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terça-feira, 8 de setembro de 2026

REFORMA NO STF: campanha de Lula avalia mandato para ministros, código de ética e ofensiva contra supersalários


Crise provocada pelo caso Banco Master acelera discussão sobre mudanças no Judiciário; presidente já defendeu publicamente limitar o tempo de permanência no Supremo, enquanto campanha estuda regras para conflitos de interesse, remunerações e relações entre magistrados e empresários

A crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal às vésperas da eleição presidencial começa a produzir um efeito que pode ultrapassar o caso Banco Master. A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a discutir uma reforma mais ampla do Judiciário, com medidas que atingiriam diretamente algumas das estruturas mais sensíveis do sistema de Justiça brasileiro.

Entre os pontos em debate estão mandato com prazo determinado para ministros do STF, código de ética para magistrados e membros do Ministério Público, combate aos supersalários, maior transparência patrimonial e regras mais rígidas para relações entre integrantes do Judiciário e empresários. A discussão foi confirmada por integrantes da campanha ouvidos pela imprensa e ocorre no momento em que o Supremo enfrenta um de seus maiores desgastes recentes.

É importante fazer uma distinção: ainda não existe uma proposta fechada, uma PEC apresentada pelo governo ou sequer definição sobre quantos anos teria eventual mandato no Supremo. Parte das ideias está sendo discutida pela campanha, enquanto algumas posições — especialmente a limitação do tempo de permanência dos ministros — já foram defendidas pessoalmente por Lula meses antes da atual crise.

A mudança de cenário político é significativa. Durante anos, críticas ao funcionamento do STF foram associadas principalmente à direita e ao bolsonarismo. Agora, o próprio campo governista começa a defender alterações estruturais na Corte — embora procure diferenciar reforma institucional de ataques ao Supremo.

Lula já dizia que ficar até os 75 anos é “tempo demais”
Banco Master mudou a temperatura do debate
Código de ética pode virar uma das principais bandeiras
Supersalários entram novamente na mira
Mandato para o STF exigiria uma mudança pesada no Congresso
Reforma pode reduzir ou aumentar o poder de um presidente sobre o Supremo
O risco de uma reforma feita sob medida para a crise
STF entra definitivamente na eleição de 2026
Uma reforma que pode ser maior que a eleição

A defesa de um mandato para ministros não surgiu apenas depois das revelações envolvendo o Banco Master.

Em fevereiro de 2026, Lula afirmou publicamente que considera excessivamente longo o modelo atual, pelo qual um ministro pode ingressar relativamente jovem no STF e permanecer até completar 75 anos.

“Não é justo uma pessoa entrar com 35 anos e ficar até 75 anos”, afirmou o presidente na ocasião, lembrando que a ideia de criar mandatos para integrantes do Supremo já aparecia no programa presidencial de Fernando Haddad em 2018. Lula ressaltou, contudo, que qualquer mudança dependeria do Congresso Nacional.

Atualmente, ministros do STF não possuem mandato com duração determinada. Depois de nomeados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado, permanecem no cargo até renunciarem, morrerem, sofrerem eventual processo de perda do cargo ou atingirem a aposentadoria compulsória aos 75 anos.

Isso permite permanências de várias décadas.

Cristiano Zanin, por exemplo, nasceu em novembro de 1975. Mantidas as regras atuais, poderá permanecer no Supremo até 2050. Alexandre de Moraes, nascido em dezembro de 1968, somente atingirá a aposentadoria compulsória em 2043.

Luiz Fux, por outro lado, completa 75 anos em 2028, enquanto Cármen Lúcia alcança a idade em 2029 e Gilmar Mendes, em 2030.

O assunto possui impacto político imediato porque o STF está atualmente com uma cadeira vaga desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em outubro de 2025. A indicação de Jorge Messias feita por Lula foi rejeitada pelo Senado, e o posto permanece desocupado.

Se a discussão sobre mandatos já existia, foi o caso Banco Master que deu outra dimensão ao tema.

A divulgação de mensagens envolvendo o ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, e integrantes de diferentes Poderes colocou sob escrutínio relações entre empresários, políticos, magistrados e pessoas próximas a autoridades.

No Supremo, o episódio produziu um confronto particularmente grave envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça. O presidente da Corte, Edson Fachin, abriu procedimento para receber esclarecimentos de Moraes, Mendonça, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, sobre fatos relacionados às investigações.

A crise também reacendeu dentro do próprio STF a defesa de um código de ética para ministros. Fachin já vinha apoiando a elaboração de normas destinadas a estabelecer limites mais claros para conflitos de interesse, participação em eventos financiados por empresas, recebimento de benefícios e vínculos privados.

É exatamente nesse ambiente que a campanha de Lula pretende transformar o desgaste do Judiciário em uma agenda eleitoral própria.

O presidente passou a defender publicamente que autoridades sejam investigadas sem proteção institucional e afirmou que cargos públicos não podem servir a interesses pessoais. Seu grupo político adotou a expressão “ninguém está acima da lei” como resposta à crise.

Uma das propostas com maior capacidade de alcançar diferentes setores políticos é justamente a criação de um código de ética aplicável ao Judiciário e ao Ministério Público.

O presidente nacional do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva, já defendeu publicamente regras contra conflitos entre interesses públicos e privados, criticou privilégios e colocou o combate aos supersalários entre os temas que deveriam integrar uma reforma.

A discussão ganhou força porque as regras existentes são consideradas insuficientes por defensores da mudança para lidar com situações como participação de magistrados em eventos patrocinados, relações financeiras de familiares, atividades empresariais indiretas e contatos privados com pessoas que possuem interesses perante os tribunais.

O objetivo seria estabelecer previamente o que é permitido, o que precisa ser declarado publicamente e quais situações exigiriam impedimento ou suspeição.

O desafio será construir normas que aumentem a transparência sem permitir interferência política na independência dos juízes.

Esse equilíbrio é central.

Um código de ética fraco corre o risco de ser meramente simbólico. Um modelo criado para permitir que governos ou maiorias parlamentares pressionem magistrados poderia produzir efeito ainda mais perigoso.

Outro ponto com forte apelo eleitoral são os chamados supersalários.

Embora a Constituição estabeleça um teto para o funcionalismo, pagamentos classificados como indenizatórios e diferentes benefícios permitem que integrantes de algumas carreiras públicas recebam valores acima do limite em determinados meses.

O próprio STF enfrentou o tema em 2026 e estabeleceu limitações para parcelas indenizatórias, enquanto a discussão sobre os chamados “penduricalhos” continua aberta no Judiciário e no Congresso.

Para a campanha de Lula, transformar o fim dos supersalários em bandeira apresenta uma vantagem evidente: trata-se de um assunto de fácil compreensão num país em que grande parte dos trabalhadores recebe uma fração dos vencimentos pagos às carreiras mais altas do Estado.

Mas a execução é muito mais complexa do que o slogan.

Será necessário definir quais parcelas realmente possuem natureza indenizatória, quais deverão ser submetidas ao teto, como tratar benefícios acumulados e quais mudanças dependerão de lei ou de alteração constitucional.

No caso da criação de mandato para ministros, o obstáculo político seria ainda maior.

Modificar o atual modelo constitucional exigiria uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Para ser aprovada, a matéria precisa receber o apoio de três quintos dos deputados e dos senadores, em dois turnos de votação em cada Casa.

Isso significa pelo menos 308 votos na Câmara e 49 no Senado em cada votação.

Também seria necessário responder questões que até agora permanecem totalmente abertas.

Quanto duraria um mandato no STF?

O ministro poderia ser reconduzido?

A nova regra atingiria os integrantes atuais ou somente futuras nomeações?

Quem já está no Supremo teria direito adquirido ao modelo vigente?

Como impedir que mandatos curtos tornem a Corte ainda mais dependente das eleições presidenciais?

Nada disso está definido.

E essas respostas serão tão importantes quanto a ideia do mandato em si.

Existe ainda uma consequência pouco discutida.

À primeira vista, limitar a permanência dos ministros parece reduzir a concentração de poder dentro do STF. Dependendo do modelo escolhido, porém, poderia aumentar dramaticamente a influência de presidentes da República sobre a composição da Corte.

Se todos os ministros tivessem, por exemplo, mandatos relativamente curtos e as vagas continuassem sendo preenchidas exclusivamente por indicação presidencial, cada chefe do Executivo poderia nomear uma parcela muito maior do tribunal durante apenas quatro anos.

O desenho da reforma, portanto, teria de considerar não apenas quanto tempo um ministro permanece no cargo, mas também quem escolhe os integrantes do Supremo e em qual frequência essas escolhas acontecem.

É uma discussão institucional que não comporta solução improvisada em plena campanha eleitoral.

Outro cuidado será impedir que uma reforma concebida em meio ao confronto entre Moraes e Mendonça seja percebida como mecanismo para atingir ministros específicos.

Mudanças estruturais precisam sobreviver às pessoas que hoje ocupam os cargos.

Uma reforma do STF criada para resolver o “problema Moraes” ou o “problema Mendonça” provavelmente nasceria errada.

A própria posição anterior de Lula ajuda a separar as duas questões: ele já defendia mandato para ministros antes da atual explosão do caso Master.

Ao mesmo tempo, é inegável que o escândalo acelerou politicamente uma discussão que poderia permanecer abstrata por anos.

A campanha percebeu que a crise abriu espaço para uma pauta que reúne bandeiras tradicionalmente associadas a diferentes campos ideológicos: combate a privilégios, transparência, controle de conflitos de interesse, responsabilização de autoridades e redução da personalização do Supremo.

A movimentação de Lula também precisa ser compreendida dentro da disputa presidencial.

No 7 de Setembro, adversários do presidente intensificaram ataques ao STF, especialmente contra Alexandre de Moraes. Flávio Bolsonaro chegou a associar diretamente Lula ao ministro e prometeu alterar profundamente a composição da Corte caso seja eleito. Outros presidenciáveis também defenderam mudanças no Supremo.

Lula tenta agora evitar que toda a crítica ao Judiciário seja monopolizada pela oposição.

A estratégia é delicada.

O presidente precisa defender a instituição STF sem parecer indiferente aos questionamentos envolvendo seus integrantes. Precisa propor reformas sem transformar o Judiciário em inimigo eleitoral. E precisa convencer o eleitor de que regras mais duras também serão aplicadas a ministros considerados próximos ao próprio governo.

É nesse ponto que a frase adotada por sua campanha será testada:

“ninguém está acima da lei”.

Se a reforma avançar, essa afirmação precisará valer para aliados e adversários.

A discussão ainda está no começo e seria prematuro apresentar qualquer uma dessas medidas como compromisso definitivo de governo.

Mas o simples fato de a campanha presidencial de Lula colocar mandato no STF, código de ética, supersalários e conflito de interesses na mesma mesa já representa mudança importante no debate político brasileiro.

Durante anos, qualquer proposta de alteração profunda no Supremo era imediatamente absorvida pela polarização sobre Bolsonaro.

O Banco Master mudou essa dinâmica.

Agora existe pressão dentro do próprio Judiciário por regras éticas mais claras, críticas vindas da oposição, propostas de outros candidatos e uma campanha governista discutindo reformas que atingiriam privilégios e estruturas históricas da magistratura.

O debate, portanto, deixou de ser apenas sobre Alexandre de Moraes, André Mendonça ou Daniel Vorcaro.

Passou a ser sobre qual Supremo o Brasil pretende ter nas próximas décadas.

E, caso a discussão avance de verdade, a pergunta mais importante não será se ministros devem ter mandato ou se juízes recebem demais.

Será outra:

quem fiscaliza aqueles que possuem o poder de fiscalizar todos os demais?

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

TCE-RJ readmite 12 ex-assessores de Domingos Brazão em gabinete sem conselheiro; cargos somam R$ 171 mil por mês


Servidores comissionados foram exonerados após a perda definitiva do cargo do ex-conselheiro, condenado no caso Marielle Franco, mas começaram a ser novamente nomeados poucos dias depois; Tribunal afirma que profissionais continuam trabalhando e que não houve criação de novos cargos

Uma sequência de nomeações no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) colocou sob atenção o destino da estrutura que pertencia ao ex-conselheiro Domingos Brazão. Depois de perder definitivamente o cargo em julho, 18 integrantes de seu antigo gabinete foram formalmente exonerados. Nas semanas seguintes, entretanto, 12 desses ex-assessores voltaram a ocupar cargos comissionados vinculados ao Gabinete de Conselheiro 7 (GC-7), que permanece sem conselheiro titular.

Segundo levantamento publicado pelo Metrópoles, a atual composição desses cargos representa uma remuneração estimada de R$ 171 mil por mês, calculada a partir da tabela salarial do próprio TCE-RJ. Mantido esse valor durante 12 meses, a projeção supera R$ 2 milhões por ano. Isso não significa, contudo, que tenham sido criados R$ 171 mil em novas despesas: o Tribunal afirma que os cargos já faziam parte de sua estrutura e que não houve ampliação do quadro em razão da saída de Brazão.

A situação chama atenção principalmente pelo intervalo entre as exonerações e as novas nomeações.

A perda do cargo de Domingos Brazão foi formalizada no Diário Oficial em 15 de julho, com efeitos a partir de 9 de julho. O ato foi editado depois do trânsito em julgado da condenação imposta pelo Supremo Tribunal Federal. Na mesma publicação, o TCE-RJ exonerou os funcionários comissionados vinculados ao antigo gabinete.

Cinco dias depois, em 20 de julho, o Diário Oficial publicou a nomeação de Drussila Batista Hoon, antiga assessora de Brazão, para o GC-7. O ato havia sido assinado no dia 16 e determinava validade a partir de 15 de julho. Ou seja: a publicação da nova nomeação ocorreu apenas cinco dias depois da exoneração, embora seus efeitos administrativos tenham sido estabelecidos retroativamente.

No dia seguinte, segundo o levantamento, também apareceram as nomeações de Carlos Gustavo Cavaco Campedelli e Marcos da Silva Neves, igualmente ex-integrantes do gabinete de Brazão. Durante julho e agosto, o número chegou a 12.

Brazão perdeu o cargo após condenação definitiva

Domingos Brazão foi condenado pela Primeira Turma do STF, em fevereiro deste ano, a 76 anos e três meses de prisão pela participação no assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, além da tentativa de homicídio da assessora Fernanda Chaves.

A condenação tornou-se definitiva em julho, levando o TCE-RJ a declarar a perda do cargo de conselheiro e a vacância da cadeira.

O Tribunal transformou a antiga estrutura identificada pelo nome do conselheiro no Gabinete de Conselheiro 7, registrando oficialmente que se tratava da vaga decorrente da perda do cargo de Domingos Brazão.

A cadeira ainda não foi preenchida.

A escolha do novo conselheiro cabe à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mas o procedimento foi interrompido por decisão do Tribunal de Justiça do Estado. Uma liminar suspendeu o rito acelerado criado pela Alerj enquanto a Justiça analisa questionamentos sobre as regras adotadas para a seleção.

É nesse intervalo, com a cadeira sem titular, que os ex-assessores começaram a ser novamente nomeados.

R$ 171 mil por mês, mas Tribunal contesta expressão “gabinete fantasma”

A reportagem que revelou as nomeações utilizou a expressão “gabinete fantasma” para descrever a situação.

O TCE-RJ rejeitou de forma expressa essa classificação.

Segundo o Tribunal, o GC-7 continua existindo formalmente dentro de sua estrutura administrativa, mesmo sem conselheiro titular. A Corte afirmou ainda que não houve criação de cargos, aumento do organograma ou medida excepcional para manter os servidores depois da saída de Brazão.

O Tribunal também sustenta que os profissionais não estão recebendo salários sem trabalhar.

De acordo com a instituição, desde o afastamento cautelar de Brazão, ocorrido em 2024, esses funcionários já vinham exercendo atividades em outras áreas da Corte, incluindo contratos, segurança institucional, transporte, engenharia, patrimônio, cadastro e assessoramento técnico especializado.

A justificativa para mantê-los, segundo o TCE-RJ, é a experiência acumulada e o conhecimento dos sistemas e procedimentos internos.

A Corte afirmou que todas as nomeações obedeceram à legislação e aos princípios da administração pública e que a efetiva lotação dos profissionais pode ser consultada no Portal da Transparência.

Essa explicação modifica um ponto importante da discussão: não há evidência apresentada até agora de que os 12 servidores estejam recebendo sem exercer funções.

A questão passa a ser outra.

Por que exonerar e readmitir quase imediatamente?

Se os servidores eram considerados necessários para a continuidade dos serviços administrativos, permanece uma pergunta objetiva sobre a forma escolhida para preservar seus vínculos.

O Diário Oficial mostra que a perda definitiva do cargo de Brazão provocou uma exoneração coletiva dos funcionários de sua estrutura. Poucos dias depois, começaram novas nomeações para o GC-7.

A rapidez do processo é justamente o elemento que tornou o episódio politicamente sensível.

O fato de os profissionais terem trabalhado anteriormente para Domingos Brazão não constitui irregularidade. Da mesma forma, não existe impedimento automático para que alguém que tenha exercido cargo de confiança de um conselheiro permaneça trabalhando no Tribunal depois da saída dele.

Também é perfeitamente possível que servidores com experiência interna sejam necessários em outras áreas da instituição.

Mas cargos comissionados são, por definição, posições de confiança dentro da administração. Quando 12 pessoas vinculadas ao gabinete de um conselheiro condenado definitivamente são novamente nomeadas para uma estrutura sem titular, a administração precisa demonstrar com clareza qual é a necessidade de cada função, onde cada profissional trabalha e quais atividades efetivamente desempenha.

Essa transparência é especialmente necessária num órgão cuja principal função é justamente fiscalizar a utilização do dinheiro público por outras instituições.

Custo não deve ser confundido com nova despesa

Outro cuidado necessário está nos números.

Os R$ 171 mil mensais correspondem, segundo a apuração original, à soma estimada das remunerações dos cargos ocupados pelos 12 ex-assessores com base na tabela salarial do TCE-RJ.

Não há indicação de que esse valor represente integralmente uma nova despesa criada após a saída de Brazão.

O Tribunal afirma que os postos já existiam e permaneceram dentro do organograma. Portanto, o dado revela quanto custa mensalmente o conjunto desses cargos, e não necessariamente quanto a readmissão adicionou ao orçamento que já estava previsto.

Ainda assim, a dimensão financeira é relevante.

Uma projeção simples de R$ 171 mil por mês equivale a aproximadamente R$ 2,05 milhões em 12 meses, antes de considerar eventuais mudanças remuneratórias ou outras parcelas.

Para uma Corte de Contas, explicar de maneira minuciosa a necessidade dessa estrutura não deveria ser visto como excesso de cobrança. É parte natural da obrigação de transparência de qualquer instituição financiada pelo contribuinte.

Tribunal que fiscaliza gastos também precisa explicar seus próprios gastos

O TCE-RJ possui uma função particularmente sensível na administração fluminense.

Cabe ao órgão fiscalizar contratos, licitações, contas públicas, obras, folhas de pagamento e a utilização de recursos por prefeituras, pelo governo estadual e por outras entidades submetidas à sua jurisdição.

É justamente por ocupar essa posição que decisões sobre sua própria estrutura administrativa despertam interesse público.

O problema não está em presumir que todos os antigos assessores de Brazão carreguem qualquer responsabilidade pelos crimes pelos quais o ex-conselheiro foi condenado. Não existe base para isso.

Também não há, nas informações disponíveis, demonstração de que as novas nomeações sejam ilegais.

O questionamento legítimo é administrativo.

Se o gabinete não possui atualmente um conselheiro, por que 12 antigos funcionários daquela estrutura precisavam ser novamente nomeados para cargos vinculados ao GC-7?

Se exercem funções em outras secretarias e departamentos, por que a lotação formal permanece relacionada ao gabinete?

Quais atividades são realizadas por cada servidor?

E quando um novo conselheiro assumir a cadeira, o que ocorrerá com essa estrutura?

São perguntas que podem ser respondidas com documentos, organogramas e registros funcionais.

Uma cadeira vazia, mas uma estrutura funcionando

O episódio revela uma peculiaridade da máquina pública: a saída de quem ocupa um cargo de poder não necessariamente desmonta a estrutura existente ao redor dele.

Brazão perdeu definitivamente sua cadeira.

Os 18 funcionários ligados ao antigo gabinete foram exonerados.

A vaga passou a ser oficialmente identificada como GC-7.

Mas, em questão de dias, antigos integrantes daquele mesmo grupo começaram a retornar.

Ao final de agosto, eram 12.

O TCE-RJ afirma que todos trabalham, que os cargos são legais, que não houve aumento da estrutura e que a experiência desses profissionais justifica sua permanência. Esse posicionamento precisa fazer parte de qualquer relato equilibrado sobre o caso.

Mas também não elimina a necessidade de escrutínio.

Um Tribunal de Contas exige diariamente dos gestores públicos justificativa para despesas, contratação de pessoal, economicidade e eficiência.

Quando a discussão chega à sua própria folha de pagamento, a régua não pode ser diferente.

domingo, 6 de setembro de 2026

PF aponta pedido de Dr. Serginho para conter fiscalização ambiental; sequência de controvérsias amplia questionamentos sobre sua atuação política


Relatório da Operação Sem Refino 2 afirma que o atual prefeito de Cabo Frio teria pedido a suspensão de operações do Inea em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até as eleições de 2024; episódio se soma a outras investigações e controvérsias envolvendo estruturas públicas e o entorno político do prefeito

Uma revelação da Polícia Federal coloca novamente Dr. Serginho (PL), prefeito de Cabo Frio, diante de um questionamento que ultrapassa uma disputa partidária: até que ponto interesses eleitorais podem interferir no funcionamento normal de órgãos públicos?

Segundo trecho da representação da PF reproduzido na decisão da Operação Sem Refino 2, Dr. Serginho, quando ainda disputava a Prefeitura de Cabo Frio em 2024, teria solicitado ao então secretário estadual do Ambiente, Bernardo Rossi, que não fossem realizadas operações de fiscalização ambiental em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até a eleição municipal.

A informação não representa uma condenação do prefeito, tampouco demonstra isoladamente a prática de crime. Mas, se confirmada, revela um comportamento institucionalmente grave: a tentativa de condicionar o calendário de fiscalização ambiental ao calendário eleitoral.

De acordo com a PF, Bernardo Rossi teria repassado a solicitação ao então presidente do Instituto Estadual do Ambiente, Renato Jordão Bussiere. Bussiere respondeu que uma equipe já havia fiscalizado São Pedro da Aldeia naquela semana, mas indicou que aquilo não voltaria a ocorrer no período mencionado. Os investigadores afirmaram que, naquele contexto, as “costuras políticas se sobressaíam” à proteção ambiental.

Esse é o ponto mais grave do episódio.

Não se discute aqui uma declaração infeliz, uma briga partidária ou uma interpretação sobre determinada política pública. O que aparece num relatório policial é a hipótese de que a atuação de um órgão de Estado teria sido ajustada para não criar dificuldades políticas a um candidato durante uma eleição.

Região ambientalmente sensível torna episódio ainda mais sério

Cabo Frio e São Pedro da Aldeia não são municípios onde a fiscalização ambiental pode ser tratada como atividade secundária.

Os dois fazem parte do Parque Estadual da Costa do Sol, unidade de conservação administrada pelo Inea que protege quase 10 mil hectares de ecossistemas da Região dos Lagos. Cabo Frio também integra a Área de Proteção Ambiental do Pau-Brasil, enquanto São Pedro da Aldeia possui áreas da APA da Serra de Sapiatiba, que protege remanescentes florestais e parte da Lagoa de Araruama.

O próprio histórico de atuação do Inea na região envolve combate a desmatamento, loteamentos clandestinos, ocupações de áreas protegidas e outras infrações ambientais. Em operações anteriores, o instituto chegou a desmontar invasões e construções irregulares dentro de unidades de conservação da Costa do Sol.

Por isso, a hipótese de suspender operações durante semanas por conveniência eleitoral não pode ser reduzida a uma questão burocrática.

Fiscalização ambiental existe justamente para ocorrer quando a irregularidade é identificada — não quando o calendário político considera conveniente.

Não é a primeira vez que o nome de Serginho aparece em controvérsias envolvendo estruturas públicas

O novo episódio chama atenção também porque não surge isoladamente na trajetória política de Dr. Serginho.

Em abril de 2025, a residência do prefeito foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Teatro Invisível 2, da Polícia Federal. A investigação apurava uma rede que teria utilizado atores para encenar conversas falsas em locais públicos com o objetivo de influenciar eleitores, além de suspeitas envolvendo contratos públicos. Dr. Serginho foi alvo da busca, mas isso não equivale a culpa ou condenação.

Na ocasião, o prefeito negou qualquer participação no esquema. Disse que não conhecia as pessoas investigadas, afirmou não possuir relação com as empresas envolvidas e declarou ser vítima de um equívoco da investigação.

Esse contraditório é fundamental: ser alvo de busca não significa ser culpado.

Mas também é legítimo observar que, para um agente político, a repetição de episódios envolvendo Polícia Federal, estruturas governamentais e campanhas eleitorais produz um desgaste que não pode ser eliminado simplesmente pela ausência, até aqui, de condenação definitiva.

Uerj e Faetec também já colocaram entorno político sob suspeita

Outro episódio ocorreu durante a eleição de 2022.

Uma investigação jornalística do UOL identificou pessoas ligadas às campanhas de Dr. Serginho e de outros parlamentares entre contratados remunerados com recursos de projetos da Uerj financiados pela Faetec. Parte dos entrevistados afirmou não ter realizado os serviços universitários pelos quais aparecia recebendo, embora tivesse participado de atividades eleitorais.

Dr. Serginho negou influência política sobre as contratações.

O caso provocou apurações no Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público do Rio e Procuradoria Regional Eleitoral, e a própria Uerj anunciou revisão de projetos e afirmou que eventual seleção por critérios políticos ou pagamento sem prestação de serviço seria ilegal e deveria ser punido.

Novamente, isso não autoriza afirmar que Dr. Serginho tenha sido responsável por desvio de recursos ou contratação de funcionários fantasmas.

Autoriza, contudo, registrar que pessoas politicamente relacionadas a sua campanha apareceram numa estrutura pública posteriormente submetida a investigações.

Antes disso, um assessor foi exonerado após áudio sobre vagas no Hospital Unilagos

Em 2021, quando Serginho comandava a Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, outro episódio causou repercussão em Cabo Frio.

Áudios atribuídos a um assessor da pasta, Leonardo da Costa Fonseca, indicavam que candidatos aprovados num processo seletivo para o Hospital Unilagos seriam posteriormente eliminados até que as vagas chegassem a pessoas ligadas ao grupo político. Após a divulgação, a secretaria anunciou a exoneração do assessor.

A própria secretaria contestou a interpretação dos áudios, afirmou que o processo seletivo era conduzido autonomamente pela Uerj e declarou que nenhum servidor da pasta tinha acesso à seleção. Também anunciou apuração interna.

Mais uma vez, não há base para atribuir a Dr. Serginho a autoria daquele diálogo.

Mas, quando episódios diferentes ao longo dos anos colocam repetidamente seu entorno político próximo de discussões sobre nomeações, contratos, campanhas, fiscalização e funcionamento de órgãos públicos, o debate deixa de ser apenas sobre cada caso isoladamente.

Passa a ser também sobre método político.

Uma vitória eleitoral expressiva não elimina a obrigação de prestar contas

Dr. Serginho não chegou à Prefeitura de Cabo Frio por acaso.

Em 2024, conquistou 84.317 votos, equivalentes a 69,19% dos votos válidos, derrotando com ampla vantagem a então prefeita Magdala Furtado. É um mandato eleitoral expressivo e precisa ser reconhecido como tal.

Mas força eleitoral e fiscalização pública são coisas diferentes.

Uma vitória nas urnas não concede imunidade política, administrativa ou jornalística. Ao contrário: quanto maior o poder concedido a uma autoridade, maior deve ser o escrutínio sobre a forma como esse poder é exercido.

É nesse contexto que a nova revelação da Polícia Federal merece atenção.

Serginho não é acusado, nesse trecho, de ter cometido pessoalmente um crime ambiental. O que a PF registra é outra coisa: ele teria buscado influência política para impedir que o órgão responsável justamente por fiscalizar possíveis infrações ambientais atuasse em dois municípios até o fim da eleição da qual participava.

Se essa versão estiver correta, a gravidade não depende da existência de uma multa, uma obra irregular específica ou um beneficiário identificado.

O problema está na própria lógica da solicitação.

Órgãos públicos não podem funcionar quando favorecem o calendário eleitoral de determinada liderança e parar quando sua atuação passa a representar inconveniência política.

O padrão que precisa ser explicado

É importante evitar duas simplificações.

A primeira seria declarar Dr. Serginho culpado por fatos que ainda estão sob investigação ou que não produziram condenação.

A segunda seria considerar cada episódio irrelevante simplesmente porque não existe sentença definitiva contra ele.

Jornalismo sério trabalha exatamente entre esses dois extremos.

Há um prefeito eleito democraticamente e com forte apoio popular. Há também uma trajetória cercada por episódios concretos que envolveram processos seletivos públicos, funcionários ligados a campanhas, operação da Polícia Federal e, agora, uma alegada tentativa de interferência em fiscalização ambiental durante período eleitoral.

Nenhum desses fatos, isoladamente ou em conjunto, permite ao jornal decretar culpa criminal.

Mas permitem perguntar se existe uma forma de exercício do poder em que relações políticas parecem se aproximar excessivamente do funcionamento de estruturas que deveriam obedecer exclusivamente ao interesse público.

Essa é a dimensão potencialmente nociva do episódio: não uma sentença sobre a pessoa de Dr. Serginho, mas o risco institucional de que influência política, interesse eleitoral e funcionamento da máquina pública se confundam.

A pergunta que o prefeito precisa responder

Até a publicação desta reportagem, não localizamos manifestação pública específica de Dr. Serginho respondendo ao trecho da Operação Sem Refino 2 que menciona o pedido para interromper fiscalizações ambientais. O espaço permanece aberto para sua manifestação.

A explicação é necessária.

Se não houve pedido para suspender operações, o prefeito precisa contestar objetivamente o conteúdo atribuído a ele.

Se houve uma conversa, mas com contexto diferente daquele interpretado pela Polícia Federal, esse contexto precisa ser apresentado.

E, caso tenha efetivamente solicitado que o Inea deixasse de fiscalizar Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até as eleições, cabe explicar por que um candidato a prefeito considerava legítimo interferir no calendário de atuação de um órgão ambiental estadual.

Não se trata de oposição ou situação.

Não se trata de ser contra ou a favor de Dr. Serginho.

Trata-se de uma regra elementar da administração pública: a fiscalização deve servir à lei e à sociedade, nunca à conveniência eleitoral de quem exerce ou pretende exercer o poder.

E é precisamente porque Dr. Serginho se tornou uma das figuras politicamente mais poderosas da Região dos Lagos que essas perguntas precisam ser feitas com ainda mais rigor.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Mensagens colocam Moraes no centro da organização de eventos de Vorcaro em Londres e ampliam crise no STF


Relatório da Polícia Federal indica que ministro participava da definição de convidados e da programação de fóruns patrocinados pelo empresário do Banco Master; revelações aprofundam questionamentos sobre a proximidade entre um integrante do Supremo e um banqueiro posteriormente alvo de uma das maiores investigações financeiras do país

As novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro ampliaram de forma significativa os questionamentos sobre a relação do ex-controlador do Banco Master com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. O material indica que a proximidade entre os dois não se limitava a encontros sociais ou conversas ocasionais: Moraes teria participado diretamente da preparação de eventos privados organizados no exterior pelo empresário, opinando sobre convidados, programação e envio de convites a autoridades.

As informações constam de um relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal a partir do celular apreendido com Vorcaro durante a Operação Compliance Zero. O documento teve o sigilo retirado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo.

Entre os eventos analisados estão duas edições do Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, previstas para 2024 e 2025. A segunda acabou cancelada. Mensagens trocadas entre Vorcaro e funcionários responsáveis pela organização revelam que o nome de Moraes aparecia repetidamente nas decisões sobre o encontro.

Em uma das conversas, quando uma funcionária sugeriu o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, como moderador de uma mesa, Vorcaro rejeitou imediatamente a possibilidade e escreveu: “Alexandre morre se vc fizer isso. Aliás nos mata”. Em outra troca, o empresário pediu que uma lista de convidados não fosse enviada antes de passar pela aprovação do ministro.

As mensagens não demonstram, por si mesmas, a prática de crime por Moraes. Mas criam um problema institucional que não pode ser tratado como detalhe de agenda. Um ministro do Supremo aparece, segundo o material produzido pela PF, exercendo influência concreta sobre a organização de encontros privados financiados por um empresário que mantinha extensa rede de relacionamento com integrantes dos Três Poderes e que posteriormente seria preso numa investigação sobre graves suspeitas envolvendo o sistema financeiro.

O ponto central já não é apenas saber se Moraes conhecia Vorcaro. É compreender qual era a extensão dessa proximidade e por que um magistrado da mais alta Corte do país aparentemente possuía tamanho peso na estruturação de eventos privados ligados ao banqueiro.

Moraes teria reclamado da programação e participado de ajustes

Outro conjunto de mensagens reforça a percepção de envolvimento.

Em julho de 2025, Vorcaro comunicou à equipe que Moraes havia feito fortes reclamações sobre a organização do evento de Londres. Segundo o banqueiro, o ministro considerava o encontro desorganizado e teria demonstrado incômodo com o destaque atribuído a Tarcísio de Freitas na programação. A assessoria do governador paulista declarou posteriormente que Tarcísio nunca teve participação prevista naquele evento.

No dia seguinte, uma funcionária informou a Vorcaro que havia passado o dia com Moraes e com sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, fechando o programa do encontro e que diversas alterações haviam sido feitas.

Há ainda mensagens indicando que convites para autoridades eram enviados ou acompanhados pelo próprio ministro. Em março de 2025, Vorcaro foi informado de que Moraes já estaria distribuindo avisos de reserva de data para o fórum. Dias depois, o banqueiro reclamou com sua equipe porque, segundo ele, Moraes havia cobrado a ausência de convites destinados a algumas pessoas.

Tomadas isoladamente, essas decisões podem parecer questões burocráticas de um seminário.

Quando analisadas em conjunto, porém, revelam um grau de envolvimento que exige explicações públicas mais robustas.

Ministros de tribunais superiores participam regularmente de congressos, seminários e fóruns jurídicos no Brasil e no exterior. Não há ilegalidade automática nisso. Também não é incomum que contribuam com sugestões de painéis ou indiquem especialistas.

O que torna o episódio diferente é quem financiava e articulava aqueles eventos e qual relação se desenvolveu paralelamente entre o empresário e pessoas ligadas ao ministro.

A proximidade com Vorcaro deixou de ser uma questão meramente social

A divulgação das mensagens ocorre no momento em que outras informações do relatório da PF já colocam a relação Moraes-Vorcaro sob escrutínio.

Os investigadores localizaram registros de diferentes encontros entre ambos, contatos intermediados inicialmente pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e mensagens nas quais Vorcaro buscava orientação ou apoio diante do avanço das investigações sobre o Banco Master.

Também vieram a público documentos relacionados ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Advogados, comandado por Viviane Barci de Moraes.

Metadados de uma versão do documento analisada pela investigação indicam que Alexandre de Moraes participou da revisão de uma minuta contratual. O escritório afirmou que o ministro foi consultado exclusivamente para verificar a existência de eventual impedimento legal para a contratação e sustentou que ele jamais julgou processos envolvendo o Banco Master.

A existência de um contrato de advocacia envolvendo o escritório de um familiar de magistrado não constitui, por si só, ilegalidade. Da mesma forma, revisar um documento para avaliar impedimentos não demonstra automaticamente favorecimento.

Mas, novamente, o problema surge quando os elementos são colocados lado a lado.

Há o contrato milionário com o escritório da esposa.

Há os encontros pessoais.

Há as mensagens de Vorcaro buscando interlocução com o ministro.

Há agora registros indicando influência de Moraes na organização de eventos internacionais bancados pelo ambiente empresarial ligado ao banqueiro.

Essa acumulação de fatos transforma aquilo que poderia ser explicado como convivência social em uma questão de confiança institucional.

O problema é especialmente grave porque se trata de um ministro do STF

Um ministro do Supremo possui um poder que poucos agentes públicos brasileiros concentram.

Pode decidir sobre investigações envolvendo autoridades, suspender atos dos demais Poderes, determinar medidas cautelares, julgar processos criminais de pessoas com foro privilegiado e participar de decisões capazes de alterar profundamente a política e a economia nacionais.

Justamente por isso, a exigência de distância em relação a interesses privados é muito maior.

Não é necessário demonstrar que um magistrado efetivamente praticou um ato ilegal para que uma relação levante questionamentos legítimos. A própria aparência de conflito de interesses pode corroer a confiança numa instituição cuja autoridade depende fundamentalmente da percepção de independência de seus integrantes.

O relatório da PF ainda não apresenta prova conclusiva de que Moraes tenha praticado um ato concreto para favorecer ilegalmente Vorcaro. Especialistas em Direito ouvidos após a divulgação do material também ressaltaram essa diferença: eventual responsabilização criminal dependeria da demonstração de que o ministro efetivamente utilizou sua função para beneficiar interesse privado.

É exatamente por isso que o aprofundamento da investigação é indispensável.

Não para condenar previamente Alexandre de Moraes, mas porque um ministro do Supremo não pode permanecer protegido de perguntas que seriam inevitáveis se os mesmos fatos envolvessem qualquer outra autoridade pública.

André Mendonça leva caso ao centro do Supremo

A crise já ultrapassou os limites da Polícia Federal.

André Mendonça retirou o sigilo do relatório e passou a defender que as questões envolvendo Moraes sejam analisadas pelo plenário do STF. Ele conversou com o presidente da Corte, Edson Fachin, sobre a possibilidade de levar o assunto a uma sessão pública.

A iniciativa provocou reação interna.

Ministros ouvidos pela imprensa questionaram o procedimento adotado por Mendonça e sustentaram que uma investigação formal contra integrante do Supremo deveria obedecer a ritos específicos, inclusive com participação da Procuradoria-Geral da República. Há, portanto, discussão jurídica também sobre a forma como o material foi produzido e tornado público.

Essa controvérsia não elimina o conteúdo das mensagens.

Pode influenciar sua utilização processual, pode alterar o caminho de uma eventual investigação e pode provocar disputas dentro da própria Corte. Mas as informações tornadas públicas continuarão exigindo respostas políticas e institucionais.

A oposição no Senado já passou a usar as revelações para renovar pressões por impeachment do ministro, movimento que enfrenta forte resistência da presidência da Casa e de partidos do centro.

O risco evidente é que um assunto que deveria ser esclarecido com transparência seja reduzido a mais uma batalha entre bolsonaristas e adversários de Bolsonaro.

Seria um erro.

A pergunta sobre a conduta de um ministro do Supremo não pertence à direita nem à esquerda.

Pertence à República.

Moraes precisa explicar mais, não menos

A divulgação dos novos elementos coloca Alexandre de Moraes diante de uma responsabilidade que vai além da defesa jurídica.

Ele precisa explicar publicamente qual era sua relação com Daniel Vorcaro, por que interferia na seleção de participantes e na programação de eventos vinculados ao banqueiro, qual era a natureza de sua participação nesses encontros e em que medida suas ações se limitavam a uma colaboração institucional comum.

Também precisa ser esclarecido se houve qualquer situação em que interesses do Banco Master ou de Vorcaro passaram pela esfera de atuação direta ou indireta do ministro.

Até agora, o relatório não comprova que Moraes recebeu recursos de Vorcaro. Também não demonstra, de maneira conclusiva, que ele tenha usado seu cargo para impedir uma investigação ou beneficiar ilegalmente o banqueiro. Uma apuração responsável precisa registrar esses limites.

Mas jornalismo responsável também não pode usar a ausência de uma condenação como desculpa para ignorar fatos politicamente constrangedores.

Um banqueiro investigado discutia listas de convidados como se a aprovação do ministro fosse decisiva.

Funcionários relatavam passar horas com Moraes e sua esposa fechando o programa de um evento.

O empresário dizia que o ministro reclamava da organização e do destaque concedido a determinados nomes.

Convites eram ajustados conforme as preferências atribuídas a Moraes.

Esse conjunto de informações não permite declarar culpa criminal.

Permite — e exige — questionar.

Transparência é a única saída aceitável

Alexandre de Moraes construiu nos últimos anos uma atuação pública baseada numa defesa enfática das instituições, do Estado Democrático de Direito e da responsabilidade daqueles que exercem poder.

A mesma régua precisa valer quando os questionamentos chegam ao próprio Supremo.

Não seria aceitável que mensagens semelhantes envolvendo um presidente da República, um ministro de Estado, um senador ou um dirigente de agência reguladora fossem tratadas como simples relações pessoais sem necessidade de esclarecimento.

Muito menos deve ser assim com um integrante da mais alta Corte do país.

O Supremo não perde autoridade quando investiga seus próprios ministros.

Perde autoridade quando parece incapaz de fazê-lo.

Se as explicações demonstrarem que a participação de Moraes nos eventos era legítima, compatível com sua função e sem qualquer consequência para decisões públicas, isso deve ser estabelecido por fatos.

Se surgirem elementos indicando interferência imprópria, eles também devem ser apurados com independência.

O que não parece mais razoável é tratar a relação entre Moraes e Vorcaro como uma sucessão de coincidências sem relevância institucional.

As mensagens retiradas do celular do banqueiro tornaram essa interpretação cada vez mais difícil.

Daniel Vorcaro era um empresário com profundo trânsito entre autoridades brasileiras. Moraes era uma das autoridades que aparecem repetidamente nesse círculo.

Agora, a Polícia Federal colocou documentos, mensagens e registros diante do país.

O mínimo que uma instituição que exige transparência dos outros Poderes deve oferecer é exatamente o mesmo.

sábado, 29 de agosto de 2026

Natanzinho Lima lidera ranking de shows pagos com dinheiro público e soma R$ 158 milhões em contratos em pouco mais de dois anos


Levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas identificou 336 apresentações contratadas por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026; cachês que começaram na faixa de R$ 25 mil chegaram a R$ 1 milhão em municípios com cerca de 20 mil habitantes

A ascensão de Natanzinho Lima no mercado musical brasileiro pode ser medida por reproduções, seguidores, agenda de shows e presença crescente nas festas populares do país. Mas existe outro número capaz de dimensionar com ainda mais precisão a velocidade dessa transformação: R$ 158,06 milhões.

Esse foi o valor acumulado pelo cantor em contratos para apresentações financiadas por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e 31 de março de 2026, segundo o dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, elaborado pelo observatório De Olho nos Ruralistas. No período de aproximadamente 27 meses, foram identificados 336 shows, número que colocou Natanzinho na liderança nacional entre os artistas analisados.

O dado não significa que exista irregularidade em qualquer uma dessas contratações. Apresentações musicais podem ser legalmente custeadas pelo poder público, e a legislação brasileira permite a contratação direta de artistas consagrados por meio de inexigibilidade de licitação quando preenchidos os requisitos previstos na Lei nº 14.133. O que chama atenção no levantamento é a escala, a velocidade de valorização dos cachês e o peso que algumas apresentações assumem em municípios de pequeno porte.

Em janeiro de 2024, segundo o estudo, Natanzinho recebia cerca de R$ 25 mil por apresentação. Ainda naquele ano, já foi contratado por R$ 350 mil para o Réveillon de Macapá. Em 2025, contratos passaram pela faixa de R$ 500 mil, e em 2026 surgiram apresentações próximas ou iguais a R$ 1 milhão.

Poucos mercados oferecem uma fotografia tão clara de valorização em prazo tão curto. Em pouco mais de dois anos, o cachê de algumas contratações públicas ligadas ao artista passou a ser dezenas de vezes superior ao valor registrado no início de 2024.

De R$ 25 mil a R$ 1 milhão

Um dos exemplos mais emblemáticos está em Mucajaí, em Roraima.

A prefeitura contratou Natanzinho Lima por R$ 1 milhão para uma apresentação ligada à programação da 42ª Encenação da Paixão de Cristo. O contrato foi formalizado por inexigibilidade de licitação e publicado oficialmente no início de fevereiro de 2026.

Mucajaí tinha população estimada em 20.006 habitantes em 2025, segundo o IBGE. Ou seja, trata-se de uma cidade com aproximadamente 20 mil moradores destinando R$ 1 milhão exclusivamente ao cachê de uma atração musical dentro de sua programação cultural.

Outro caso ocorreu em Matupá, no Mato Grosso. A prefeitura contratou o cantor por R$ 950 mil para a ExpoMatupá 2026, realizada em comemoração aos 38 anos do município. O Diário Oficial de Mato Grosso registra a contratação da empresa NL Music Ltda. por esse valor, também por inexigibilidade.

Matupá tinha 21.959 habitantes na estimativa populacional de 2025 do IBGE. Para o mesmo evento, a prefeitura também contratou Bruno & Marrone por R$ 1,1 milhão e Léo & Raphael por R$ 200 mil, fazendo com que apenas essas três atrações nacionais somassem R$ 2,25 milhões.

Os dois episódios ajudam a ilustrar uma discussão que ganhou espaço em tribunais de contas, câmaras municipais, Ministério Público e sociedade civil nos últimos anos: qual deve ser o limite do investimento de cidades pequenas em grandes shows pagos pelo orçamento público?

A resposta não pode ser dada apenas pelo tamanho da população ou pelo valor nominal de um cachê. Eventos podem movimentar hotéis, bares, restaurantes, transporte, comércio ambulante e turismo regional. Uma festa capaz de atrair milhares de visitantes pode gerar efeitos econômicos que ultrapassam os limites do próprio município.

Mas dinheiro público exige uma pergunta adicional que não existe numa produção privada: o valor contratado é justificável diante da realidade financeira local e do retorno esperado?

Essa avaliação se torna ainda mais importante quando os cachês começam a chegar à casa de R$ 800 mil, R$ 900 mil ou R$ 1 milhão.

336 shows em 27 meses

O caso Natanzinho também impressiona pelo volume.

O relatório do De Olho nos Ruralistas reuniu mais de 20 mil contratos envolvendo apresentações musicais e apontou que o cantor realizou ou teve contratados 336 shows com recursos de administrações públicas entre janeiro de 2024 e março de 2026. Isso corresponde, segundo o próprio levantamento, a aproximadamente uma apresentação financiada pelo poder público a cada dois dias e meio durante o período.

Natanzinho não aparece apenas como líder individual. Ele faz parte de uma estrutura empresarial que também ocupa posição central nesse mercado.

O cantor é ligado à Camarote Shows, produtora associada à trajetória empresarial de Wesley Safadão. Segundo o levantamento, artistas vinculados à empresa acumularam centenas de milhões de reais em contratos públicos no período analisado. Quando o estudo amplia o recorte para artistas fora do grupo dos 40 maiores, os contratos públicos associados ao casting da Camarote se aproximam de R$ 1 bilhão.

A concentração não se limita a uma produtora. O relatório aponta que cinco grandes grupos empresariais do Nordeste administram parcela expressiva dos artistas que aparecem nas primeiras posições do ranking nacional de shows públicos.

Isso revela uma característica pouco discutida do mercado brasileiro de entretenimento: a contratação pública de artistas deixou de ser apenas uma sucessão de festas municipais isoladas e passou a formar uma indústria bilionária, com produtoras, agentes, estratégias comerciais, circuitos regionais e artistas que percorrem centenas de cidades utilizando majoritariamente estruturas financiadas pelo poder público.

O dossiê calculou R$ 3,08 bilhões em contratos apenas entre os 40 artistas mais contratados no período analisado.

O Nordeste está no centro desse mercado

A geografia das contratações também merece atenção.

Segundo dados derivados do levantamento, o Nordeste concentrou a grande maioria das apresentações públicas analisadas. Foram milhares de shows ligados principalmente a São João, aniversários municipais, emancipações políticas, festivais, exposições e festas tradicionais.

Forró, piseiro, arrocha e outros ritmos populares da região ocupam posição dominante nesse mercado.

Natanzinho Lima, nascido em Itabaiana, Sergipe, simboliza essa transformação. Em poucos anos, deixou os circuitos de menor porte para ingressar numa estrutura nacional de produção e passar a figurar entre os principais nomes contratados por administrações públicas.

Seu crescimento comercial acompanhou a explosão de popularidade do piseiro e do arrocha, gêneros que passaram a competir em grandes programações com artistas sertanejos que tradicionalmente dominavam os maiores cachês.

Em Fortaleza, por exemplo, Natanzinho recebeu R$ 500 mil para participar da programação de aniversário da cidade em abril de 2025. Em Mirandiba, Pernambuco, um contrato de outubro de 2024 previa R$ 250 mil pela apresentação. Em Marabá, no Pará, o cachê chegou a R$ 850 mil em 2026.

A evolução mostra que o salto não aconteceu de uma vez. O preço foi subindo junto com a exposição nacional do cantor, até alcançar contratos próximos à casa de R$ 1 milhão.

R$ 158 milhões não são “dinheiro entregue diretamente ao cantor”

Há uma precisão importante para compreender esses números.

Quando um levantamento afirma que determinado artista recebeu R$ 158 milhões em contratos públicos, isso não significa necessariamente que o mesmo valor foi incorporado pessoalmente ao patrimônio do cantor.

Os contratos costumam ser celebrados com empresas responsáveis pelas apresentações e podem incluir custos de produção, equipe, músicos, logística, transporte, tributos, comissão empresarial e outras despesas.

O valor contratual, portanto, representa o custo público das apresentações incluídas no levantamento, e não uma afirmação sobre o lucro líquido ou a renda pessoal de Natanzinho.

Essa distinção é necessária para que um dado impressionante não seja transformado em uma conclusão incorreta.

Também não há, no relatório citado, uma acusação de que as 336 contratações de Natanzinho sejam ilegais.

A discussão levantada pelos números é sobre prioridade, transparência, formação dos preços e concentração de recursos públicos em grandes atrações musicais.

A comparação com a Lei Rouanet exige cuidado

Outro número ajuda a dimensionar a cifra, desde que a comparação seja feita corretamente.

O Museu de Arte de São Paulo, o Masp, foi a instituição que mais captou recursos pela Lei Rouanet em 2025, com aproximadamente R$ 49,2 milhões, provenientes de 114 empresas patrocinadoras.

Os R$ 158,06 milhões ligados aos contratos públicos de Natanzinho são mais de três vezes esse montante.

Mas os dois mecanismos são profundamente diferentes e não podem ser apresentados como se fossem a mesma forma de gasto público.

Nos shows contratados por prefeituras e estados, a administração pública celebra um contrato e paga diretamente pela apresentação, utilizando recursos orçamentários de acordo com as regras aplicáveis.

Na Lei Rouanet, o governo federal autoriza previamente um projeto cultural a captar recursos. Empresas e pessoas físicas escolhem quais projetos apoiar e podem destinar parte do Imposto de Renda devido dentro dos limites estabelecidos pela legislação. Em 2025, todos os projetos apoiados pela Rouanet captaram juntos R$ 3,41 bilhões, segundo o Ministério da Cultura.

Há ainda uma diferença temporal: os R$ 158 milhões atribuídos ao circuito público de Natanzinho abrangem janeiro de 2024 a março de 2026, enquanto o valor do Masp se refere apenas à captação realizada em 2025.

A comparação, portanto, serve para demonstrar escala, não equivalência orçamentária.

E justamente por serem mecanismos diferentes, ela ajuda a revelar como o debate sobre financiamento cultural no Brasil costuma ser incompleto.

Enquanto a Lei Rouanet ocupa há décadas o centro das discussões políticas sobre dinheiro destinado à cultura, milhares de contratos diretos de shows são realizados todos os anos por estados e municípios, frequentemente com valores individuais de centenas de milhares ou até milhões de reais.

Contratar artistas sem licitação pode ser legal

A expressão “sem licitação” costuma gerar automaticamente suspeita, mas também precisa ser compreendida corretamente.

A Lei nº 14.133/2021, que disciplina licitações e contratos administrativos, permite a contratação direta, por inexigibilidade, de profissional do setor artístico consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública, diretamente ou por meio de empresário exclusivo.

A lógica é simples: não existe competição convencional para contratar um artista específico. Uma prefeitura que pretende contratar Natanzinho Lima não pode realizar um leilão para descobrir qual empresa oferece “outro Natanzinho” por preço menor.

Isso não significa liberdade para pagar qualquer valor.

A administração precisa justificar a escolha e demonstrar a compatibilidade do preço, além de cumprir as obrigações de transparência e formalização do processo.

É nesse ponto que o controle público ganha relevância.

A pergunta jurídica não é simplesmente se houve licitação. É se a inexigibilidade estava devidamente fundamentada, se o contratado possuía a representação necessária, se o preço foi justificado e se o procedimento respeitou as regras legais.

Cultura também é política pública

Seria igualmente simplista concluir que dinheiro público destinado a festas representa necessariamente desperdício.

Cultura, lazer e turismo fazem parte das atribuições do poder público e podem produzir retorno econômico expressivo.

Grandes eventos municipais movimentam hospedagem, alimentação, transporte, segurança privada, comércio e trabalhadores temporários. Muitas festas possuem importância histórica e cultural para suas regiões e conseguem atrair visitantes em volumes muito superiores à população residente.

O problema começa quando o debate é reduzido a duas caricaturas.

De um lado, a ideia de que qualquer show público é desperdício.

Do outro, a tese de que qualquer cachê pode ser justificado sob o argumento genérico de que uma festa “movimenta a economia”.

Entre as duas posições existe aquilo que deveria orientar toda despesa pública: evidência.

Quantas pessoas o evento recebeu?

Quantos turistas vieram de fora?

Quanto o comércio movimentou?

Qual foi o impacto sobre hotéis e restaurantes?

Quanto o município gastou no total, incluindo palco, estrutura, segurança e logística?

Quanto retornou em tributos?

A cidade possui capacidade financeira para repetir a despesa?

Esses números permitem sair da discussão ideológica e avaliar políticas públicas com critérios concretos.

O fenômeno Natanzinho revela um mercado muito maior

O dado dos R$ 158 milhões é irresistível porque concentra a discussão em um personagem conhecido.

Mas talvez a revelação mais importante esteja exatamente no contrário.

Natanzinho Lima não é uma exceção isolada.

Ele é o líder de um mercado que movimenta bilhões de reais em contratações públicas, distribuídas por milhares de municípios e centenas de artistas.

O relatório identificou Henry Freitas logo atrás, com aproximadamente R$ 125,9 milhões, e Wesley Safadão na sequência, com mais de R$ 113 milhões em contratos no período.

Somente os 40 artistas no topo da lista alcançaram R$ 3,08 bilhões.

Quando o universo é ampliado para cem artistas, o levantamento supera a casa dos R$ 5 bilhões.

Isso modifica completamente a perspectiva.

O debate deixa de ser apenas “quanto custa Natanzinho?” e passa a ser como o Brasil está financiando sua gigantesca indústria de festas públicas.

Quem decide as atrações?

Como os cachês são formados?

Por que o mesmo artista custa valores diferentes em municípios distintos?

Qual parcela vem de recursos próprios e qual vem de emendas ou transferências?

Que empresas concentram os contratos?

Qual é o retorno econômico?

E, principalmente, quem acompanha esses números depois que o palco é desmontado?

São perguntas legítimas, independentemente de quem esteja cantando.

O problema não está no sucesso do artista

Natanzinho Lima alcançou enorme popularidade em pouco tempo. Se existe público interessado em suas apresentações, é natural que seu valor de mercado aumente.

Artistas não são obrigados a cobrar menos porque o contratante é uma prefeitura.

Da mesma forma, não cabe imputar ao cantor responsabilidade pela decisão política de determinada administração municipal de contratá-lo.

Quem administra dinheiro público é o agente público.

É da prefeitura ou do governo estadual a obrigação de demonstrar que a contratação atende ao interesse público, possui preço justificável e cabe dentro da realidade orçamentária.

O sucesso de Natanzinho não é o problema.

A questão colocada pelos R$ 158 milhões é outra: como um país com mais de 5.500 municípios passou a sustentar um circuito de entretenimento no qual algumas carreiras artísticas conseguem acumular centenas de milhões de reais em contratos públicos em pouco mais de dois anos?

Mucajaí, com aproximadamente 20 mil habitantes, destinou R$ 1 milhão a uma apresentação.

Matupá, com menos de 22 mil, contratou o artista por R$ 950 mil.

Em janeiro de 2024, o cachê apontado pelo levantamento estava na casa dos R$ 25 mil.

Nenhum desses números, isoladamente, prova desperdício, ilegalidade ou superfaturamento.

Juntos, porém, eles contam uma história que merece ser conhecida.

É a história de um jovem cantor que saiu de Sergipe e se transformou em um dos fenômenos comerciais da música brasileira.

Mas é também a história de um mercado construído, em parcela expressiva, com dinheiro dos cofres públicos.

E quando a conta é pública, sucesso artístico não encerra a discussão.

É justamente onde a transparência precisa começar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Prefeituras do Paraná gastaram quase R$ 1,2 bilhão com shows; TCE aponta casos que podem virar fiscalização


Levantamento reúne 10,9 mil empenhos feitos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. Fernando & Sorocaba lideram entre artistas identificados, enquanto São José dos Pinhais aparece no topo entre os municípios que mais desembolsaram

O volume impressiona antes mesmo de qualquer comparação.

Entre 2021 e o fim do primeiro semestre de 2026, as prefeituras do Paraná registraram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em gastos com shows artísticos, segundo um novo levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).

Os dados mostram como a contratação de atrações para festas, exposições, aniversários municipais e outros eventos se transformou em uma despesa relevante nos orçamentos locais. No período analisado, foram contabilizados 10.900 empenhos de pelo menos R$ 20 mil, envolvendo despesas classificadas como “Festividades e Homenagens” e “Contratação Artística e Cultural”.

O universo é amplo: 1.158 artistas, duplas, bandas ou grupos aparecem nas informações encaminhadas pelas próprias administrações municipais ao Tribunal.

Dos 399 municípios paranaenses, apenas seis não apresentaram registros desse tipo de despesa dentro dos critérios utilizados pelo painel: Campo do Tenente, Guaporema, Nova Cantu, Paulo Frontim, Pinhal de São Bento e Piraquara. Ou seja, 98,5% das prefeituras do estado tiveram algum gasto enquadrado nessas categorias durante o período analisado.

O levantamento ganhou uma dimensão ainda mais sensível porque o TCE encontrou situações em que a origem contábil do dinheiro pode indicar o uso de verbas vinculadas a outras finalidades.

Entre elas aparecem recursos associados à saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Corpo de Bombeiros e iluminação pública.

O Tribunal ressalva que a presença de um dado no painel não representa automaticamente uma irregularidade. Mas informou que pretende instaurar procedimentos específicos nos casos em que a análise confirmar utilização indevida de recursos públicos.

Quase R$ 600 milhões aparecem sem artista identificado

Outro dado chama atenção.

Levantamentos realizados a partir do painel do TCE indicam que aproximadamente R$ 596 milhões — quase metade do total — aparecem sem identificação do artista nos dados analisados.

Isso não significa necessariamente que os pagamentos tenham sido feitos sem documentação ou que sejam irregulares. O painel é construído a partir das informações enviadas pelos próprios municípios, e diferenças de preenchimento, classificação e identificação podem interferir na forma como os dados são agrupados.

O próprio Tribunal ressalta que a responsabilidade pela exatidão das informações pertence aos representantes legais e técnicos das entidades que as encaminharam aos sistemas de controle.

Ainda assim, o volume sem identificação nominal ajuda a explicar por que o TCE decidiu criar uma ferramenta específica para permitir que cidadãos, jornalistas, vereadores, pesquisadores e órgãos de fiscalização cruzem dados sobre eventos municipais.

É justamente entre os gastos que puderam ser associados aos artistas que surge um ranking bastante conhecido do público sertanejo.

A dupla Fernando & Sorocaba lidera o levantamento detalhado divulgado a partir do painel, com aproximadamente R$ 18,142 milhões recebidos em 66 apresentações contratadas por municípios paranaenses.

Na sequência aparecem Guilherme & Benuto, com cerca de R$ 13,234 milhões em 65 shows; Ana Castela, com R$ 12,625 milhões em 31 apresentações; Luan Pereira, com R$ 11,746 milhões em 60 contratos; e Maiara & Maraisa, com aproximadamente R$ 11,682 milhões em 27 shows.

Os números ajudam a revelar uma característica dos grandes eventos municipais no interior do país: o sertanejo domina boa parte das contratações de maior valor.

Nomes como Leonardo, Clayton & Romário, Rio Negro & Solimões, Bruno & Marrone, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano e Zezé Di Camargo & Luciano também aparecem entre os artistas que acumulam milhões de reais em apresentações pagas por administrações municipais.

O TCE calculou que o valor médio das contratações registradas no período foi de R$ 112,3 mil. Naturalmente, essa média reúne desde atrações regionais até artistas nacionais cujos cachês individuais podem atingir valores muito superiores.

São José dos Pinhais lidera gastos entre as prefeituras

Do outro lado da conta estão os municípios.

São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, liderou o ranking de despesas, com aproximadamente R$ 41,744 milhões distribuídos em 65 empenhos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026.

Paranaguá aparece em segundo lugar, com aproximadamente R$ 29,64 milhões, seguida por Castro, com R$ 25,807 milhões; Ponta Grossa, com R$ 25,776 milhões; e Fazenda Rio Grande, com R$ 21,354 milhões.

Os dados também mostram uma forte aceleração dos gastos após o período mais crítico da pandemia.

Em 2021, quando ainda existiam fortes restrições e impactos provocados pela Covid-19, foram registrados R$ 25,1 milhões em despesas desse tipo.

Em 2024, o valor já havia chegado a R$ 292,2 milhões.

O recorde ocorreu em 2025, com R$ 403,5 milhões gastos em shows pelas administrações municipais.

Somente no primeiro semestre de 2026, os registros já somavam R$ 144,7 milhões.

A evolução demonstra que eventos públicos voltaram com força aos calendários municipais após a pandemia, acompanhados por um mercado artístico em que cachês de atrações nacionais frequentemente chegam a centenas de milhares de reais por noite.

O painel revela ainda que aproximadamente R$ 4,3 milhões vieram de transferências por emendas parlamentares destinadas a custear shows, o equivalente a cerca de 0,35% de todo o montante contabilizado.

Festa pública não é irregular; origem e destino do dinheiro fazem diferença

O levantamento do Tribunal não parte da premissa de que gastar dinheiro público com cultura, lazer ou entretenimento seja irregular.

A própria Corte destaca que cultura e lazer são direitos assegurados constitucionalmente e afirma que o painel tem caráter informativo, destinado a ampliar a transparência e incentivar a boa administração dos recursos públicos.

Uma festa municipal também pode gerar efeitos econômicos concretos.

Shows de grande porte atraem visitantes, aumentam o movimento em hotéis, bares e restaurantes, movimentam serviços de transporte, comércio ambulante e estruturas temporárias, além de produzirem exposição turística para cidades que normalmente teriam pouca projeção nacional.

O problema jurídico e administrativo surge quando a origem do dinheiro possui uma finalidade determinada.

Recursos vinculados à saúde ou à educação, por exemplo, não podem simplesmente ser deslocados para outras despesas porque uma prefeitura decidiu realizar um evento.

Foi justamente o cruzamento das fontes contábeis dos recursos que levou os técnicos do TCE a identificar situações que merecem análise mais profunda.

O Tribunal afirma que verificará os casos individualmente e instaurará procedimentos quando houver comprovação de uso irregular. Até que isso ocorra, é importante distinguir indício de irregularidade de irregularidade efetivamente comprovada.

Essa diferença também vale para os artistas.

A presença de Fernando & Sorocaba, Ana Castela, Guilherme & Benuto ou qualquer outro nome no ranking significa que apresentações foram contratadas por municípios e tiveram valores registrados no sistema. O levantamento, por si só, não atribui aos artistas qualquer responsabilidade por eventual problema na fonte utilizada pelas prefeituras para realizar os pagamentos.

A responsabilidade pela execução do orçamento, classificação das despesas e respeito às vinculações legais é da administração pública responsável pela contratação.

Um novo nível de transparência sobre os cachês

Talvez o aspecto mais relevante do levantamento esteja menos no ranking dos artistas e mais na possibilidade de acompanhar como esse dinheiro é gasto.

O Painel de Gastos com Eventos Municipais, incorporado ao Portal Informação para Todos do TCE-PR, permite pesquisar despesas por prefeitura, período, artista, valor e fonte do recurso. Também possibilita comparar o dinheiro destinado a shows com receitas municipais e investimentos em áreas como saúde e educação.

A ferramenta utiliza ainda processos automatizados de classificação de dados, com apoio de inteligência artificial, para organizar as informações encaminhadas pelos municípios.

E essa transparência pode produzir uma discussão mais qualificada do que simplesmente perguntar se uma prefeitura “deveria ou não” contratar determinado cantor.

Uma cidade pode decidir que uma grande festa é importante para sua economia, turismo ou identidade cultural. Outra pode considerar mais adequado priorizar outros investimentos.

O ponto central é que, quando a conta é paga com dinheiro público, a sociedade tem o direito de saber quanto foi gasto, quem recebeu, de onde saiu o recurso e se a legislação foi respeitada.

No Paraná, essa conta chegou a quase R$ 1,2 bilhão em seis anos e meio.

Agora, com milhares de contratos reunidos em uma única base e possíveis inconsistências sob análise, o próximo capítulo deixa os palcos e entra definitivamente na fiscalização das contas públicas.