Projeto enviou 135 lentes intraoculares para fora da Estação Espacial Internacional e analisou os efeitos da radiação e do oxigênio atômico
Antes que uma cirurgia de catarata possa ser realizada em Marte, será necessário descobrir se os materiais médicos conseguem sobreviver a uma viagem espacial de longa duração.
Foi com esse objetivo que pesquisadores dos Estados Unidos enviaram 135 lentes intraoculares artificiais para o lado externo da Estação Espacial Internacional. As lentes permaneceram aproximadamente seis meses expostas ao ambiente espacial antes de retornar à Terra para análise. Euronews
O que foi testado
As lentes foram colocadas em diferentes pontos da estação, onde ficaram sujeitas a condições como radiação ultravioleta, variações extremas de temperatura e exposição ao oxigênio atômico.
O projeto, chamado JAMES, também manteve 45 lentes semelhantes na Terra para comparação. Na primeira análise, os pesquisadores examinaram 61 lentes que estiveram no espaço e 20 que permaneceram no planeta.
A maioria das lentes expostas — 42 de 61 — não apresentou alterações relevantes. No entanto, algumas unidades desenvolveram fissuras, rugosidade na superfície, manchas amareladas ou mudanças ainda não explicadas na aparência.
Os resultados ajudam os cientistas a identificar quais materiais podem exigir mais proteção durante o transporte para futuras missões espaciais. European Society of Cataract and Refractive Surgeons
Cirurgia em Marte ainda está distante
A pesquisa não realizou cirurgia no espaço e tampouco testou o funcionamento de uma lente dentro do olho de um astronauta. O objetivo foi analisar como os implantes se comportam quando ficam diretamente expostos a condições severas.
Em uma missão para Marte, os materiais seriam transportados dentro de uma nave, protegidos por embalagens e sistemas de armazenamento. Por isso, o próximo desafio será definir qual nível de proteção será necessário sem aumentar excessivamente o peso e o volume da carga.
Os pesquisadores também planejam testar os equipamentos usados em cirurgias de catarata durante períodos de microgravidade em voos parabólicos. A ideia é avançar gradualmente: primeiro os materiais, depois os equipamentos, os procedimentos e, somente no futuro, uma eventual cirurgia em órbita.
Por que a catarata preocupa missões longas
A catarata ocorre quando o cristalino natural do olho fica opaco. Durante a cirurgia, esse tecido é removido e substituído por uma lente intraocular transparente.
Em viagens espaciais que podem durar meses ou até quase um ano, um problema ocular grave poderia exigir atendimento longe da Terra. O retorno imediato não seria simples, especialmente em uma missão para Marte.
Ainda assim, os próprios pesquisadores tratam a possibilidade de cirurgia fora da Terra como um cenário futuro. O estudo é uma etapa inicial para entender como os materiais médicos podem ser transportados e armazenados em missões de longa duração.
Por enquanto, a descoberta não significa que uma cirurgia de catarata esteja prestes a acontecer em Marte. Significa que a medicina espacial já começou a testar os materiais necessários para que esse procedimento seja possível algum dia.

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