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domingo, 6 de setembro de 2026

VIRADA HISTÓRICA NA ALEMANHA: ultradireita vence eleição com mais de 44% e impõe derrota devastadora à CDU


AfD mais que dobra votação na Saxônia-Anhalt, alcança seu melhor resultado estadual e deixa partido do chanceler Friedrich Merz em torno de 18%; vitória, porém, não garante que a legenda consiga formar o governo

A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou neste domingo (6) uma vitória histórica nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, no leste alemão. As projeções da emissora pública ARD colocam a legenda de ultradireita acima dos 44% dos votos, mais que o dobro dos 20,8% registrados em 2021 e o melhor desempenho da história do partido em uma eleição estadual.

A dimensão da virada fica ainda mais evidente quando comparada ao resultado da CDU, partido do chanceler federal Friedrich Merz. A sigla, que havia vencido a eleição estadual de 2021 com 37,1%, despencou para aproximadamente 18%, seu pior resultado histórico no estado.

A derrota foi reconhecida pelo atual ministro-presidente da Saxônia-Anhalt, Sven Schulze, da CDU, que admitiu o forte revés e afirmou que a política do governo federal também produziu “vento contrário” durante a campanha. Embora Merz não estivesse pessoalmente disputando a eleição, o resultado representa um golpe político para sua liderança e para a estratégia nacional dos democrata-cristãos.

A AfD venceu. Mas isso não significa, pelo menos por enquanto, que governará a Saxônia-Anhalt.

Vitória não garante o governo

A Alemanha adota um sistema parlamentarista também nos estados. Para controlar sozinho o governo regional, um partido precisa alcançar maioria das cadeiras do Parlamento.

Com pouco mais de 44%, a AfD aparece muito próxima desse objetivo, mas as projeções indicam que pode permanecer abaixo da maioria absoluta. O cálculo também depende de quais partidos ultrapassarão a cláusula de barreira de 5%, especialmente o BSW, que oscila exatamente ao redor desse limite nas projeções.

O problema para a AfD é político.

Os principais partidos tradicionais alemães mantêm o chamado “cordão sanitário”, política pela qual recusam formar coalizões com a legenda. A CDU reafirmou neste domingo que não pretende governar em conjunto com a AfD.

A copresidente nacional da AfD, Alice Weidel, afirmou que o resultado representa um “mandato claro” para formar o governo e declarou estar aberta a conversas, inclusive com a CDU. Já o principal candidato da legenda no estado, Ulrich Siegmund, classificou a votação como histórica e disse que o resultado envia uma mensagem diretamente para Berlim.

A situação pode transformar a formação do próximo governo estadual num quebra-cabeça. Quanto mais partidos pequenos ficarem fora do Parlamento, maior será proporcionalmente o número de cadeiras destinado à AfD — e maior a possibilidade de a legenda se aproximar de uma maioria própria.

AfD mais que dobra votação em cinco anos

O salto eleitoral foi extraordinário.

Em 2021, a AfD havia recebido 20,8% dos votos na Saxônia-Anhalt. Agora aparece acima dos 44%. A CDU percorreu o caminho inverso: saiu de 37,1% para cerca de 18%.

As projeções mais recentes da ARD apontavam ainda A Esquerda e SPD próximos de 9%, os Verdes ao redor de 8,6%, o BSW perto dos 5% e o FDP em aproximadamente 2,3%, ficando fora do Parlamento.

Outro dado importante foi a participação eleitoral. A estimativa estava em torno de 76%, muito acima dos 60,3% registrados em 2021. O resultado, portanto, não pode ser explicado simplesmente por uma mobilização reduzida dos demais eleitores: houve forte crescimento da participação e, ainda assim, a AfD ampliou dramaticamente sua votação.

Análises da ARD mostram ainda que a legenda conseguiu liderança em diferentes faixas etárias e entre homens e mulheres, deixando de depender exclusivamente de um segmento específico do eleitorado.

Resultado expõe insatisfação muito além da Saxônia-Anhalt

A eleição ocorreu num ambiente de forte desgaste político na Alemanha.

Pesquisas anteriores ao pleito já apontavam elevada insatisfação com o governo federal, dificuldades econômicas, preocupação com aumento de preços, imigração e desconfiança em relação aos partidos tradicionais.

A AfD conseguiu transformar parte desse sentimento em voto.

O desempenho também confirma que o crescimento da legenda deixou de ser apenas um fenômeno circunstancial. Em fevereiro, nas eleições federais, a AfD já havia obtido 38,8% na Saxônia-Anhalt, tornando-se a força política mais votada no estado.

Agora supera esse percentual e consolida sua posição dominante na região.

O resultado também tem dimensão nacional porque a AfD vem avançando nas pesquisas em toda a Alemanha. Em maio deste ano, chegou a superar a própria União CDU/CSU numa pesquisa nacional do DeutschlandTrend, ao mesmo tempo em que a avaliação do governo Merz atingia níveis especialmente baixos.

Partido é classificado como extremista pelo serviço de inteligência regional

Existe ainda um elemento que torna o resultado particularmente sensível para a política alemã.

O braço da AfD na Saxônia-Anhalt é classificado desde 2023 pelo serviço estadual de proteção à Constituição como uma organização de extrema direita comprovada. Segundo o órgão, a atuação política da legenda no estado contém elementos que entram em conflito com princípios fundamentais da ordem democrática alemã, incluindo posições relacionadas à dignidade humana e ao conceito étnico de nacionalidade.

A AfD rejeita essa classificação e contesta a decisão judicialmente. O processo permanece em discussão.

É exatamente por isso que a eleição da Saxônia-Anhalt ganhou atenção internacional.

A Alemanha carrega uma relação histórica particularmente sensível com movimentos de extrema direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma legenda classificada dessa forma pelas autoridades regionais acaba de receber o voto de mais de quatro em cada dez eleitores de um estado alemão.

CDU sofre uma derrota que chega a Berlim

Para Friedrich Merz, o resultado apresenta um problema que ultrapassa as fronteiras da Saxônia-Anhalt.

O chanceler chegou ao governo prometendo recuperar eleitores que haviam migrado para a AfD e fortalecer novamente o campo conservador tradicional. O resultado deste domingo mostra justamente o contrário em um dos estados onde essa disputa é mais intensa.

A CDU perdeu aproximadamente metade de sua votação.

A AfD mais que dobrou a sua.

E o candidato estadual da legenda vencedora já transformou o resultado em mensagem política nacional.

Isso não significa automaticamente que a AfD esteja a caminho de controlar o governo federal alemão. Eleições estaduais possuem dinâmicas próprias, e a Saxônia-Anhalt representa apenas uma das 16 unidades federativas do país.

Mas seria igualmente equivocado tratar o resultado como um episódio regional sem maiores consequências.

O que aconteceu neste domingo foi um realinhamento eleitoral de proporções históricas: pela primeira vez, a AfD venceu uma eleição na Saxônia-Anhalt, alcançou seu maior percentual numa disputa estadual e deixou a CDU muito distante.

A próxima batalha agora não será nas urnas.

Será dentro do Parlamento estadual.

A AfD precisa descobrir se seus mais de 44% dos votos serão suficientes para romper o isolamento político construído pelos demais partidos — ou se a Alemanha entrará numa situação inédita em que o vencedor de uma eleição com enorme vantagem poderá permanecer fora do governo por não encontrar parceiros para formar maioria.