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quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Palmeiras ironiza Neymar após crítica ao gramado da Vila e reacende guerra entre sintético e natural


Atacante do Santos reclamou das condições do campo depois de sentir a coxa direita; Palmeiras respondeu exaltando o gramado do Nubank Parque, enquanto episódio devolve ao centro do futebol brasileiro a discussão sobre a qualidade dos pisos

A discussão sobre gramados ganhou um novo capítulo nesta quinta-feira (3), desta vez com Neymar e Palmeiras trocando provocações depois da eliminação do Santos na Copa do Brasil. O atacante criticou duramente as condições da Vila Belmiro após sentir um problema na coxa direita, e o clube alviverde respondeu horas depois exaltando justamente o gramado sintético de sua casa, o Nubank Parque.

Neymar deixou o empate por 0 a 0 com o Palmeiras no intervalo da partida de volta das quartas de final. O resultado confirmou a classificação palmeirense, que havia vencido o primeiro confronto por 3 a 0. Durante o aquecimento, o camisa 10 já demonstrava incômodo com as condições do campo da Vila e, depois da partida, classificou aquele como “o pior gramado que a Vila já teve”.

Segundo Neymar, o piso estava cheio de buracos após um procedimento de descompactação realizado na véspera. O jogador afirmou que a irregularidade aumentava o esforço necessário para arrancadas e freadas e associou o estado do campo aos problemas físicos sentidos por ele, Lucas Veríssimo e Barreal durante o primeiro tempo.

Não há, porém, diagnóstico médico divulgado que permita afirmar que o gramado provocou o problema muscular de Neymar. O atacante sentiu a coxa direita e deverá passar por exames para determinar a natureza e a gravidade da ocorrência. Transformar a coincidência em relação de causa e efeito, antes dessa avaliação, seria precipitado.

Palmeiras responde copiando o tom de Neymar

A reação do Palmeiras veio pelas redes sociais e não deixou muitas dúvidas sobre o destinatário.

O clube publicou uma mensagem elogiando as condições do gramado sintético do Nubank Parque, utilizando uma estrutura semelhante à empregada por Neymar em sua reclamação. Entre as frases, escreveu que o campo está sempre regular e concluiu: “A solução para um gramado ruim é fazer um gramado bom”. A presidente Leila Pereira também compartilhou a publicação.

A ironia ganha força porque Neymar é um dos principais críticos dos campos artificiais no futebol brasileiro. Em 2025, esteve entre os jogadores que participaram do movimento “Futebol é natural, não sintético”, defendendo melhores gramados naturais e questionando a utilização de pisos artificiais. Na ocasião, o Palmeiras reagiu afirmando que seu campo possui certificação da Fifa e contestando a ideia de que o sintético provoque necessariamente mais lesões.

Há também uma coincidência que alimentou ainda mais a provocação. Neymar não participou do jogo de ida das quartas de final, disputado justamente no gramado sintético do Nubank Parque.

O próprio atacante, entretanto, negou que tenha recusado a partida por causa do piso. Neymar afirmou que estava à disposição e que a decisão de preservá-lo foi tomada pela comissão técnica em razão da sequência de jogos. O diretor Alexandre Mattos deu versão semelhante, citando controle de carga e planejamento físico.

Uma semana depois, Neymar retornou no gramado natural da Vila Belmiro e terminou a primeira etapa com dores na coxa.

A sequência criou uma ironia pronta para as redes sociais, mas não resolve o debate técnico.

Sintético x natural: episódio mostra que discussão é mais complexa

O caso expõe justamente um dos problemas da discussão sobre gramados no Brasil: comparar apenas a origem do piso — natural ou sintético — pode esconder uma questão mais elementar, que é a qualidade da superfície entregue aos jogadores.

Um gramado natural mal conservado pode apresentar buracos, irregularidade e instabilidade. Um sintético também possui características próprias de absorção de impacto, temperatura e resposta durante mudanças bruscas de direção. A segurança de cada piso depende de fatores como tecnologia, manutenção, utilização e qualidade.

O Palmeiras costuma utilizar seus números de departamento médico como argumento em defesa do sintético. Um levantamento do ge realizado com dados desde 2016 apontou média de 30,5 lesões por temporada antes da instalação do piso artificial e 27,83 depois, entre 2020 e 2025. O próprio levantamento, porém, registrou que 2020 — primeiro ano do sintético — teve 42 lesões, o maior número da série, numa temporada também marcada pelo calendário excepcional provocado pela pandemia.

Ou seja: os números não sustentam uma conclusão simplista de que todo gramado sintético provoca mais lesões — tampouco permitem afirmar que um campo natural seja automaticamente mais seguro.

Foi justamente essa contradição que o Palmeiras explorou na provocação.

Neymar criticou durante meses os campos artificiais. Na Vila Belmiro, jogou sobre grama natural, reclamou da condição do piso e terminou a partida com um problema físico. O clube paulista aproveitou o episódio para defender sua própria estrutura e devolver publicamente as críticas.

Para o Santos, contudo, a discussão ultrapassa a rivalidade. O clube foi eliminado da Copa do Brasil e pode perder seu principal jogador em um momento decisivo do Campeonato Brasileiro. Cuca já admitiu que provavelmente terá de preparar a equipe sem Neymar para o confronto com o Internacional.

A provocação do Palmeiras provavelmente terá vida longa nas redes sociais. Mas o episódio deixa uma conclusão menos divertida para o futebol brasileiro: mais importante do que escolher entre natural e sintético é garantir que qualquer gramado colocado diante dos jogadores esteja em condições adequadas para uma partida profissional.