sem registro formal e sem receber salário de maneira regular.

As investigações mostraram que ela realizava atividades domésticas, mas não possuía os mesmos direitos, oportunidades ou autonomia dos demais integrantes da residência.

O caso se soma a outros resgates recentes de trabalhadoras domésticas idosas em Belo Horizonte. Duas mulheres, de 65 e 90 anos, foram retiradas de uma situação de exploração após permanecerem por décadas vinculadas à mesma família.

A mais velha teria passado 75 anos na residência, desde a adolescência. A outra permaneceu no local por aproximadamente 58 anos. As duas realizavam tarefas como limpeza, compras e preparo de refeições, sem salário regular, carteira assinada ou descanso adequado.

Os empregadores alegaram que as mulheres eram tratadas como integrantes da família. A fiscalização, porém, identificou que elas não tinham acesso aos mesmos direitos, oportunidades de educação, autonomia financeira e convivência social dos demais moradores.

Após o resgate, as duas foram encaminhadas para a rede de proteção e passaram a receber acompanhamento de órgãos de assistência social e saúde.

Brasil ultrapassa 70 mil resgatados

Com os resultados da Operação Resgate 6, o Brasil ultrapassou a marca de 70 mil trabalhadores retirados de condições análogas à escravidão desde 1995.

De acordo com o levantamento divulgado pelo UOL, o número chegou a pelo menos 70.271 pessoas resgatadas em ações realizadas desde a criação do sistema nacional de fiscalização.

As vítimas são encontradas em atividades como pecuária, agricultura, construção civil, produção de carvão, oficinas de costura, serviços domésticos e extração de recursos naturais.

A legislação brasileira considera trabalho análogo à escravidão situações que envolvem trabalho forçado, servidão por dívida, condições degradantes ou jornada exaustiva. Não é necessário que a vítima esteja presa fisicamente para que o crime seja caracterizado.

A falta de liberdade pode ocorrer por ameaças, retenção de documentos, dívidas fraudulentas, isolamento geográfico, dependência econômica ou pela ausência de condições para que o trabalhador deixe o local com segurança.

Fiscalização ainda depende de denúncias

A Operação Resgate é realizada anualmente, mas as fiscalizações ocorrem durante todo o ano a partir de denúncias e informações encaminhadas aos órgãos competentes.

Além do pagamento de salários e verbas rescisórias, as vítimas podem ter direito a indenizações, seguro-desemprego especial e inclusão em programas de assistência social.

Durante a operação de agosto, mais de R$ 1,4 milhão em verbas trabalhistas e rescisórias já havia sido pago aos trabalhadores resgatados. Também foram firmados termos de ajuste de conduta e ajuizadas ações civis públicas para responsabilizar empregadores.

Os resultados mostram que o trabalho escravo contemporâneo continua presente em áreas rurais e urbanas, em empresas, fazendas, carvoarias, obras e residências particulares.

A escravidão formal foi abolida no Brasil em 1888, mas a exploração extrema de trabalhadores permanece como um problema atual. O resgate de 479 pessoas em apenas um mês revela a dimensão de uma realidade que muitas vezes permanece escondida atrás de contratos informais, falsas relações familiares e promessas de emprego.

Denúncias de trabalho análogo à escravidão podem ser feitas de forma anônima pela Plataforma Ipê ou pelo Disque 100.

domingo, 6 de setembro de 2026

PF aponta pedido de Dr. Serginho para conter fiscalização ambiental; sequência de controvérsias amplia questionamentos sobre sua atuação política


Relatório da Operação Sem Refino 2 afirma que o atual prefeito de Cabo Frio teria pedido a suspensão de operações do Inea em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até as eleições de 2024; episódio se soma a outras investigações e controvérsias envolvendo estruturas públicas e o entorno político do prefeito

Uma revelação da Polícia Federal coloca novamente Dr. Serginho (PL), prefeito de Cabo Frio, diante de um questionamento que ultrapassa uma disputa partidária: até que ponto interesses eleitorais podem interferir no funcionamento normal de órgãos públicos?

Segundo trecho da representação da PF reproduzido na decisão da Operação Sem Refino 2, Dr. Serginho, quando ainda disputava a Prefeitura de Cabo Frio em 2024, teria solicitado ao então secretário estadual do Ambiente, Bernardo Rossi, que não fossem realizadas operações de fiscalização ambiental em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até a eleição municipal.

A informação não representa uma condenação do prefeito, tampouco demonstra isoladamente a prática de crime. Mas, se confirmada, revela um comportamento institucionalmente grave: a tentativa de condicionar o calendário de fiscalização ambiental ao calendário eleitoral.

De acordo com a PF, Bernardo Rossi teria repassado a solicitação ao então presidente do Instituto Estadual do Ambiente, Renato Jordão Bussiere. Bussiere respondeu que uma equipe já havia fiscalizado São Pedro da Aldeia naquela semana, mas indicou que aquilo não voltaria a ocorrer no período mencionado. Os investigadores afirmaram que, naquele contexto, as “costuras políticas se sobressaíam” à proteção ambiental.

Esse é o ponto mais grave do episódio.

Não se discute aqui uma declaração infeliz, uma briga partidária ou uma interpretação sobre determinada política pública. O que aparece num relatório policial é a hipótese de que a atuação de um órgão de Estado teria sido ajustada para não criar dificuldades políticas a um candidato durante uma eleição.

Região ambientalmente sensível torna episódio ainda mais sério

Cabo Frio e São Pedro da Aldeia não são municípios onde a fiscalização ambiental pode ser tratada como atividade secundária.

Os dois fazem parte do Parque Estadual da Costa do Sol, unidade de conservação administrada pelo Inea que protege quase 10 mil hectares de ecossistemas da Região dos Lagos. Cabo Frio também integra a Área de Proteção Ambiental do Pau-Brasil, enquanto São Pedro da Aldeia possui áreas da APA da Serra de Sapiatiba, que protege remanescentes florestais e parte da Lagoa de Araruama.

O próprio histórico de atuação do Inea na região envolve combate a desmatamento, loteamentos clandestinos, ocupações de áreas protegidas e outras infrações ambientais. Em operações anteriores, o instituto chegou a desmontar invasões e construções irregulares dentro de unidades de conservação da Costa do Sol.

Por isso, a hipótese de suspender operações durante semanas por conveniência eleitoral não pode ser reduzida a uma questão burocrática.

Fiscalização ambiental existe justamente para ocorrer quando a irregularidade é identificada — não quando o calendário político considera conveniente.

Não é a primeira vez que o nome de Serginho aparece em controvérsias envolvendo estruturas públicas

O novo episódio chama atenção também porque não surge isoladamente na trajetória política de Dr. Serginho.

Em abril de 2025, a residência do prefeito foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Teatro Invisível 2, da Polícia Federal. A investigação apurava uma rede que teria utilizado atores para encenar conversas falsas em locais públicos com o objetivo de influenciar eleitores, além de suspeitas envolvendo contratos públicos. Dr. Serginho foi alvo da busca, mas isso não equivale a culpa ou condenação.

Na ocasião, o prefeito negou qualquer participação no esquema. Disse que não conhecia as pessoas investigadas, afirmou não possuir relação com as empresas envolvidas e declarou ser vítima de um equívoco da investigação.

Esse contraditório é fundamental: ser alvo de busca não significa ser culpado.

Mas também é legítimo observar que, para um agente político, a repetição de episódios envolvendo Polícia Federal, estruturas governamentais e campanhas eleitorais produz um desgaste que não pode ser eliminado simplesmente pela ausência, até aqui, de condenação definitiva.

Uerj e Faetec também já colocaram entorno político sob suspeita

Outro episódio ocorreu durante a eleição de 2022.

Uma investigação jornalística do UOL identificou pessoas ligadas às campanhas de Dr. Serginho e de outros parlamentares entre contratados remunerados com recursos de projetos da Uerj financiados pela Faetec. Parte dos entrevistados afirmou não ter realizado os serviços universitários pelos quais aparecia recebendo, embora tivesse participado de atividades eleitorais.

Dr. Serginho negou influência política sobre as contratações.

O caso provocou apurações no Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público do Rio e Procuradoria Regional Eleitoral, e a própria Uerj anunciou revisão de projetos e afirmou que eventual seleção por critérios políticos ou pagamento sem prestação de serviço seria ilegal e deveria ser punido.

Novamente, isso não autoriza afirmar que Dr. Serginho tenha sido responsável por desvio de recursos ou contratação de funcionários fantasmas.

Autoriza, contudo, registrar que pessoas politicamente relacionadas a sua campanha apareceram numa estrutura pública posteriormente submetida a investigações.

Antes disso, um assessor foi exonerado após áudio sobre vagas no Hospital Unilagos

Em 2021, quando Serginho comandava a Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, outro episódio causou repercussão em Cabo Frio.

Áudios atribuídos a um assessor da pasta, Leonardo da Costa Fonseca, indicavam que candidatos aprovados num processo seletivo para o Hospital Unilagos seriam posteriormente eliminados até que as vagas chegassem a pessoas ligadas ao grupo político. Após a divulgação, a secretaria anunciou a exoneração do assessor.

A própria secretaria contestou a interpretação dos áudios, afirmou que o processo seletivo era conduzido autonomamente pela Uerj e declarou que nenhum servidor da pasta tinha acesso à seleção. Também anunciou apuração interna.

Mais uma vez, não há base para atribuir a Dr. Serginho a autoria daquele diálogo.

Mas, quando episódios diferentes ao longo dos anos colocam repetidamente seu entorno político próximo de discussões sobre nomeações, contratos, campanhas, fiscalização e funcionamento de órgãos públicos, o debate deixa de ser apenas sobre cada caso isoladamente.

Passa a ser também sobre método político.

Uma vitória eleitoral expressiva não elimina a obrigação de prestar contas

Dr. Serginho não chegou à Prefeitura de Cabo Frio por acaso.

Em 2024, conquistou 84.317 votos, equivalentes a 69,19% dos votos válidos, derrotando com ampla vantagem a então prefeita Magdala Furtado. É um mandato eleitoral expressivo e precisa ser reconhecido como tal.

Mas força eleitoral e fiscalização pública são coisas diferentes.

Uma vitória nas urnas não concede imunidade política, administrativa ou jornalística. Ao contrário: quanto maior o poder concedido a uma autoridade, maior deve ser o escrutínio sobre a forma como esse poder é exercido.

É nesse contexto que a nova revelação da Polícia Federal merece atenção.

Serginho não é acusado, nesse trecho, de ter cometido pessoalmente um crime ambiental. O que a PF registra é outra coisa: ele teria buscado influência política para impedir que o órgão responsável justamente por fiscalizar possíveis infrações ambientais atuasse em dois municípios até o fim da eleição da qual participava.

Se essa versão estiver correta, a gravidade não depende da existência de uma multa, uma obra irregular específica ou um beneficiário identificado.

O problema está na própria lógica da solicitação.

Órgãos públicos não podem funcionar quando favorecem o calendário eleitoral de determinada liderança e parar quando sua atuação passa a representar inconveniência política.

O padrão que precisa ser explicado

É importante evitar duas simplificações.

A primeira seria declarar Dr. Serginho culpado por fatos que ainda estão sob investigação ou que não produziram condenação.

A segunda seria considerar cada episódio irrelevante simplesmente porque não existe sentença definitiva contra ele.

Jornalismo sério trabalha exatamente entre esses dois extremos.

Há um prefeito eleito democraticamente e com forte apoio popular. Há também uma trajetória cercada por episódios concretos que envolveram processos seletivos públicos, funcionários ligados a campanhas, operação da Polícia Federal e, agora, uma alegada tentativa de interferência em fiscalização ambiental durante período eleitoral.

Nenhum desses fatos, isoladamente ou em conjunto, permite ao jornal decretar culpa criminal.

Mas permitem perguntar se existe uma forma de exercício do poder em que relações políticas parecem se aproximar excessivamente do funcionamento de estruturas que deveriam obedecer exclusivamente ao interesse público.

Essa é a dimensão potencialmente nociva do episódio: não uma sentença sobre a pessoa de Dr. Serginho, mas o risco institucional de que influência política, interesse eleitoral e funcionamento da máquina pública se confundam.

A pergunta que o prefeito precisa responder

Até a publicação desta reportagem, não localizamos manifestação pública específica de Dr. Serginho respondendo ao trecho da Operação Sem Refino 2 que menciona o pedido para interromper fiscalizações ambientais. O espaço permanece aberto para sua manifestação.

A explicação é necessária.

Se não houve pedido para suspender operações, o prefeito precisa contestar objetivamente o conteúdo atribuído a ele.

Se houve uma conversa, mas com contexto diferente daquele interpretado pela Polícia Federal, esse contexto precisa ser apresentado.

E, caso tenha efetivamente solicitado que o Inea deixasse de fiscalizar Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até as eleições, cabe explicar por que um candidato a prefeito considerava legítimo interferir no calendário de atuação de um órgão ambiental estadual.

Não se trata de oposição ou situação.

Não se trata de ser contra ou a favor de Dr. Serginho.

Trata-se de uma regra elementar da administração pública: a fiscalização deve servir à lei e à sociedade, nunca à conveniência eleitoral de quem exerce ou pretende exercer o poder.

E é precisamente porque Dr. Serginho se tornou uma das figuras politicamente mais poderosas da Região dos Lagos que essas perguntas precisam ser feitas com ainda mais rigor.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Jogo de Sombras: operação mira grupo da Betnacional, bloqueia R$ 191 milhões e investiga movimentação superior a R$ 5 bilhões


Receita Federal e Ministério Público Federal apuram suspeitas de sonegação, evasão de divisas e lavagem de dinheiro em estrutura ligada a uma das maiores marcas de apostas do país; investigadores analisam operações em Curaçao, transferências internacionais e contas em fintechs, enquanto empresa afirma que colaborará com as autoridades

Uma das marcas mais conhecidas do mercado brasileiro de apostas esportivas entrou nesta sexta-feira, 28 de agosto, no centro de uma investigação que procura reconstruir o caminho de bilhões de reais movimentados entre o Brasil e o exterior.

A Receita Federal e o Ministério Público Federal deflagraram a Operação Jogo de Sombras, que investiga um grupo empresarial ligado à NSX Brasil, responsável pela Betnacional, por suspeitas de sonegação fiscal, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A investigação aponta que a estrutura empresarial examinada teria movimentado mais de R$ 5 bilhões somente em 2025.

Foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão em Recife, João Pessoa e São Paulo. Segundo informações atribuídas pelo Ministério Público à operação, a Justiça também determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 191 milhões em bens e valores. Paralelamente, a Receita abriu 11 procedimentos fiscais e estima que a apuração possa resultar na recuperação de cerca de R$ 300 milhões para os cofres públicos.

Não houve mandados de prisão nesta etapa.

A investigação ainda está em curso, e as suspeitas apresentadas pelos órgãos públicos não equivalem a condenação. A NSX Brasil afirmou que recebeu a diligência em seu escritório no Recife, disse que seus advogados ainda não haviam tido acesso integral aos autos e informou que colaborará com as autoridades, fornecendo os documentos e esclarecimentos solicitados.

O peso da operação, porém, vai muito além de uma discussão tributária envolvendo uma empresa.

O caso atinge um setor que, em poucos anos, passou a movimentar bilhões de reais, ocupar espaços nobres da publicidade brasileira, patrocinar clubes de futebol e transformar as apostas pelo celular em parte da rotina de milhões de pessoas. E coloca uma pergunta inevitável sobre o mercado que o governo decidiu regular: a legalização foi suficiente para tornar transparentes estruturas financeiras construídas quando as bets ainda operavam em uma zona regulatória muito diferente?

A empresa em Curaçao que chamou a atenção dos investigadores

Segundo a Receita Federal, um dos pontos centrais da investigação está na utilização de uma empresa constituída em Curaçao, território caribenho que durante anos serviu de sede para diversas plataformas de apostas que ofereciam seus serviços ao público brasileiro.

A suspeita é de que essa estrutura tenha sido utilizada para apresentar a operação como estrangeira em um período anterior à regulamentação efetiva das apostas de quota fixa no Brasil, embora empresas brasileiras ligadas ao grupo fossem, segundo os investigadores, responsáveis por atividades essenciais realizadas dentro do país.

Essa distinção é fundamental porque determina onde a receita era efetivamente gerada, onde deveria ser declarada e quais tributos poderiam incidir sobre as operações.

A Receita também identificou indícios de movimentações financeiras entre Brasil e exterior realizadas por meio de instituições de pagamento. Parte dos recursos enviados para fora teria retornado posteriormente ao país sob a forma de pagamentos por suposta prestação de serviços. Os investigadores procuram saber se esse mecanismo teria sido empregado para dar justificativa formal à entrada de valores anteriormente remetidos ao exterior.

Outra frente envolve as chamadas contas-bolsão em fintechs.

Nesse tipo de estrutura, recursos pertencentes a diferentes clientes ou beneficiários podem ficar concentrados em uma conta, dificultando a identificação imediata de quem é o verdadeiro proprietário de cada parcela do dinheiro. Para os investigadores, a utilização dessas contas pode ter tornado mais complexo o rastreamento dos valores e a identificação dos beneficiários finais das operações.

O trabalho agora deverá aprofundar justamente essa reconstrução: de onde saiu o dinheiro, por quais empresas passou, quem recebeu, quais serviços efetivamente existiram e quem se beneficiou economicamente das transações.

A Receita afirma ainda que há indícios de que a exploração de apostas no Brasil tenha ocorrido antes da obtenção da autorização formal necessária e sem o recolhimento de todos os tributos que seriam devidos. Os investigadores também querem identificar a origem dos recursos utilizados posteriormente para o pagamento da outorga que permitiu ao grupo entrar no mercado regulamentado.

A questão é particularmente sensível porque, se confirmada a hipótese investigativa, parte do dinheiro produzido durante uma fase anterior poderia ter contribuído para financiar a entrada da empresa no próprio mercado regularizado.

A regulamentação não encerrou as suspeitas

O aspecto mais delicado da Operação Jogo de Sombras talvez esteja no período posterior à regulamentação.

A investigação não se limita à época em que as plataformas de apostas operavam a partir de licenças estrangeiras e ofereciam serviços a brasileiros sem uma autorização nacional equivalente àquela exigida atualmente.

Segundo a Receita, existem indícios de que algumas estruturas utilizadas anteriormente teriam sido adaptadas e mantidas mesmo depois da entrada no mercado regulado, permitindo, em tese, a continuidade de mecanismos capazes de reduzir artificialmente o volume de tributos pagos.

Entre os pontos examinados estão despesas declaradas ao Fisco que podem não corresponder a serviços efetivamente prestados. Se essa suspeita for comprovada, despesas fictícias poderiam ter sido usadas para reduzir a base sobre a qual os impostos seriam calculados.

É justamente por isso que a Receita instaurou 11 procedimentos fiscais paralelos à investigação criminal.

O órgão estima potencial de recuperação tributária próximo de R$ 300 milhões, embora o montante definitivo só possa ser estabelecido depois da análise completa dos documentos, movimentações e declarações fiscais.

A diferença entre os valores ajuda a dimensionar o caso. Uma empresa pode movimentar bilhões sem necessariamente ter bilhões de lucro, e o montante movimentado não pode ser confundido automaticamente com dinheiro irregular. O trabalho dos investigadores consiste justamente em separar receitas legítimas, despesas comprovadas, tributos eventualmente devidos e operações que possam caracterizar ilícitos.

Essa distinção é essencial para evitar uma conclusão precipitada: os mais de R$ 5 bilhões citados pelas autoridades representam a movimentação analisada, e não um valor que já tenha sido declarado criminoso pela Justiça.

Betnacional tornou-se uma das marcas mais visíveis do país

A repercussão tende a ser muito maior porque a investigação alcança uma empresa com enorme exposição pública.

A Betnacional cresceu rapidamente no mercado brasileiro e passou a aparecer em campanhas publicitárias, transmissões esportivas e patrocínios. O grupo NSX foi incorporado ao universo da Flutter Entertainment, multinacional do setor de apostas com ações negociadas em Nova York e presença em diversos mercados internacionais. Reportagens sobre a operação apontam que a Flutter adquiriu participação majoritária no negócio brasileiro em uma transação bilionária.

A marca também construiu sua presença utilizando personalidades de enorme reconhecimento no esporte e na televisão e por meio de relações comerciais com clubes brasileiros. Isso não vincula artistas, atletas ou equipes patrocinadas às suspeitas investigadas. Contratos publicitários e patrocínios são relações comerciais e não significam participação em eventuais irregularidades financeiras da empresa contratante.

O alcance da marca, entretanto, explica por que a operação possui potencial para repercutir muito além das páginas econômicas.

Para o consumidor que abre um aplicativo, deposita dinheiro e faz uma aposta em segundos, toda a infraestrutura que existe atrás daquela tela tende a ser invisível.

Há sistemas de pagamento, empresas de tecnologia, operadores, bancos, fintechs, remessas internacionais, contratos de publicidade, fornecedores e estruturas societárias que podem envolver diferentes jurisdições.

Quando uma investigação entra nesse circuito, aquilo que parecia uma simples aposta de R$ 10 passa a fazer parte de uma discussão sobre bilhões de reais em fluxos financeiros.

Betnacional continua funcionando

Apesar da operação, a Betnacional não foi retirada do mercado nesta sexta-feira.

Segundo informações divulgadas após a ação, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda informou que a plataforma permanece autorizada a funcionar enquanto os procedimentos administrativos e judiciais avançam. O governo aguarda o compartilhamento de provas produzidas na investigação para avaliar eventuais consequências regulatórias.

Existem ainda processos sancionadores que podem produzir medidas administrativas, mas nenhum deles equivale, neste momento, a uma decisão definitiva de proibição.

Essa distinção é particularmente importante para apostadores que mantêm contas ou valores na plataforma.

A deflagração de uma operação de busca não significa encerramento automático da empresa, bloqueio geral das contas dos usuários ou perda dos saldos mantidos pelos clientes.

Também não houve anúncio das autoridades indicando que apostadores comuns estejam sendo investigados simplesmente por utilizar a plataforma.

O foco está na estrutura empresarial, nas operações tributárias e financeiras e nos beneficiários das movimentações sob análise.

O setor de bets entra numa nova fase de fiscalização

A Jogo de Sombras não é um episódio isolado.

A Receita Federal e outros órgãos vêm ampliando as operações sobre o mercado de apostas justamente depois da entrada em vigor do modelo regulamentado. Em 13 de agosto, a Operação Arena cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados e obteve autorização judicial para apreender bens e valores de até R$ 1 bilhão em outra investigação sobre suspeitas de sonegação, evasão e lavagem.

A sequência revela uma mudança de etapa.

Durante os primeiros anos da explosão das bets no Brasil, o principal debate era se o setor seria autorizado, proibido ou regulamentado.

Depois veio a discussão sobre publicidade, proteção de menores, vício em apostas, tributação e integridade esportiva.

Agora surge uma terceira dimensão: seguir o dinheiro.

A existência de autorização para funcionar significa que uma empresa cumpriu requisitos regulatórios para entrar no mercado, mas não cria imunidade a fiscalizações tributárias, financeiras ou criminais posteriores.

É exatamente esse ponto que as operações recentes começam a testar.

O governo conseguiu trazer uma parcela relevante do setor para dentro de um sistema formal. A questão passa a ser saber se os instrumentos de controle conseguem acompanhar estruturas empresariais que movimentam bilhões de reais em segundos e que nasceram, em muitos casos, quando o mercado brasileiro ainda não possuía o atual modelo de fiscalização.

O nome “Jogo de Sombras” traduz o centro da investigação

O nome escolhido para a operação é especialmente sugestivo.

A investigação não procura determinar se uma aposta esportiva foi paga corretamente ou se determinado jogador venceu ou perdeu dinheiro.

Ela busca identificar aquilo que pode ter permanecido atrás da operação visível: empresas estrangeiras, contas financeiras, beneficiários finais, despesas declaradas, transferências internacionais e estruturas societárias.

É uma apuração sobre o dinheiro que circula depois que o apostador aperta o botão.

Esse tipo de investigação costuma ser demorado porque o desafio não está apenas em descobrir que uma transferência aconteceu, mas em compreender sua finalidade econômica.

Uma empresa pode legalmente contratar serviços no exterior.

Pode legalmente realizar remessas internacionais.

Pode utilizar instituições de pagamento.

Pode ter acionistas estrangeiros.

Pode pagar fornecedores fora do Brasil.

Nenhuma dessas práticas constitui crime por si só.

A irregularidade surge quando estruturas legítimas são eventualmente utilizadas para ocultar receitas, reduzir tributos indevidamente, disfarçar beneficiários ou dar aparência legal a recursos de origem ilícita.

É isso que terá de ser provado ou descartado.

R$ 5 bilhões, R$ 191 milhões e uma pergunta sobre o mercado brasileiro

A força dos números pode facilmente produzir conclusões antecipadas.

Por isso, vale separar cada um deles.

Os R$ 5 bilhões representam a movimentação atribuída pelas autoridades ao grupo no período analisado em 2025.

Os R$ 191 milhões correspondem ao bloqueio de bens e valores determinado no contexto da operação, segundo informações divulgadas sobre a investigação.

Os cerca de R$ 300 milhões representam o potencial de recuperação tributária estimado pela Receita após a abertura de 11 procedimentos fiscais.

Nenhum desses valores significa, sozinho, condenação criminal.

Mas, considerados em conjunto, mostram a dimensão financeira da investigação e explicam por que a operação ganhou prioridade entre Ministério Público e Receita Federal.

O Brasil criou um dos maiores mercados de apostas online do mundo em poucos anos.

As marcas chegaram às camisas dos clubes, aos intervalos dos jogos, às redes sociais e aos celulares de milhões de pessoas antes que grande parte da sociedade compreendesse completamente a estrutura econômica construída por trás delas.

A regulamentação tentou estabelecer regras para esse novo mercado.

A Operação Jogo de Sombras mostra que regulamentar foi apenas o começo.

Agora o Estado precisa descobrir se consegue enxergar com a mesma velocidade com que o dinheiro se movimenta.

A NSX terá oportunidade de apresentar sua defesa, contestar as suspeitas e demonstrar a regularidade de suas operações. A investigação precisará provar cada uma das hipóteses levantadas antes que qualquer responsabilidade possa ser atribuída definitivamente.

Até lá, o caso permanece exatamente onde deveria permanecer: no terreno da apuração.

Mas uma conclusão já pode ser feita sem antecipar julgamento.

O mercado brasileiro de bets entrou definitivamente na era em que não basta ter autorização para aparecer na tela.

Será preciso explicar também o que acontece com os bilhões que circulam por trás dela.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Prefeituras do Paraná gastaram quase R$ 1,2 bilhão com shows; TCE aponta casos que podem virar fiscalização


Levantamento reúne 10,9 mil empenhos feitos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. Fernando & Sorocaba lideram entre artistas identificados, enquanto São José dos Pinhais aparece no topo entre os municípios que mais desembolsaram

O volume impressiona antes mesmo de qualquer comparação.

Entre 2021 e o fim do primeiro semestre de 2026, as prefeituras do Paraná registraram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em gastos com shows artísticos, segundo um novo levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).

Os dados mostram como a contratação de atrações para festas, exposições, aniversários municipais e outros eventos se transformou em uma despesa relevante nos orçamentos locais. No período analisado, foram contabilizados 10.900 empenhos de pelo menos R$ 20 mil, envolvendo despesas classificadas como “Festividades e Homenagens” e “Contratação Artística e Cultural”.

O universo é amplo: 1.158 artistas, duplas, bandas ou grupos aparecem nas informações encaminhadas pelas próprias administrações municipais ao Tribunal.

Dos 399 municípios paranaenses, apenas seis não apresentaram registros desse tipo de despesa dentro dos critérios utilizados pelo painel: Campo do Tenente, Guaporema, Nova Cantu, Paulo Frontim, Pinhal de São Bento e Piraquara. Ou seja, 98,5% das prefeituras do estado tiveram algum gasto enquadrado nessas categorias durante o período analisado.

O levantamento ganhou uma dimensão ainda mais sensível porque o TCE encontrou situações em que a origem contábil do dinheiro pode indicar o uso de verbas vinculadas a outras finalidades.

Entre elas aparecem recursos associados à saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Corpo de Bombeiros e iluminação pública.

O Tribunal ressalva que a presença de um dado no painel não representa automaticamente uma irregularidade. Mas informou que pretende instaurar procedimentos específicos nos casos em que a análise confirmar utilização indevida de recursos públicos.

Quase R$ 600 milhões aparecem sem artista identificado

Outro dado chama atenção.

Levantamentos realizados a partir do painel do TCE indicam que aproximadamente R$ 596 milhões — quase metade do total — aparecem sem identificação do artista nos dados analisados.

Isso não significa necessariamente que os pagamentos tenham sido feitos sem documentação ou que sejam irregulares. O painel é construído a partir das informações enviadas pelos próprios municípios, e diferenças de preenchimento, classificação e identificação podem interferir na forma como os dados são agrupados.

O próprio Tribunal ressalta que a responsabilidade pela exatidão das informações pertence aos representantes legais e técnicos das entidades que as encaminharam aos sistemas de controle.

Ainda assim, o volume sem identificação nominal ajuda a explicar por que o TCE decidiu criar uma ferramenta específica para permitir que cidadãos, jornalistas, vereadores, pesquisadores e órgãos de fiscalização cruzem dados sobre eventos municipais.

É justamente entre os gastos que puderam ser associados aos artistas que surge um ranking bastante conhecido do público sertanejo.

A dupla Fernando & Sorocaba lidera o levantamento detalhado divulgado a partir do painel, com aproximadamente R$ 18,142 milhões recebidos em 66 apresentações contratadas por municípios paranaenses.

Na sequência aparecem Guilherme & Benuto, com cerca de R$ 13,234 milhões em 65 shows; Ana Castela, com R$ 12,625 milhões em 31 apresentações; Luan Pereira, com R$ 11,746 milhões em 60 contratos; e Maiara & Maraisa, com aproximadamente R$ 11,682 milhões em 27 shows.

Os números ajudam a revelar uma característica dos grandes eventos municipais no interior do país: o sertanejo domina boa parte das contratações de maior valor.

Nomes como Leonardo, Clayton & Romário, Rio Negro & Solimões, Bruno & Marrone, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano e Zezé Di Camargo & Luciano também aparecem entre os artistas que acumulam milhões de reais em apresentações pagas por administrações municipais.

O TCE calculou que o valor médio das contratações registradas no período foi de R$ 112,3 mil. Naturalmente, essa média reúne desde atrações regionais até artistas nacionais cujos cachês individuais podem atingir valores muito superiores.

São José dos Pinhais lidera gastos entre as prefeituras

Do outro lado da conta estão os municípios.

São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, liderou o ranking de despesas, com aproximadamente R$ 41,744 milhões distribuídos em 65 empenhos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026.

Paranaguá aparece em segundo lugar, com aproximadamente R$ 29,64 milhões, seguida por Castro, com R$ 25,807 milhões; Ponta Grossa, com R$ 25,776 milhões; e Fazenda Rio Grande, com R$ 21,354 milhões.

Os dados também mostram uma forte aceleração dos gastos após o período mais crítico da pandemia.

Em 2021, quando ainda existiam fortes restrições e impactos provocados pela Covid-19, foram registrados R$ 25,1 milhões em despesas desse tipo.

Em 2024, o valor já havia chegado a R$ 292,2 milhões.

O recorde ocorreu em 2025, com R$ 403,5 milhões gastos em shows pelas administrações municipais.

Somente no primeiro semestre de 2026, os registros já somavam R$ 144,7 milhões.

A evolução demonstra que eventos públicos voltaram com força aos calendários municipais após a pandemia, acompanhados por um mercado artístico em que cachês de atrações nacionais frequentemente chegam a centenas de milhares de reais por noite.

O painel revela ainda que aproximadamente R$ 4,3 milhões vieram de transferências por emendas parlamentares destinadas a custear shows, o equivalente a cerca de 0,35% de todo o montante contabilizado.

Festa pública não é irregular; origem e destino do dinheiro fazem diferença

O levantamento do Tribunal não parte da premissa de que gastar dinheiro público com cultura, lazer ou entretenimento seja irregular.

A própria Corte destaca que cultura e lazer são direitos assegurados constitucionalmente e afirma que o painel tem caráter informativo, destinado a ampliar a transparência e incentivar a boa administração dos recursos públicos.

Uma festa municipal também pode gerar efeitos econômicos concretos.

Shows de grande porte atraem visitantes, aumentam o movimento em hotéis, bares e restaurantes, movimentam serviços de transporte, comércio ambulante e estruturas temporárias, além de produzirem exposição turística para cidades que normalmente teriam pouca projeção nacional.

O problema jurídico e administrativo surge quando a origem do dinheiro possui uma finalidade determinada.

Recursos vinculados à saúde ou à educação, por exemplo, não podem simplesmente ser deslocados para outras despesas porque uma prefeitura decidiu realizar um evento.

Foi justamente o cruzamento das fontes contábeis dos recursos que levou os técnicos do TCE a identificar situações que merecem análise mais profunda.

O Tribunal afirma que verificará os casos individualmente e instaurará procedimentos quando houver comprovação de uso irregular. Até que isso ocorra, é importante distinguir indício de irregularidade de irregularidade efetivamente comprovada.

Essa diferença também vale para os artistas.

A presença de Fernando & Sorocaba, Ana Castela, Guilherme & Benuto ou qualquer outro nome no ranking significa que apresentações foram contratadas por municípios e tiveram valores registrados no sistema. O levantamento, por si só, não atribui aos artistas qualquer responsabilidade por eventual problema na fonte utilizada pelas prefeituras para realizar os pagamentos.

A responsabilidade pela execução do orçamento, classificação das despesas e respeito às vinculações legais é da administração pública responsável pela contratação.

Um novo nível de transparência sobre os cachês

Talvez o aspecto mais relevante do levantamento esteja menos no ranking dos artistas e mais na possibilidade de acompanhar como esse dinheiro é gasto.

O Painel de Gastos com Eventos Municipais, incorporado ao Portal Informação para Todos do TCE-PR, permite pesquisar despesas por prefeitura, período, artista, valor e fonte do recurso. Também possibilita comparar o dinheiro destinado a shows com receitas municipais e investimentos em áreas como saúde e educação.

A ferramenta utiliza ainda processos automatizados de classificação de dados, com apoio de inteligência artificial, para organizar as informações encaminhadas pelos municípios.

E essa transparência pode produzir uma discussão mais qualificada do que simplesmente perguntar se uma prefeitura “deveria ou não” contratar determinado cantor.

Uma cidade pode decidir que uma grande festa é importante para sua economia, turismo ou identidade cultural. Outra pode considerar mais adequado priorizar outros investimentos.

O ponto central é que, quando a conta é paga com dinheiro público, a sociedade tem o direito de saber quanto foi gasto, quem recebeu, de onde saiu o recurso e se a legislação foi respeitada.

No Paraná, essa conta chegou a quase R$ 1,2 bilhão em seis anos e meio.

Agora, com milhares de contratos reunidos em uma única base e possíveis inconsistências sob análise, o próximo capítulo deixa os palcos e entra definitivamente na fiscalização das contas públicas.