Mostrando postagens com marcador dinheiro público. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dinheiro público. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

PF faz 49 buscas e investiga suspeita de uso de dinheiro público em filme sobre Bolsonaro


Operação Make Up mira o deputado Mario Frias, a produtora Karina Gama e organizações ligadas ao longa “Dark Horse”; sete armas foram apreendidas e 29 investigados estão proibidos de deixar o país

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 10 de setembro, a Operação Make Up para investigar suspeitas de desvio de recursos públicos relacionados a emendas parlamentares e contratos que teriam ligação com a produção do filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Ao todo, foram cumpridos 49 mandados de busca e apreensão em endereços de São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Entre os alvos está o deputado federal Mario Frias (PL-SP), autor de emendas sob investigação e produtor-executivo e roteirista do filme.

A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e contou com a participação da Controladoria-Geral da União. Segundo a PF, a investigação apura a atuação de uma possível organização formada por agentes públicos e privados, que teria direcionado recursos para empresas subcontratadas sem comprovação da prestação dos serviços contratados.

As informações foram divulgadas pela Folha de S.Paulo e pelo UOL.

Emendas parlamentares estão no centro da apuração

Uma das frentes da investigação envolve repasses de emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), organização presidida pela empresária Karina Ferreira da Gama, também ligada à produção de “Dark Horse”.

De acordo com a apuração, Mario Frias teria destinado até R$ 2 milhões em emendas ao instituto. Uma das transferências, no valor de R$ 1 milhão, seria destinada a um programa de empreendedorismo no interior de São Paulo que, segundo os investigadores, não chegou a ser executado.

A PF também apura se documentos foram produzidos ou retrodatados para dar aparência regular às operações e se parte dos valores teria sido direcionada a empresas ligadas à produção do filme.

A investigação ainda examina contratos envolvendo organizações comandadas por Karina Gama, incluindo a Academia Nacional de Cultura e o próprio Instituto Conhecer Brasil.

Sete armas são apreendidas

Durante a operação, sete armas foram apreendidas. Segundo informações divulgadas pelo UOL, os armamentos estavam registrados em nome de Mario Frias, mas teriam sido encontrados em endereços diferentes daquele declarado pelo parlamentar. A possível irregularidade na posse e na localização das armas também será analisada pelos investigadores.

Além das armas, agentes recolheram computadores, celulares, documentos e outros materiais que deverão passar por perícia.

A operação determinou ainda que 29 investigados não deixem o país sem autorização judicial. Outras 22 empresas foram proibidas de contratar com o poder público enquanto as apurações estiverem em andamento.

As medidas cautelares não representam uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade dos investigados. O material apreendido ainda será analisado pela Polícia Federal.

Investigação envolve contratos de Wi-Fi e movimentações milionárias

A apuração sobre o filme também se conecta a contratos públicos que não têm relação direta, ao menos formalmente, com a produção cinematográfica.

Um dos pontos investigados envolve um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo para a instalação de internet Wi-Fi em comunidades carentes. A PF apura se parte dos recursos desse contrato foi desviada ou utilizada para financiar pessoas e empresas ligadas ao filme.

Os investigadores também identificaram movimentações financeiras de centenas de milhões de reais entre empresas relacionadas ao grupo investigado.

Outra frente apura possíveis vínculos com recursos do antigo Banco Master e com transações internacionais. O senador Flávio Bolsonaro não é alvo da operação desta quinta-feira, mas aparece em uma investigação separada relacionada à captação de recursos para o filme.

Crimes investigados

A Polícia Federal apura suspeitas de:

  • peculato;

  • falsidade documental;

  • lavagem de dinheiro;

  • organização criminosa;

  • fraude em licitações;

  • irregularidades na execução de contratos públicos.

A suspeita central é que recursos originalmente destinados a projetos públicos tenham sido transferidos para organizações e empresas subcontratadas, sem comprovação de que os serviços contratados tenham sido efetivamente realizados.

O caso ainda está em fase de investigação. A análise dos documentos, aparelhos eletrônicos e dados financeiros poderá indicar se houve desvio, quais valores foram movimentados e quem teria participado do eventual esquema.

O que dizem os investigados

Mario Frias nega as acusações e já afirmou que as denúncias são falsas e difamatórias. A defesa do deputado também sustenta que as emendas foram consideradas legais pela Câmara dos Deputados.

Karina Gama declarou que a aplicação dos recursos foi regular. As defesas dos demais investigados ainda poderão se manifestar ao longo da apuração.

A PF não informou, até o momento, a existência de prisões na operação. As medidas cumpridas nesta quinta-feira foram de busca e apreensão, restrição de saída do país e suspensão temporária do direito de empresas contratarem com o poder público.

Filme ainda não tem lançamento definido

“Dark Horse” foi apresentado como uma cinebiografia sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. Mario Frias participa do projeto como produtor-executivo e roteirista, enquanto Karina Gama aparece como responsável pela produtora ligada à obra.

O longa tornou-se alvo de questionamentos por causa da origem dos recursos utilizados em sua produção e das relações entre as empresas, organizações sociais e pessoas envolvidas na captação do dinheiro.

A operação não prova, neste momento, que o filme tenha sido financiado ilegalmente. A investigação busca justamente esclarecer se emendas parlamentares, contratos públicos e outras fontes de recursos foram utilizados de forma irregular.

O avanço da Operação Make Up deverá provocar novas manifestações dos investigados e pode levar à análise de documentos, quebras de sigilo e outras medidas judiciais. O ponto central agora é descobrir se os recursos destinados a projetos públicos foram realmente aplicados nas finalidades previstas ou se acabaram abastecendo empresas e atividades ligadas à produção do filme sobre Bolsonaro.

sábado, 29 de agosto de 2026

Natanzinho Lima lidera ranking de shows pagos com dinheiro público e soma R$ 158 milhões em contratos em pouco mais de dois anos


Levantamento do observatório De Olho nos Ruralistas identificou 336 apresentações contratadas por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e março de 2026; cachês que começaram na faixa de R$ 25 mil chegaram a R$ 1 milhão em municípios com cerca de 20 mil habitantes

A ascensão de Natanzinho Lima no mercado musical brasileiro pode ser medida por reproduções, seguidores, agenda de shows e presença crescente nas festas populares do país. Mas existe outro número capaz de dimensionar com ainda mais precisão a velocidade dessa transformação: R$ 158,06 milhões.

Esse foi o valor acumulado pelo cantor em contratos para apresentações financiadas por prefeituras e governos estaduais entre janeiro de 2024 e 31 de março de 2026, segundo o dossiê “Farras: como os shows com dinheiro público conectam artistas, bets, política e agronegócio”, elaborado pelo observatório De Olho nos Ruralistas. No período de aproximadamente 27 meses, foram identificados 336 shows, número que colocou Natanzinho na liderança nacional entre os artistas analisados.

O dado não significa que exista irregularidade em qualquer uma dessas contratações. Apresentações musicais podem ser legalmente custeadas pelo poder público, e a legislação brasileira permite a contratação direta de artistas consagrados por meio de inexigibilidade de licitação quando preenchidos os requisitos previstos na Lei nº 14.133. O que chama atenção no levantamento é a escala, a velocidade de valorização dos cachês e o peso que algumas apresentações assumem em municípios de pequeno porte.

Em janeiro de 2024, segundo o estudo, Natanzinho recebia cerca de R$ 25 mil por apresentação. Ainda naquele ano, já foi contratado por R$ 350 mil para o Réveillon de Macapá. Em 2025, contratos passaram pela faixa de R$ 500 mil, e em 2026 surgiram apresentações próximas ou iguais a R$ 1 milhão.

Poucos mercados oferecem uma fotografia tão clara de valorização em prazo tão curto. Em pouco mais de dois anos, o cachê de algumas contratações públicas ligadas ao artista passou a ser dezenas de vezes superior ao valor registrado no início de 2024.

De R$ 25 mil a R$ 1 milhão

Um dos exemplos mais emblemáticos está em Mucajaí, em Roraima.

A prefeitura contratou Natanzinho Lima por R$ 1 milhão para uma apresentação ligada à programação da 42ª Encenação da Paixão de Cristo. O contrato foi formalizado por inexigibilidade de licitação e publicado oficialmente no início de fevereiro de 2026.

Mucajaí tinha população estimada em 20.006 habitantes em 2025, segundo o IBGE. Ou seja, trata-se de uma cidade com aproximadamente 20 mil moradores destinando R$ 1 milhão exclusivamente ao cachê de uma atração musical dentro de sua programação cultural.

Outro caso ocorreu em Matupá, no Mato Grosso. A prefeitura contratou o cantor por R$ 950 mil para a ExpoMatupá 2026, realizada em comemoração aos 38 anos do município. O Diário Oficial de Mato Grosso registra a contratação da empresa NL Music Ltda. por esse valor, também por inexigibilidade.

Matupá tinha 21.959 habitantes na estimativa populacional de 2025 do IBGE. Para o mesmo evento, a prefeitura também contratou Bruno & Marrone por R$ 1,1 milhão e Léo & Raphael por R$ 200 mil, fazendo com que apenas essas três atrações nacionais somassem R$ 2,25 milhões.

Os dois episódios ajudam a ilustrar uma discussão que ganhou espaço em tribunais de contas, câmaras municipais, Ministério Público e sociedade civil nos últimos anos: qual deve ser o limite do investimento de cidades pequenas em grandes shows pagos pelo orçamento público?

A resposta não pode ser dada apenas pelo tamanho da população ou pelo valor nominal de um cachê. Eventos podem movimentar hotéis, bares, restaurantes, transporte, comércio ambulante e turismo regional. Uma festa capaz de atrair milhares de visitantes pode gerar efeitos econômicos que ultrapassam os limites do próprio município.

Mas dinheiro público exige uma pergunta adicional que não existe numa produção privada: o valor contratado é justificável diante da realidade financeira local e do retorno esperado?

Essa avaliação se torna ainda mais importante quando os cachês começam a chegar à casa de R$ 800 mil, R$ 900 mil ou R$ 1 milhão.

336 shows em 27 meses

O caso Natanzinho também impressiona pelo volume.

O relatório do De Olho nos Ruralistas reuniu mais de 20 mil contratos envolvendo apresentações musicais e apontou que o cantor realizou ou teve contratados 336 shows com recursos de administrações públicas entre janeiro de 2024 e março de 2026. Isso corresponde, segundo o próprio levantamento, a aproximadamente uma apresentação financiada pelo poder público a cada dois dias e meio durante o período.

Natanzinho não aparece apenas como líder individual. Ele faz parte de uma estrutura empresarial que também ocupa posição central nesse mercado.

O cantor é ligado à Camarote Shows, produtora associada à trajetória empresarial de Wesley Safadão. Segundo o levantamento, artistas vinculados à empresa acumularam centenas de milhões de reais em contratos públicos no período analisado. Quando o estudo amplia o recorte para artistas fora do grupo dos 40 maiores, os contratos públicos associados ao casting da Camarote se aproximam de R$ 1 bilhão.

A concentração não se limita a uma produtora. O relatório aponta que cinco grandes grupos empresariais do Nordeste administram parcela expressiva dos artistas que aparecem nas primeiras posições do ranking nacional de shows públicos.

Isso revela uma característica pouco discutida do mercado brasileiro de entretenimento: a contratação pública de artistas deixou de ser apenas uma sucessão de festas municipais isoladas e passou a formar uma indústria bilionária, com produtoras, agentes, estratégias comerciais, circuitos regionais e artistas que percorrem centenas de cidades utilizando majoritariamente estruturas financiadas pelo poder público.

O dossiê calculou R$ 3,08 bilhões em contratos apenas entre os 40 artistas mais contratados no período analisado.

O Nordeste está no centro desse mercado

A geografia das contratações também merece atenção.

Segundo dados derivados do levantamento, o Nordeste concentrou a grande maioria das apresentações públicas analisadas. Foram milhares de shows ligados principalmente a São João, aniversários municipais, emancipações políticas, festivais, exposições e festas tradicionais.

Forró, piseiro, arrocha e outros ritmos populares da região ocupam posição dominante nesse mercado.

Natanzinho Lima, nascido em Itabaiana, Sergipe, simboliza essa transformação. Em poucos anos, deixou os circuitos de menor porte para ingressar numa estrutura nacional de produção e passar a figurar entre os principais nomes contratados por administrações públicas.

Seu crescimento comercial acompanhou a explosão de popularidade do piseiro e do arrocha, gêneros que passaram a competir em grandes programações com artistas sertanejos que tradicionalmente dominavam os maiores cachês.

Em Fortaleza, por exemplo, Natanzinho recebeu R$ 500 mil para participar da programação de aniversário da cidade em abril de 2025. Em Mirandiba, Pernambuco, um contrato de outubro de 2024 previa R$ 250 mil pela apresentação. Em Marabá, no Pará, o cachê chegou a R$ 850 mil em 2026.

A evolução mostra que o salto não aconteceu de uma vez. O preço foi subindo junto com a exposição nacional do cantor, até alcançar contratos próximos à casa de R$ 1 milhão.

R$ 158 milhões não são “dinheiro entregue diretamente ao cantor”

Há uma precisão importante para compreender esses números.

Quando um levantamento afirma que determinado artista recebeu R$ 158 milhões em contratos públicos, isso não significa necessariamente que o mesmo valor foi incorporado pessoalmente ao patrimônio do cantor.

Os contratos costumam ser celebrados com empresas responsáveis pelas apresentações e podem incluir custos de produção, equipe, músicos, logística, transporte, tributos, comissão empresarial e outras despesas.

O valor contratual, portanto, representa o custo público das apresentações incluídas no levantamento, e não uma afirmação sobre o lucro líquido ou a renda pessoal de Natanzinho.

Essa distinção é necessária para que um dado impressionante não seja transformado em uma conclusão incorreta.

Também não há, no relatório citado, uma acusação de que as 336 contratações de Natanzinho sejam ilegais.

A discussão levantada pelos números é sobre prioridade, transparência, formação dos preços e concentração de recursos públicos em grandes atrações musicais.

A comparação com a Lei Rouanet exige cuidado

Outro número ajuda a dimensionar a cifra, desde que a comparação seja feita corretamente.

O Museu de Arte de São Paulo, o Masp, foi a instituição que mais captou recursos pela Lei Rouanet em 2025, com aproximadamente R$ 49,2 milhões, provenientes de 114 empresas patrocinadoras.

Os R$ 158,06 milhões ligados aos contratos públicos de Natanzinho são mais de três vezes esse montante.

Mas os dois mecanismos são profundamente diferentes e não podem ser apresentados como se fossem a mesma forma de gasto público.

Nos shows contratados por prefeituras e estados, a administração pública celebra um contrato e paga diretamente pela apresentação, utilizando recursos orçamentários de acordo com as regras aplicáveis.

Na Lei Rouanet, o governo federal autoriza previamente um projeto cultural a captar recursos. Empresas e pessoas físicas escolhem quais projetos apoiar e podem destinar parte do Imposto de Renda devido dentro dos limites estabelecidos pela legislação. Em 2025, todos os projetos apoiados pela Rouanet captaram juntos R$ 3,41 bilhões, segundo o Ministério da Cultura.

Há ainda uma diferença temporal: os R$ 158 milhões atribuídos ao circuito público de Natanzinho abrangem janeiro de 2024 a março de 2026, enquanto o valor do Masp se refere apenas à captação realizada em 2025.

A comparação, portanto, serve para demonstrar escala, não equivalência orçamentária.

E justamente por serem mecanismos diferentes, ela ajuda a revelar como o debate sobre financiamento cultural no Brasil costuma ser incompleto.

Enquanto a Lei Rouanet ocupa há décadas o centro das discussões políticas sobre dinheiro destinado à cultura, milhares de contratos diretos de shows são realizados todos os anos por estados e municípios, frequentemente com valores individuais de centenas de milhares ou até milhões de reais.

Contratar artistas sem licitação pode ser legal

A expressão “sem licitação” costuma gerar automaticamente suspeita, mas também precisa ser compreendida corretamente.

A Lei nº 14.133/2021, que disciplina licitações e contratos administrativos, permite a contratação direta, por inexigibilidade, de profissional do setor artístico consagrado pela crítica especializada ou pela opinião pública, diretamente ou por meio de empresário exclusivo.

A lógica é simples: não existe competição convencional para contratar um artista específico. Uma prefeitura que pretende contratar Natanzinho Lima não pode realizar um leilão para descobrir qual empresa oferece “outro Natanzinho” por preço menor.

Isso não significa liberdade para pagar qualquer valor.

A administração precisa justificar a escolha e demonstrar a compatibilidade do preço, além de cumprir as obrigações de transparência e formalização do processo.

É nesse ponto que o controle público ganha relevância.

A pergunta jurídica não é simplesmente se houve licitação. É se a inexigibilidade estava devidamente fundamentada, se o contratado possuía a representação necessária, se o preço foi justificado e se o procedimento respeitou as regras legais.

Cultura também é política pública

Seria igualmente simplista concluir que dinheiro público destinado a festas representa necessariamente desperdício.

Cultura, lazer e turismo fazem parte das atribuições do poder público e podem produzir retorno econômico expressivo.

Grandes eventos municipais movimentam hospedagem, alimentação, transporte, segurança privada, comércio e trabalhadores temporários. Muitas festas possuem importância histórica e cultural para suas regiões e conseguem atrair visitantes em volumes muito superiores à população residente.

O problema começa quando o debate é reduzido a duas caricaturas.

De um lado, a ideia de que qualquer show público é desperdício.

Do outro, a tese de que qualquer cachê pode ser justificado sob o argumento genérico de que uma festa “movimenta a economia”.

Entre as duas posições existe aquilo que deveria orientar toda despesa pública: evidência.

Quantas pessoas o evento recebeu?

Quantos turistas vieram de fora?

Quanto o comércio movimentou?

Qual foi o impacto sobre hotéis e restaurantes?

Quanto o município gastou no total, incluindo palco, estrutura, segurança e logística?

Quanto retornou em tributos?

A cidade possui capacidade financeira para repetir a despesa?

Esses números permitem sair da discussão ideológica e avaliar políticas públicas com critérios concretos.

O fenômeno Natanzinho revela um mercado muito maior

O dado dos R$ 158 milhões é irresistível porque concentra a discussão em um personagem conhecido.

Mas talvez a revelação mais importante esteja exatamente no contrário.

Natanzinho Lima não é uma exceção isolada.

Ele é o líder de um mercado que movimenta bilhões de reais em contratações públicas, distribuídas por milhares de municípios e centenas de artistas.

O relatório identificou Henry Freitas logo atrás, com aproximadamente R$ 125,9 milhões, e Wesley Safadão na sequência, com mais de R$ 113 milhões em contratos no período.

Somente os 40 artistas no topo da lista alcançaram R$ 3,08 bilhões.

Quando o universo é ampliado para cem artistas, o levantamento supera a casa dos R$ 5 bilhões.

Isso modifica completamente a perspectiva.

O debate deixa de ser apenas “quanto custa Natanzinho?” e passa a ser como o Brasil está financiando sua gigantesca indústria de festas públicas.

Quem decide as atrações?

Como os cachês são formados?

Por que o mesmo artista custa valores diferentes em municípios distintos?

Qual parcela vem de recursos próprios e qual vem de emendas ou transferências?

Que empresas concentram os contratos?

Qual é o retorno econômico?

E, principalmente, quem acompanha esses números depois que o palco é desmontado?

São perguntas legítimas, independentemente de quem esteja cantando.

O problema não está no sucesso do artista

Natanzinho Lima alcançou enorme popularidade em pouco tempo. Se existe público interessado em suas apresentações, é natural que seu valor de mercado aumente.

Artistas não são obrigados a cobrar menos porque o contratante é uma prefeitura.

Da mesma forma, não cabe imputar ao cantor responsabilidade pela decisão política de determinada administração municipal de contratá-lo.

Quem administra dinheiro público é o agente público.

É da prefeitura ou do governo estadual a obrigação de demonstrar que a contratação atende ao interesse público, possui preço justificável e cabe dentro da realidade orçamentária.

O sucesso de Natanzinho não é o problema.

A questão colocada pelos R$ 158 milhões é outra: como um país com mais de 5.500 municípios passou a sustentar um circuito de entretenimento no qual algumas carreiras artísticas conseguem acumular centenas de milhões de reais em contratos públicos em pouco mais de dois anos?

Mucajaí, com aproximadamente 20 mil habitantes, destinou R$ 1 milhão a uma apresentação.

Matupá, com menos de 22 mil, contratou o artista por R$ 950 mil.

Em janeiro de 2024, o cachê apontado pelo levantamento estava na casa dos R$ 25 mil.

Nenhum desses números, isoladamente, prova desperdício, ilegalidade ou superfaturamento.

Juntos, porém, eles contam uma história que merece ser conhecida.

É a história de um jovem cantor que saiu de Sergipe e se transformou em um dos fenômenos comerciais da música brasileira.

Mas é também a história de um mercado construído, em parcela expressiva, com dinheiro dos cofres públicos.

E quando a conta é pública, sucesso artístico não encerra a discussão.

É justamente onde a transparência precisa começar.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Prefeituras do Paraná gastaram quase R$ 1,2 bilhão com shows; TCE aponta casos que podem virar fiscalização


Levantamento reúne 10,9 mil empenhos feitos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026. Fernando & Sorocaba lideram entre artistas identificados, enquanto São José dos Pinhais aparece no topo entre os municípios que mais desembolsaram

O volume impressiona antes mesmo de qualquer comparação.

Entre 2021 e o fim do primeiro semestre de 2026, as prefeituras do Paraná registraram aproximadamente R$ 1,2 bilhão em gastos com shows artísticos, segundo um novo levantamento divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TCE-PR).

Os dados mostram como a contratação de atrações para festas, exposições, aniversários municipais e outros eventos se transformou em uma despesa relevante nos orçamentos locais. No período analisado, foram contabilizados 10.900 empenhos de pelo menos R$ 20 mil, envolvendo despesas classificadas como “Festividades e Homenagens” e “Contratação Artística e Cultural”.

O universo é amplo: 1.158 artistas, duplas, bandas ou grupos aparecem nas informações encaminhadas pelas próprias administrações municipais ao Tribunal.

Dos 399 municípios paranaenses, apenas seis não apresentaram registros desse tipo de despesa dentro dos critérios utilizados pelo painel: Campo do Tenente, Guaporema, Nova Cantu, Paulo Frontim, Pinhal de São Bento e Piraquara. Ou seja, 98,5% das prefeituras do estado tiveram algum gasto enquadrado nessas categorias durante o período analisado.

O levantamento ganhou uma dimensão ainda mais sensível porque o TCE encontrou situações em que a origem contábil do dinheiro pode indicar o uso de verbas vinculadas a outras finalidades.

Entre elas aparecem recursos associados à saúde, educação básica, Fundo do Idoso, Corpo de Bombeiros e iluminação pública.

O Tribunal ressalva que a presença de um dado no painel não representa automaticamente uma irregularidade. Mas informou que pretende instaurar procedimentos específicos nos casos em que a análise confirmar utilização indevida de recursos públicos.

Quase R$ 600 milhões aparecem sem artista identificado

Outro dado chama atenção.

Levantamentos realizados a partir do painel do TCE indicam que aproximadamente R$ 596 milhões — quase metade do total — aparecem sem identificação do artista nos dados analisados.

Isso não significa necessariamente que os pagamentos tenham sido feitos sem documentação ou que sejam irregulares. O painel é construído a partir das informações enviadas pelos próprios municípios, e diferenças de preenchimento, classificação e identificação podem interferir na forma como os dados são agrupados.

O próprio Tribunal ressalta que a responsabilidade pela exatidão das informações pertence aos representantes legais e técnicos das entidades que as encaminharam aos sistemas de controle.

Ainda assim, o volume sem identificação nominal ajuda a explicar por que o TCE decidiu criar uma ferramenta específica para permitir que cidadãos, jornalistas, vereadores, pesquisadores e órgãos de fiscalização cruzem dados sobre eventos municipais.

É justamente entre os gastos que puderam ser associados aos artistas que surge um ranking bastante conhecido do público sertanejo.

A dupla Fernando & Sorocaba lidera o levantamento detalhado divulgado a partir do painel, com aproximadamente R$ 18,142 milhões recebidos em 66 apresentações contratadas por municípios paranaenses.

Na sequência aparecem Guilherme & Benuto, com cerca de R$ 13,234 milhões em 65 shows; Ana Castela, com R$ 12,625 milhões em 31 apresentações; Luan Pereira, com R$ 11,746 milhões em 60 contratos; e Maiara & Maraisa, com aproximadamente R$ 11,682 milhões em 27 shows.

Os números ajudam a revelar uma característica dos grandes eventos municipais no interior do país: o sertanejo domina boa parte das contratações de maior valor.

Nomes como Leonardo, Clayton & Romário, Rio Negro & Solimões, Bruno & Marrone, João Bosco & Vinícius, César Menotti & Fabiano e Zezé Di Camargo & Luciano também aparecem entre os artistas que acumulam milhões de reais em apresentações pagas por administrações municipais.

O TCE calculou que o valor médio das contratações registradas no período foi de R$ 112,3 mil. Naturalmente, essa média reúne desde atrações regionais até artistas nacionais cujos cachês individuais podem atingir valores muito superiores.

São José dos Pinhais lidera gastos entre as prefeituras

Do outro lado da conta estão os municípios.

São José dos Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, liderou o ranking de despesas, com aproximadamente R$ 41,744 milhões distribuídos em 65 empenhos entre 2021 e o primeiro semestre de 2026.

Paranaguá aparece em segundo lugar, com aproximadamente R$ 29,64 milhões, seguida por Castro, com R$ 25,807 milhões; Ponta Grossa, com R$ 25,776 milhões; e Fazenda Rio Grande, com R$ 21,354 milhões.

Os dados também mostram uma forte aceleração dos gastos após o período mais crítico da pandemia.

Em 2021, quando ainda existiam fortes restrições e impactos provocados pela Covid-19, foram registrados R$ 25,1 milhões em despesas desse tipo.

Em 2024, o valor já havia chegado a R$ 292,2 milhões.

O recorde ocorreu em 2025, com R$ 403,5 milhões gastos em shows pelas administrações municipais.

Somente no primeiro semestre de 2026, os registros já somavam R$ 144,7 milhões.

A evolução demonstra que eventos públicos voltaram com força aos calendários municipais após a pandemia, acompanhados por um mercado artístico em que cachês de atrações nacionais frequentemente chegam a centenas de milhares de reais por noite.

O painel revela ainda que aproximadamente R$ 4,3 milhões vieram de transferências por emendas parlamentares destinadas a custear shows, o equivalente a cerca de 0,35% de todo o montante contabilizado.

Festa pública não é irregular; origem e destino do dinheiro fazem diferença

O levantamento do Tribunal não parte da premissa de que gastar dinheiro público com cultura, lazer ou entretenimento seja irregular.

A própria Corte destaca que cultura e lazer são direitos assegurados constitucionalmente e afirma que o painel tem caráter informativo, destinado a ampliar a transparência e incentivar a boa administração dos recursos públicos.

Uma festa municipal também pode gerar efeitos econômicos concretos.

Shows de grande porte atraem visitantes, aumentam o movimento em hotéis, bares e restaurantes, movimentam serviços de transporte, comércio ambulante e estruturas temporárias, além de produzirem exposição turística para cidades que normalmente teriam pouca projeção nacional.

O problema jurídico e administrativo surge quando a origem do dinheiro possui uma finalidade determinada.

Recursos vinculados à saúde ou à educação, por exemplo, não podem simplesmente ser deslocados para outras despesas porque uma prefeitura decidiu realizar um evento.

Foi justamente o cruzamento das fontes contábeis dos recursos que levou os técnicos do TCE a identificar situações que merecem análise mais profunda.

O Tribunal afirma que verificará os casos individualmente e instaurará procedimentos quando houver comprovação de uso irregular. Até que isso ocorra, é importante distinguir indício de irregularidade de irregularidade efetivamente comprovada.

Essa diferença também vale para os artistas.

A presença de Fernando & Sorocaba, Ana Castela, Guilherme & Benuto ou qualquer outro nome no ranking significa que apresentações foram contratadas por municípios e tiveram valores registrados no sistema. O levantamento, por si só, não atribui aos artistas qualquer responsabilidade por eventual problema na fonte utilizada pelas prefeituras para realizar os pagamentos.

A responsabilidade pela execução do orçamento, classificação das despesas e respeito às vinculações legais é da administração pública responsável pela contratação.

Um novo nível de transparência sobre os cachês

Talvez o aspecto mais relevante do levantamento esteja menos no ranking dos artistas e mais na possibilidade de acompanhar como esse dinheiro é gasto.

O Painel de Gastos com Eventos Municipais, incorporado ao Portal Informação para Todos do TCE-PR, permite pesquisar despesas por prefeitura, período, artista, valor e fonte do recurso. Também possibilita comparar o dinheiro destinado a shows com receitas municipais e investimentos em áreas como saúde e educação.

A ferramenta utiliza ainda processos automatizados de classificação de dados, com apoio de inteligência artificial, para organizar as informações encaminhadas pelos municípios.

E essa transparência pode produzir uma discussão mais qualificada do que simplesmente perguntar se uma prefeitura “deveria ou não” contratar determinado cantor.

Uma cidade pode decidir que uma grande festa é importante para sua economia, turismo ou identidade cultural. Outra pode considerar mais adequado priorizar outros investimentos.

O ponto central é que, quando a conta é paga com dinheiro público, a sociedade tem o direito de saber quanto foi gasto, quem recebeu, de onde saiu o recurso e se a legislação foi respeitada.

No Paraná, essa conta chegou a quase R$ 1,2 bilhão em seis anos e meio.

Agora, com milhares de contratos reunidos em uma única base e possíveis inconsistências sob análise, o próximo capítulo deixa os palcos e entra definitivamente na fiscalização das contas públicas.