28ª edição reúne multidões em São Paulo, tem dias com entradas esgotadas e filas para autores e estandes; movimento coincide com crescimento das vendas de livros em 2026, mas especialistas e pesquisas mostram que lotação de um evento não basta para afirmar que o brasileiro voltou a ler mais
A imagem chama atenção: corredores cheios, filas extensas, fãs esperando horas por escritores e ingressos esgotados para vários dias da 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. Em um país frequentemente associado aos baixos índices de leitura, o movimento registrado no Distrito Anhembi provoca uma pergunta inevitável: afinal, o brasileiro está voltando a ler?
A Bienal começou na sexta-feira, 4 de setembro, e segue até o dia 13. A organização preparou a maior edição da história do evento, com 269 expositores, cerca de 350 autores nacionais e internacionais, 11 espaços culturais e expectativa de receber mais de 700 mil visitantes.
A procura confirmou que o interesse era alto antes mesmo da abertura. Os ingressos para 5, 6, 7 e 12 de setembro chegaram a se esgotar antecipadamente. Para as demais datas, a organização manteve vendas conforme a disponibilidade.
O primeiro fim de semana reforçou a dimensão do fenômeno.
Mesmo sob chuva intensa, milhares de pessoas foram ao Anhembi. A participação da escritora americana Lynn Painter, fenômeno entre leitores jovens de romances, provocou uma concentração tão grande que a organização precisou limitar o acesso à área da palestra. Houve ainda dificuldades de circulação em alguns pontos, acúmulo de lixo e longas filas no transporte gratuito que liga o evento à estação Portuguesa-Tietê do metrô.
No dia anterior, autores brasileiros como Conceição Evaristo e Raphael Montes já haviam levado grandes públicos aos espaços da Bienal. A participação de Montes, acompanhado da atriz Paolla Oliveira numa conversa sobre a adaptação de seu novo livro, também provocou forte concentração de fãs.
Filas para entrar — e filas para comprar livros
Os problemas de organização relatados por visitantes são, paradoxalmente, consequência de algo que o mercado editorial gostaria de enfrentar com frequência: gente demais interessada em livros.
O Distrito Anhembi possui estrutura ampla, e a edição de 2026 ocupa aproximadamente 86 mil metros quadrados, mas determinados autores, editoras e lançamentos criaram pontos de concentração capazes de dificultar a circulação mesmo em corredores ampliados em relação à edição anterior.
Além das filas para palestras e sessões de autógrafos, estandes de editoras muito procuradas também registraram espera para entrada, pagamento e retirada de livros.
A organização disponibiliza transporte gratuito a partir da estação Portuguesa-Tietê, localizada a aproximadamente 1,5 quilômetro do local. O problema é que, nos horários de maior movimento e especialmente durante a chuva, o número de pessoas aguardando o serviço aumentou significativamente.
Isso coloca a Bienal diante de um desafio conhecido em grandes festivais: crescer sem deixar que o próprio sucesso prejudique a experiência de quem comprou ingresso.
Mas a Bienal lotada significa que o brasileiro está lendo mais?
Ainda é cedo para fazer essa afirmação.
O dado nacional mais abrangente disponível sobre hábitos de leitura aponta justamente para a direção contrária.
A Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou em sua edição de 2024 que 53% dos brasileiros não haviam lido nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Foi a primeira vez na série histórica em que os não leitores superaram os leitores.
O país perdeu 6,7 milhões de leitores entre 2019 e 2024. Apenas 47% da população se enquadrava no conceito de leitor utilizado pela pesquisa.
Portanto, uma Bienal cheia não permite concluir que esse quadro já tenha sido revertido.
Mas existem sinais mais recentes que tornam a discussão interessante.
Venda de livros cresce em 2026
O mercado editorial brasileiro atravessa um período positivo.
Dados do Painel do Varejo de Livros no Brasil, realizado pela Nielsen e divulgado pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, mostram crescimento das vendas durante todos os sete primeiros períodos medidos em 2026.
No levantamento mais recente, divulgado em agosto, foram vendidos aproximadamente 4,8 milhões de exemplares em quatro semanas, alta de 2,3% em relação ao mesmo período de 2025. O faturamento chegou a R$ 245,1 milhões, crescimento de 9,3%.
No início do ano, as altas chegaram a dois dígitos. Em um dos períodos analisados, houve crescimento de 14,9% no número de livros vendidos em comparação com 2025.
Isso não prova sozinho que mais brasileiros estejam incorporando a leitura à rotina, porque uma mesma pessoa pode comprar vários livros. Mas indica um mercado consumidor mais aquecido.
E há outro movimento acontecendo longe das livrarias tradicionais.
O jovem que lê talvez não esteja sendo encontrado pelas pesquisas antigas
Uma pesquisa da Nielsen divulgada às vésperas da Bienal apontou que 49% dos brasileiros afirmam ter algum hábito de leitura digital, considerando formatos como livros eletrônicos, mangás, fanfics e textos informativos.
O levantamento mostra forte presença dos jovens: pessoas entre 10 e 24 anos representam 47% dos leitores digitais identificados na pesquisa.
Esse público também é claramente visível na Bienal.
Boa parte das maiores aglomerações desta edição está ligada a autores que construíram enorme audiência através de comunidades online, especialmente no TikTok, Instagram e plataformas de leitura.
O chamado BookTok, comunidade dedicada aos livros dentro do TikTok, modificou a forma como determinados títulos chegam às listas de mais vendidos. Romances, fantasias, dark romance e literatura juvenil conseguem permanecer meses em circulação graças à recomendação de leitores comuns e criadores de conteúdo.
Autores como Alice Oseman, Lynn Painter, Ana Huang, Elena Armas e SenLinYu atraem um público que se comporta diante dos escritores de maneira semelhante à encontrada em shows de música: filas, gritos, cartazes, vídeos e horas de espera.
É uma transformação importante.
O livro não deixou de disputar atenção com vídeos curtos, games e streaming. Mas parte da própria cultura das redes sociais passou a funcionar como porta de entrada para a literatura.
Livro virou também experiência
A explicação para a lotação da Bienal passa ainda por outra mudança.
Grandes feiras literárias deixaram de funcionar apenas como locais para comprar livros.
A edição de São Paulo oferece 3.450 horas de programação, encontros com escritores, sessões de autógrafos, debates, experiências de marcas, espaços temáticos, quadrinhos e atividades que misturam literatura e entretenimento.
A Espanha é o país convidado de honra desta edição, e a programação reúne de escritores consagrados a fenômenos recentes das redes sociais.
Nesse modelo, o visitante pode ir à Bienal porque lê muito, porque acompanha determinado autor, porque quer conhecer uma celebridade ou simplesmente porque o evento se tornou um programa cultural.
Por isso, a quantidade de visitantes não pode ser utilizada como uma medida direta do hábito nacional de leitura.
Mas também seria um erro ignorar o que está acontecendo no Anhembi.
Um país em que milhões de pessoas perderam o hábito de ler está, simultaneamente, produzindo filas enormes para encontrar escritores.
Essa contradição merece atenção.
Sucesso também cobra melhor organização
O entusiasmo do público não elimina as críticas.
Relatos do primeiro fim de semana apontam dificuldades para circular em determinados setores, espera prolongada para atrações populares, filas no transporte e problemas pontuais de limpeza.
São questões especialmente relevantes porque alguns dos dias mais procurados ainda estão por vir.
A Bienal prossegue até 13 de setembro, e o próximo sábado (12) também já teve ingressos esgotados antecipadamente.
Quem pretende visitar o evento ainda deve verificar a disponibilidade de ingressos pelos canais oficiais antes de se deslocar. A programação de dias úteis começa às 9h e vai até 22h; nos fins de semana, o evento abre às 10h.
Um bom problema para o mercado editorial
Filas, superlotação e dificuldades de organização precisam ser corrigidas. Mas existe uma informação impossível de ignorar por trás delas:
centenas de milhares de pessoas querem estar em um evento cujo principal produto continua sendo o livro.
Isso não significa que o Brasil tenha se transformado repentinamente em uma nação de leitores.
A última grande pesquisa nacional mostra exatamente o tamanho do desafio ainda existente.
Por outro lado, vendas crescentes em 2026, expansão da leitura digital, fenômenos literários impulsionados pelas redes sociais e uma Bienal com dias esgotados mostram que há um público extremamente mobilizado em torno da leitura — especialmente entre os jovens.
Talvez a pergunta não seja apenas se o brasileiro está lendo mais.
Talvez seja necessário descobrir onde, como e o que essa nova geração está lendo.
Se a cena vista neste fim de semana no Anhembi conseguir ultrapassar os dez dias de festival e se transformar em leitura cotidiana, aí sim o país poderá começar a falar não apenas de uma Bienal lotada, mas de uma mudança real em seus hábitos.
