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terça-feira, 8 de setembro de 2026

REFORMA NO STF: campanha de Lula avalia mandato para ministros, código de ética e ofensiva contra supersalários


Crise provocada pelo caso Banco Master acelera discussão sobre mudanças no Judiciário; presidente já defendeu publicamente limitar o tempo de permanência no Supremo, enquanto campanha estuda regras para conflitos de interesse, remunerações e relações entre magistrados e empresários

A crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal às vésperas da eleição presidencial começa a produzir um efeito que pode ultrapassar o caso Banco Master. A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a discutir uma reforma mais ampla do Judiciário, com medidas que atingiriam diretamente algumas das estruturas mais sensíveis do sistema de Justiça brasileiro.

Entre os pontos em debate estão mandato com prazo determinado para ministros do STF, código de ética para magistrados e membros do Ministério Público, combate aos supersalários, maior transparência patrimonial e regras mais rígidas para relações entre integrantes do Judiciário e empresários. A discussão foi confirmada por integrantes da campanha ouvidos pela imprensa e ocorre no momento em que o Supremo enfrenta um de seus maiores desgastes recentes.

É importante fazer uma distinção: ainda não existe uma proposta fechada, uma PEC apresentada pelo governo ou sequer definição sobre quantos anos teria eventual mandato no Supremo. Parte das ideias está sendo discutida pela campanha, enquanto algumas posições — especialmente a limitação do tempo de permanência dos ministros — já foram defendidas pessoalmente por Lula meses antes da atual crise.

A mudança de cenário político é significativa. Durante anos, críticas ao funcionamento do STF foram associadas principalmente à direita e ao bolsonarismo. Agora, o próprio campo governista começa a defender alterações estruturais na Corte — embora procure diferenciar reforma institucional de ataques ao Supremo.

Lula já dizia que ficar até os 75 anos é “tempo demais”
Banco Master mudou a temperatura do debate
Código de ética pode virar uma das principais bandeiras
Supersalários entram novamente na mira
Mandato para o STF exigiria uma mudança pesada no Congresso
Reforma pode reduzir ou aumentar o poder de um presidente sobre o Supremo
O risco de uma reforma feita sob medida para a crise
STF entra definitivamente na eleição de 2026
Uma reforma que pode ser maior que a eleição

A defesa de um mandato para ministros não surgiu apenas depois das revelações envolvendo o Banco Master.

Em fevereiro de 2026, Lula afirmou publicamente que considera excessivamente longo o modelo atual, pelo qual um ministro pode ingressar relativamente jovem no STF e permanecer até completar 75 anos.

“Não é justo uma pessoa entrar com 35 anos e ficar até 75 anos”, afirmou o presidente na ocasião, lembrando que a ideia de criar mandatos para integrantes do Supremo já aparecia no programa presidencial de Fernando Haddad em 2018. Lula ressaltou, contudo, que qualquer mudança dependeria do Congresso Nacional.

Atualmente, ministros do STF não possuem mandato com duração determinada. Depois de nomeados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado, permanecem no cargo até renunciarem, morrerem, sofrerem eventual processo de perda do cargo ou atingirem a aposentadoria compulsória aos 75 anos.

Isso permite permanências de várias décadas.

Cristiano Zanin, por exemplo, nasceu em novembro de 1975. Mantidas as regras atuais, poderá permanecer no Supremo até 2050. Alexandre de Moraes, nascido em dezembro de 1968, somente atingirá a aposentadoria compulsória em 2043.

Luiz Fux, por outro lado, completa 75 anos em 2028, enquanto Cármen Lúcia alcança a idade em 2029 e Gilmar Mendes, em 2030.

O assunto possui impacto político imediato porque o STF está atualmente com uma cadeira vaga desde a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em outubro de 2025. A indicação de Jorge Messias feita por Lula foi rejeitada pelo Senado, e o posto permanece desocupado.

Se a discussão sobre mandatos já existia, foi o caso Banco Master que deu outra dimensão ao tema.

A divulgação de mensagens envolvendo o ex-controlador do banco, Daniel Vorcaro, e integrantes de diferentes Poderes colocou sob escrutínio relações entre empresários, políticos, magistrados e pessoas próximas a autoridades.

No Supremo, o episódio produziu um confronto particularmente grave envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça. O presidente da Corte, Edson Fachin, abriu procedimento para receber esclarecimentos de Moraes, Mendonça, do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, sobre fatos relacionados às investigações.

A crise também reacendeu dentro do próprio STF a defesa de um código de ética para ministros. Fachin já vinha apoiando a elaboração de normas destinadas a estabelecer limites mais claros para conflitos de interesse, participação em eventos financiados por empresas, recebimento de benefícios e vínculos privados.

É exatamente nesse ambiente que a campanha de Lula pretende transformar o desgaste do Judiciário em uma agenda eleitoral própria.

O presidente passou a defender publicamente que autoridades sejam investigadas sem proteção institucional e afirmou que cargos públicos não podem servir a interesses pessoais. Seu grupo político adotou a expressão “ninguém está acima da lei” como resposta à crise.

Uma das propostas com maior capacidade de alcançar diferentes setores políticos é justamente a criação de um código de ética aplicável ao Judiciário e ao Ministério Público.

O presidente nacional do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva, já defendeu publicamente regras contra conflitos entre interesses públicos e privados, criticou privilégios e colocou o combate aos supersalários entre os temas que deveriam integrar uma reforma.

A discussão ganhou força porque as regras existentes são consideradas insuficientes por defensores da mudança para lidar com situações como participação de magistrados em eventos patrocinados, relações financeiras de familiares, atividades empresariais indiretas e contatos privados com pessoas que possuem interesses perante os tribunais.

O objetivo seria estabelecer previamente o que é permitido, o que precisa ser declarado publicamente e quais situações exigiriam impedimento ou suspeição.

O desafio será construir normas que aumentem a transparência sem permitir interferência política na independência dos juízes.

Esse equilíbrio é central.

Um código de ética fraco corre o risco de ser meramente simbólico. Um modelo criado para permitir que governos ou maiorias parlamentares pressionem magistrados poderia produzir efeito ainda mais perigoso.

Outro ponto com forte apelo eleitoral são os chamados supersalários.

Embora a Constituição estabeleça um teto para o funcionalismo, pagamentos classificados como indenizatórios e diferentes benefícios permitem que integrantes de algumas carreiras públicas recebam valores acima do limite em determinados meses.

O próprio STF enfrentou o tema em 2026 e estabeleceu limitações para parcelas indenizatórias, enquanto a discussão sobre os chamados “penduricalhos” continua aberta no Judiciário e no Congresso.

Para a campanha de Lula, transformar o fim dos supersalários em bandeira apresenta uma vantagem evidente: trata-se de um assunto de fácil compreensão num país em que grande parte dos trabalhadores recebe uma fração dos vencimentos pagos às carreiras mais altas do Estado.

Mas a execução é muito mais complexa do que o slogan.

Será necessário definir quais parcelas realmente possuem natureza indenizatória, quais deverão ser submetidas ao teto, como tratar benefícios acumulados e quais mudanças dependerão de lei ou de alteração constitucional.

No caso da criação de mandato para ministros, o obstáculo político seria ainda maior.

Modificar o atual modelo constitucional exigiria uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC). Para ser aprovada, a matéria precisa receber o apoio de três quintos dos deputados e dos senadores, em dois turnos de votação em cada Casa.

Isso significa pelo menos 308 votos na Câmara e 49 no Senado em cada votação.

Também seria necessário responder questões que até agora permanecem totalmente abertas.

Quanto duraria um mandato no STF?

O ministro poderia ser reconduzido?

A nova regra atingiria os integrantes atuais ou somente futuras nomeações?

Quem já está no Supremo teria direito adquirido ao modelo vigente?

Como impedir que mandatos curtos tornem a Corte ainda mais dependente das eleições presidenciais?

Nada disso está definido.

E essas respostas serão tão importantes quanto a ideia do mandato em si.

Existe ainda uma consequência pouco discutida.

À primeira vista, limitar a permanência dos ministros parece reduzir a concentração de poder dentro do STF. Dependendo do modelo escolhido, porém, poderia aumentar dramaticamente a influência de presidentes da República sobre a composição da Corte.

Se todos os ministros tivessem, por exemplo, mandatos relativamente curtos e as vagas continuassem sendo preenchidas exclusivamente por indicação presidencial, cada chefe do Executivo poderia nomear uma parcela muito maior do tribunal durante apenas quatro anos.

O desenho da reforma, portanto, teria de considerar não apenas quanto tempo um ministro permanece no cargo, mas também quem escolhe os integrantes do Supremo e em qual frequência essas escolhas acontecem.

É uma discussão institucional que não comporta solução improvisada em plena campanha eleitoral.

Outro cuidado será impedir que uma reforma concebida em meio ao confronto entre Moraes e Mendonça seja percebida como mecanismo para atingir ministros específicos.

Mudanças estruturais precisam sobreviver às pessoas que hoje ocupam os cargos.

Uma reforma do STF criada para resolver o “problema Moraes” ou o “problema Mendonça” provavelmente nasceria errada.

A própria posição anterior de Lula ajuda a separar as duas questões: ele já defendia mandato para ministros antes da atual explosão do caso Master.

Ao mesmo tempo, é inegável que o escândalo acelerou politicamente uma discussão que poderia permanecer abstrata por anos.

A campanha percebeu que a crise abriu espaço para uma pauta que reúne bandeiras tradicionalmente associadas a diferentes campos ideológicos: combate a privilégios, transparência, controle de conflitos de interesse, responsabilização de autoridades e redução da personalização do Supremo.

A movimentação de Lula também precisa ser compreendida dentro da disputa presidencial.

No 7 de Setembro, adversários do presidente intensificaram ataques ao STF, especialmente contra Alexandre de Moraes. Flávio Bolsonaro chegou a associar diretamente Lula ao ministro e prometeu alterar profundamente a composição da Corte caso seja eleito. Outros presidenciáveis também defenderam mudanças no Supremo.

Lula tenta agora evitar que toda a crítica ao Judiciário seja monopolizada pela oposição.

A estratégia é delicada.

O presidente precisa defender a instituição STF sem parecer indiferente aos questionamentos envolvendo seus integrantes. Precisa propor reformas sem transformar o Judiciário em inimigo eleitoral. E precisa convencer o eleitor de que regras mais duras também serão aplicadas a ministros considerados próximos ao próprio governo.

É nesse ponto que a frase adotada por sua campanha será testada:

“ninguém está acima da lei”.

Se a reforma avançar, essa afirmação precisará valer para aliados e adversários.

A discussão ainda está no começo e seria prematuro apresentar qualquer uma dessas medidas como compromisso definitivo de governo.

Mas o simples fato de a campanha presidencial de Lula colocar mandato no STF, código de ética, supersalários e conflito de interesses na mesma mesa já representa mudança importante no debate político brasileiro.

Durante anos, qualquer proposta de alteração profunda no Supremo era imediatamente absorvida pela polarização sobre Bolsonaro.

O Banco Master mudou essa dinâmica.

Agora existe pressão dentro do próprio Judiciário por regras éticas mais claras, críticas vindas da oposição, propostas de outros candidatos e uma campanha governista discutindo reformas que atingiriam privilégios e estruturas históricas da magistratura.

O debate, portanto, deixou de ser apenas sobre Alexandre de Moraes, André Mendonça ou Daniel Vorcaro.

Passou a ser sobre qual Supremo o Brasil pretende ter nas próximas décadas.

E, caso a discussão avance de verdade, a pergunta mais importante não será se ministros devem ter mandato ou se juízes recebem demais.

Será outra:

quem fiscaliza aqueles que possuem o poder de fiscalizar todos os demais?

domingo, 6 de setembro de 2026

VIRADA HISTÓRICA NA ALEMANHA: ultradireita vence eleição com mais de 44% e impõe derrota devastadora à CDU


AfD mais que dobra votação na Saxônia-Anhalt, alcança seu melhor resultado estadual e deixa partido do chanceler Friedrich Merz em torno de 18%; vitória, porém, não garante que a legenda consiga formar o governo

A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou neste domingo (6) uma vitória histórica nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, no leste alemão. As projeções da emissora pública ARD colocam a legenda de ultradireita acima dos 44% dos votos, mais que o dobro dos 20,8% registrados em 2021 e o melhor desempenho da história do partido em uma eleição estadual.

A dimensão da virada fica ainda mais evidente quando comparada ao resultado da CDU, partido do chanceler federal Friedrich Merz. A sigla, que havia vencido a eleição estadual de 2021 com 37,1%, despencou para aproximadamente 18%, seu pior resultado histórico no estado.

A derrota foi reconhecida pelo atual ministro-presidente da Saxônia-Anhalt, Sven Schulze, da CDU, que admitiu o forte revés e afirmou que a política do governo federal também produziu “vento contrário” durante a campanha. Embora Merz não estivesse pessoalmente disputando a eleição, o resultado representa um golpe político para sua liderança e para a estratégia nacional dos democrata-cristãos.

A AfD venceu. Mas isso não significa, pelo menos por enquanto, que governará a Saxônia-Anhalt.

Vitória não garante o governo

A Alemanha adota um sistema parlamentarista também nos estados. Para controlar sozinho o governo regional, um partido precisa alcançar maioria das cadeiras do Parlamento.

Com pouco mais de 44%, a AfD aparece muito próxima desse objetivo, mas as projeções indicam que pode permanecer abaixo da maioria absoluta. O cálculo também depende de quais partidos ultrapassarão a cláusula de barreira de 5%, especialmente o BSW, que oscila exatamente ao redor desse limite nas projeções.

O problema para a AfD é político.

Os principais partidos tradicionais alemães mantêm o chamado “cordão sanitário”, política pela qual recusam formar coalizões com a legenda. A CDU reafirmou neste domingo que não pretende governar em conjunto com a AfD.

A copresidente nacional da AfD, Alice Weidel, afirmou que o resultado representa um “mandato claro” para formar o governo e declarou estar aberta a conversas, inclusive com a CDU. Já o principal candidato da legenda no estado, Ulrich Siegmund, classificou a votação como histórica e disse que o resultado envia uma mensagem diretamente para Berlim.

A situação pode transformar a formação do próximo governo estadual num quebra-cabeça. Quanto mais partidos pequenos ficarem fora do Parlamento, maior será proporcionalmente o número de cadeiras destinado à AfD — e maior a possibilidade de a legenda se aproximar de uma maioria própria.

AfD mais que dobra votação em cinco anos

O salto eleitoral foi extraordinário.

Em 2021, a AfD havia recebido 20,8% dos votos na Saxônia-Anhalt. Agora aparece acima dos 44%. A CDU percorreu o caminho inverso: saiu de 37,1% para cerca de 18%.

As projeções mais recentes da ARD apontavam ainda A Esquerda e SPD próximos de 9%, os Verdes ao redor de 8,6%, o BSW perto dos 5% e o FDP em aproximadamente 2,3%, ficando fora do Parlamento.

Outro dado importante foi a participação eleitoral. A estimativa estava em torno de 76%, muito acima dos 60,3% registrados em 2021. O resultado, portanto, não pode ser explicado simplesmente por uma mobilização reduzida dos demais eleitores: houve forte crescimento da participação e, ainda assim, a AfD ampliou dramaticamente sua votação.

Análises da ARD mostram ainda que a legenda conseguiu liderança em diferentes faixas etárias e entre homens e mulheres, deixando de depender exclusivamente de um segmento específico do eleitorado.

Resultado expõe insatisfação muito além da Saxônia-Anhalt

A eleição ocorreu num ambiente de forte desgaste político na Alemanha.

Pesquisas anteriores ao pleito já apontavam elevada insatisfação com o governo federal, dificuldades econômicas, preocupação com aumento de preços, imigração e desconfiança em relação aos partidos tradicionais.

A AfD conseguiu transformar parte desse sentimento em voto.

O desempenho também confirma que o crescimento da legenda deixou de ser apenas um fenômeno circunstancial. Em fevereiro, nas eleições federais, a AfD já havia obtido 38,8% na Saxônia-Anhalt, tornando-se a força política mais votada no estado.

Agora supera esse percentual e consolida sua posição dominante na região.

O resultado também tem dimensão nacional porque a AfD vem avançando nas pesquisas em toda a Alemanha. Em maio deste ano, chegou a superar a própria União CDU/CSU numa pesquisa nacional do DeutschlandTrend, ao mesmo tempo em que a avaliação do governo Merz atingia níveis especialmente baixos.

Partido é classificado como extremista pelo serviço de inteligência regional

Existe ainda um elemento que torna o resultado particularmente sensível para a política alemã.

O braço da AfD na Saxônia-Anhalt é classificado desde 2023 pelo serviço estadual de proteção à Constituição como uma organização de extrema direita comprovada. Segundo o órgão, a atuação política da legenda no estado contém elementos que entram em conflito com princípios fundamentais da ordem democrática alemã, incluindo posições relacionadas à dignidade humana e ao conceito étnico de nacionalidade.

A AfD rejeita essa classificação e contesta a decisão judicialmente. O processo permanece em discussão.

É exatamente por isso que a eleição da Saxônia-Anhalt ganhou atenção internacional.

A Alemanha carrega uma relação histórica particularmente sensível com movimentos de extrema direita desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Uma legenda classificada dessa forma pelas autoridades regionais acaba de receber o voto de mais de quatro em cada dez eleitores de um estado alemão.

CDU sofre uma derrota que chega a Berlim

Para Friedrich Merz, o resultado apresenta um problema que ultrapassa as fronteiras da Saxônia-Anhalt.

O chanceler chegou ao governo prometendo recuperar eleitores que haviam migrado para a AfD e fortalecer novamente o campo conservador tradicional. O resultado deste domingo mostra justamente o contrário em um dos estados onde essa disputa é mais intensa.

A CDU perdeu aproximadamente metade de sua votação.

A AfD mais que dobrou a sua.

E o candidato estadual da legenda vencedora já transformou o resultado em mensagem política nacional.

Isso não significa automaticamente que a AfD esteja a caminho de controlar o governo federal alemão. Eleições estaduais possuem dinâmicas próprias, e a Saxônia-Anhalt representa apenas uma das 16 unidades federativas do país.

Mas seria igualmente equivocado tratar o resultado como um episódio regional sem maiores consequências.

O que aconteceu neste domingo foi um realinhamento eleitoral de proporções históricas: pela primeira vez, a AfD venceu uma eleição na Saxônia-Anhalt, alcançou seu maior percentual numa disputa estadual e deixou a CDU muito distante.

A próxima batalha agora não será nas urnas.

Será dentro do Parlamento estadual.

A AfD precisa descobrir se seus mais de 44% dos votos serão suficientes para romper o isolamento político construído pelos demais partidos — ou se a Alemanha entrará numa situação inédita em que o vencedor de uma eleição com enorme vantagem poderá permanecer fora do governo por não encontrar parceiros para formar maioria.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Republicano que votou por pena de morte em crimes sexuais contra crianças é preso sob acusação de abuso infantil na Flórida


Michael “Mike” Caruso, ex-deputado estadual, foi nomeado por Ron DeSantis para um dos principais cargos públicos do condado de Palm Beach e defendeu publicamente a reeleição de Donald Trump. Agora, permanece preso sem fiança diante de cinco acusações criminais envolvendo uma criança da própria família. A ironia política é ainda maior: em 2023, ele votou pela lei que permite buscar a pena de morte em determinados casos de violência sexual contra menores de 12 anos.

Poucas histórias recentes da política da Flórida carregam uma contradição tão difícil de ignorar.

Michael “Mike” Caruso, de 67 anos, passou anos integrando a bancada republicana na Câmara estadual, tornou-se aliado político próximo do governador Ron DeSantis e chegou a defender publicamente a recondução de Donald Trump à Casa Branca.

Em 2023, quando ainda exercia mandato parlamentar, Caruso votou a favor de uma das medidas criminais mais severas aprovadas pela Flórida nos últimos anos: uma lei que abriu caminho para a aplicação da pena de morte em determinados casos de violência sexual contra crianças menores de 12 anos. A proposta foi aprovada pela Câmara estadual por 95 votos a 14 e posteriormente sancionada por DeSantis.

Três anos depois, o próprio ex-parlamentar está atrás das grades sob acusações relacionadas a abuso sexual infantil.

Caruso foi preso em 18 de agosto de 2026 pelo Departamento de Aplicação da Lei da Flórida, o FDLE. Segundo o órgão, ele responde a acusações relacionadas a abuso sexual de uma criança e permanece alvo de uma investigação que ainda pode resultar em novas imputações.

Até esta quinta-feira, 27 de agosto, Caruso permanecia detido sem direito a fiança em Orange County. Uma audiência prevista para esta semana foi adiada, e seu próximo comparecimento judicial está marcado para 8 de setembro.

Caruso não foi condenado. Sua defesa afirma que ele é inocente e pretende contestar as acusações.

Esse ponto é fundamental: tudo o que envolve os supostos crimes continua submetido ao devido processo legal.

O que já está documentado, entretanto, é suficiente para transformar o caso em um dos episódios políticos mais explosivos da Flórida em 2026.

Cinco acusações e uma vítima menor de 12 anos

A ordem de prisão apresenta cinco acusações criminais contra Caruso.

Elas incluem sequestro, abuso sexual classificado pela legislação da Flórida como lewd or lascivious molestation, exposição indecente de natureza sexual, aliciamento ou atração de criança e abuso infantil com dano psicológico.

As autoridades afirmam que o caso envolve um parente menor de 12 anos e episódios que teriam acontecido entre 2024 e 2025.

O mandado judicial descreve diferentes situações em que Caruso teria tido acesso à criança sem supervisão. Um dos episódios investigados teria acontecido durante uma viagem familiar em 2025.

O Papo de Nível opta por não reproduzir os detalhes mais explícitos contidos nos documentos judiciais em respeito à proteção da criança.

Segundo as autoridades, a investigação continua aberta. O procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, afirmou no anúncio da prisão que novas acusações poderiam ser apresentadas à medida que o caso avançasse.

A defesa de Caruso, por sua vez, sustenta que ele é inocente e deverá enfrentar o processo judicialmente.

A lei que Caruso ajudou a aprovar

É justamente aqui que o caso ganha uma dimensão incomum.

Em 2023, Caruso integrava a Câmara dos Representantes da Flórida quando foi votado o HB 1297, chamado oficialmente de Capital Sexual Battery.

A legislação autoriza promotores a buscar a pena de morte contra adultos condenados por determinados crimes de violência sexual contra crianças menores de 12 anos.

O projeto passou na Câmara estadual por 95 votos a 14 e no Senado por 34 a 5. Entrou em vigor em 1º de outubro de 2023.

Reportagens locais que reconstruíram o histórico legislativo de Caruso confirmaram que ele votou favoravelmente à medida.

Ron DeSantis não apenas sancionou a lei como declarou, naquele momento, estar disposto a levá-la até a Suprema Corte dos Estados Unidos.

Isso ocorre porque existe um enorme obstáculo constitucional.

Em Kennedy v. Louisiana, decisão de 2008, a Suprema Corte dos Estados Unidos estabeleceu que a pena de morte é desproporcional para o estupro de uma criança quando a vítima não morre.

A própria análise legislativa do HB 1297 reconhece expressamente essa jurisprudência e registra que a Flórida aprovou a lei com a intenção de provocar uma eventual revisão desse entendimento pela Suprema Corte.

Ao sancionar a medida, DeSantis declarou que pretendia levar a discussão “até a Suprema Corte” para tentar derrubar o precedente.

Caruso pode receber a pena de morte que ajudou a aprovar?

A resposta, neste momento, é: não automaticamente.

Apesar da repercussão provocada pela história, nenhuma das cinco acusações atualmente apresentadas contra Caruso corresponde formalmente ao crime de capital sexual battery previsto pela lei de 2023.

Isso significa que, com as acusações existentes hoje, a pena de morte não está disponível.

O cenário poderia mudar caso os promotores acrescentassem uma acusação de violência sexual enquadrada no dispositivo específico da legislação.

As próprias autoridades já disseram que a investigação continua e que novas acusações podem surgir.

Mesmo nesse caso, entretanto, a eventual tentativa de aplicação da pena capital provavelmente enfrentaria uma batalha constitucional, justamente por causa da decisão da Suprema Corte em Kennedy v. Louisiana.

Em outras palavras, existe uma ironia política evidente, mas juridicamente a situação é muito mais complexa do que dizer que Caruso simplesmente “será julgado pela lei que criou”.

Ele pode nem sequer ser denunciado pelo crime específico contemplado pela norma.

E, ainda que isso aconteça, a constitucionalidade da pena de morte nesse tipo de caso permanece em disputa.

DeSantis o nomeou exatamente um ano antes da prisão

Outro detalhe da cronologia tornou o caso ainda mais simbólico.

Em 18 de agosto de 2025, Ron DeSantis anunciou oficialmente a nomeação de Mike Caruso para o cargo de Clerk of the Circuit Court and Comptroller do condado de Palm Beach, função que reúne responsabilidades administrativas e financeiras importantes dentro da estrutura judicial local.

A nomeação passou a valer no dia seguinte.

Exatamente um ano depois, em 18 de agosto de 2026, Caruso foi preso.

Pouco depois da divulgação da prisão, DeSantis assinou a Ordem Executiva 2026-170, suspendendo Caruso do cargo.

A suspensão interrompeu suas funções, salário e demais prerrogativas enquanto o processo tramita.

DeSantis afirmou posteriormente que a decisão de afastá-lo havia sido simples diante da gravidade das acusações.

Caruso havia servido na Câmara estadual desde 2018 e ocupava o Distrito 87 antes de deixar o Legislativo para assumir a função em Palm Beach.

Republicano defendeu publicamente a volta de Trump à Presidência

Algumas publicações passaram a descrever Caruso genericamente como “aliado de Trump”.

A ligação política existe, mas merece uma formulação mais precisa.

Caruso era sobretudo um político republicano muito próximo de Ron DeSantis. Durante a disputa presidencial republicana anterior, chegou inclusive a integrar o grupo de legisladores associados à candidatura presidencial de DeSantis.

Depois, durante a eleição de 2024, manifestou apoio explícito à candidatura de Donald Trump contra os democratas.

Em julho daquele ano, ao comentar a corrida presidencial, Caruso declarou que era “imperativo” reeleger Trump como 47º presidente dos Estados Unidos.

Portanto, é correto situá-lo dentro do campo político trumpista naquele ciclo eleitoral, mas é mais rigoroso descrevê-lo como republicano que apoiou publicamente Trump do que sugerir uma relação pessoal próxima que não está demonstrada pelas informações disponíveis.

Um caso ainda mais delicado para o discurso político da Flórida

O caso provoca impacto político porque toca diretamente em uma das bandeiras mais exploradas pelos republicanos da Flórida nos últimos anos: o endurecimento das penas para crimes contra crianças.

DeSantis fez da legislação criminal uma das vitrines de sua administração e utilizou linguagem extremamente severa ao defender a pena de morte para autores de violência sexual infantil.

Caruso votou com essa agenda.

Agora, um integrante dessa mesma estrutura política enfrenta acusações que estão entre as mais graves que alguém pode receber.

Isso não torna as acusações verdadeiras por associação política.

Também não torna hipócrita, automaticamente, todo parlamentar que aprovou aquela legislação.

Mas torna inevitável o escrutínio sobre a distância entre o discurso público adotado por autoridades e o comportamento privado atribuído a uma pessoa que ocupava cargo de confiança.

A Justiça ainda terá de determinar o que efetivamente aconteceu.

Caruso continua, tecnicamente, na eleição

Há mais uma situação incomum.

Antes da prisão, Caruso disputava a eleição de novembro para permanecer definitivamente no cargo para o qual havia sido nomeado por DeSantis.

Mesmo preso e suspenso, seu nome continuava ligado à disputa eleitoral até esta quinta-feira, porque o processo de certificação da eleição interna republicana já havia sido concluído e a autoridade eleitoral local não havia recebido uma retirada formal da candidatura.

O Partido Republicano pode escolher outro candidato caso Caruso deixe oficialmente a corrida, mas as regras eleitorais tornam a substituição mais complexa depois dos prazos de impressão das cédulas.

É mais uma consequência política de um processo que começou como investigação criminal e rapidamente atingiu a estrutura institucional do condado.

Uma acusação antiga voltou à tona — e foi considerada infundada

Depois da prisão, veículos da Flórida também revisitaram documentos relacionados ao divórcio de Caruso mais de uma década atrás.

Registros indicam que, em 2012, existiu uma acusação anterior envolvendo abuso infantil.

A informação exige cuidado especial: a investigação daquela época foi encerrada como infundada e não resultou em acusação criminal contra Caruso.

O fato de um episódio antigo ter sido investigado não pode ser usado como prova das acusações atuais.

São situações juridicamente distintas.

A divulgação desses documentos apenas ganhou relevância porque Caruso seria posteriormente nomeado para uma posição pública de grande responsabilidade pelo governo estadual.

Da lei mais dura ao banco dos réus

A repercussão do caso não nasce apenas da gravidade das acusações.

Nasce da sequência.

Um político ajuda a aprovar uma lei destinada a aplicar uma das punições mais severas existentes contra quem pratica determinados crimes sexuais contra crianças.

Dois anos depois, é nomeado pelo governador para um cargo público de confiança.

Exatamente um ano após a nomeação, é preso acusado de crimes envolvendo uma criança da própria família.

O mesmo governador que o nomeou assina sua suspensão.

E os promotores deixam aberta a possibilidade de novas acusações.

É uma narrativa que parece escrita para provocar indignação nas redes sociais.

Mas o cuidado jornalístico exige deixar uma fronteira extremamente clara.

Mike Caruso é acusado. Não condenado.

O processo ainda precisa produzir provas, permitir contraditório e defesa e chegar a uma decisão judicial.

Também não é correto afirmar, neste momento, que ele enfrentará a pena de morte prevista na lei que ajudou a aprovar. Para isso, seria necessária uma nova acusação específica e, mesmo assim, começaria uma disputa constitucional de enorme alcance.

Ainda assim, um fato não depende de julgamento:

a lei existe.

Caruso votou a favor dela.

E agora ele próprio está no centro de uma investigação por crimes que pertencem justamente ao universo que aquela legislação pretendia punir com rigor máximo.

Na política, poucas contradições são mais poderosas do que aquelas que deixam de ser apenas retóricas e chegam a um tribunal.