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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

TikTok limita a 12 horas acesso sem cadastro no Brasil após pressão da ANPD por proteção de menores


Mudança restringe o uso do feed por dispositivo, elimina publicidade e interações sociais nessa modalidade e integra um amplo plano de adequação imposto após investigação sobre o tratamento de dados de crianças e adolescentes

O TikTok passou a restringir no Brasil o acesso ao seu feed por usuários que utilizam a plataforma sem criar uma conta. A chamada “experiência sem cadastro”, que durante anos permitiu navegar por vídeos sem identificação formal na rede social, passa a ter um limite de 12 horas cumulativas por dispositivo, além de uma série de restrições de funcionalidades e de coleta de dados.

A mudança faz parte do plano de conformidade negociado entre a ByteDance, controladora do TikTok, e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), depois de uma investigação que identificou irregularidades no tratamento de informações de crianças e adolescentes no país. A própria agência informou que a limitação não corresponde a 12 horas diárias: o período é acumulado no aparelho utilizado para acessar o serviço.

Com a nova configuração, quem entrar no TikTok sem possuir conta continuará podendo assistir a vídeos, mas encontrará uma versão significativamente mais restrita da plataforma. Não será possível comentar, publicar conteúdo, enviar mensagens diretas, seguir outros perfis ou acompanhar transmissões ao vivo. A publicidade também ficará suspensa nessa modalidade, enquanto o sistema de recomendação deverá operar com grau muito menor de personalização. O conteúdo exibido deverá ainda ser adequado para todas as idades.

As alterações estão diretamente relacionadas à preocupação das autoridades brasileiras com o acesso de menores às redes sociais sem mecanismos suficientes de identificação de idade ou supervisão dos responsáveis. Segundo a ANPD, o modelo anteriormente utilizado permitia que crianças e adolescentes consumissem conteúdo e gerassem dados comportamentais mesmo sem possuir uma conta registrada, situação considerada especialmente sensível à luz da Lei Geral de Proteção de Dados.

Investigação levou a multa de R$ 153,7 milhões

O novo desenho do serviço foi divulgado poucos dias depois de a ANPD aplicar à ByteDance uma multa de R$ 153,7 milhões por cinco violações à LGPD relacionadas ao tratamento de dados de crianças e adolescentes. A sanção, anunciada em 25 de agosto, foi acompanhada da determinação de eliminação de informações coletadas de maneira irregular e da obrigação de cumprir um plano mais amplo de proteção de menores.

A investigação analisou tanto o acesso feito por usuários cadastrados quanto o feed disponível para quem não possuía conta. No segundo caso, os técnicos concluíram que dados pessoais de crianças e adolescentes eram tratados sem uma base legal considerada válida e que as medidas adotadas pela plataforma não impediam de forma suficiente que menores utilizassem o serviço.

No acesso com cadastro, a ANPD também apontou falhas nos mecanismos destinados a evitar registros de usuários abaixo da idade permitida e na demonstração da efetividade das medidas de proteção adotadas pela empresa.

Um dos números levados em consideração durante o processo revela a dimensão do problema. A fiscalização registrou informações segundo as quais milhões de contas pertencentes a menores de 13 anos haviam sido removidas pela própria plataforma em períodos anteriores, evidenciando a dificuldade de impedir que crianças ingressassem no serviço declarando uma idade diferente da real.

A ANPD também observou que o feed sem cadastro oferecido no Brasil não funcionava da mesma forma em mercados como Estados Unidos e União Europeia. Na avaliação da fiscalização, essa diferença demonstrava que a manutenção desse modelo no país não decorria necessariamente de uma limitação técnica da empresa, mas de uma decisão relacionada ao desenho do produto.

A ByteDance afirma que vem dialogando com a autoridade brasileira há anos e sustenta que parte das condutas analisadas corresponde a práticas anteriores às mudanças implementadas mais recentemente. A empresa pode recorrer da sanção administrativa.

Limitação atinge o coração do modelo do TikTok

A alteração tem relevância maior do que aparenta porque afeta uma das principais características que tornaram o TikTok uma das plataformas digitais mais utilizadas do mundo: a capacidade de personalizar rapidamente aquilo que cada usuário vê.

O funcionamento do feed depende da análise de uma série de sinais produzidos durante a navegação. O tempo gasto assistindo a um vídeo, a decisão de repeti-lo ou abandoná-lo rapidamente, as buscas feitas dentro do aplicativo e diferentes formas de interação ajudam o sistema a compreender preferências e selecionar novos conteúdos.

Mesmo quando uma pessoa não possuía uma conta registrada, parte dessas informações podia ser utilizada para adequar a experiência de navegação. Foi justamente esse tipo de tratamento comportamental que chamou a atenção da fiscalização quando aplicado a crianças e adolescentes.

A restrição imposta à experiência sem cadastro tenta reduzir essa capacidade de rastreamento. Segundo o plano divulgado pela ANPD, nessa modalidade a coleta deverá ficar limitada a informações consideradas básicas para o funcionamento do serviço, como idioma, região, dados essenciais do aparelho, proteção contra fraudes e informações necessárias para melhorar o desempenho técnico da plataforma.

Na prática, isso significa que o usuário sem conta deverá encontrar um feed menos individualizado e, portanto, menos moldado continuamente aos seus hábitos de consumo.

Essa mudança interfere diretamente na lógica que ajudou o TikTok a se tornar extremamente eficiente em manter pessoas conectadas por longos períodos. Quanto maior a quantidade de informações disponíveis sobre um usuário, maior tende a ser a capacidade do algoritmo de prever quais vídeos poderão mantê-lo assistindo.

Quando esse usuário é uma criança, no entanto, a questão deixa de ser apenas comercial ou tecnológica e entra no campo da proteção de direitos.

Contas de menores também terão regras mais rígidas

O plano de adequação não se limita a pessoas que utilizam a plataforma sem cadastro. O TikTok também deverá reforçar as configurações destinadas aos usuários menores de idade que possuem conta.

Para perfis de pessoas com menos de 16 anos, as opções de privacidade mais restritivas deverão ser aplicadas automaticamente. Alterações nessas configurações dependerão de autorização dos responsáveis, e os mecanismos de supervisão parental deverão ser reforçados. A plataforma também assumiu o compromisso de ampliar filtros destinados a impedir que conteúdos inadequados cheguem ao público infantil e adolescente.

O movimento ocorre em um momento de endurecimento da regulamentação digital brasileira em relação aos menores. O chamado ECA Digital ampliou as obrigações de plataformas de grande alcance e colocou temas como verificação de idade, supervisão parental, publicidade e transparência entre as prioridades dos órgãos de fiscalização.

A própria ANPD informou neste mês que plataformas acessadas por crianças e adolescentes deverão publicar relatórios periódicos de transparência sobre as medidas adotadas para cumprir essas exigências.

O TikTok tornou-se, portanto, um dos primeiros grandes casos em que essa preocupação regulatória passa a produzir uma mudança facilmente perceptível pelo próprio usuário.

O que muda para quem já possui conta

Para os adultos que já utilizam normalmente uma conta registrada no TikTok, a limitação de 12 horas não se aplica. A restrição está relacionada especificamente à modalidade de acesso sem cadastro.

O impacto mais direto será sentido por quem costumava abrir o aplicativo ou acessar conteúdos sem fornecer dados para a criação de um perfil. Essa possibilidade continuará existindo, mas com prazo limitado e sem os elementos que caracterizam plenamente a experiência social da plataforma.

A ausência de publicidade também produz uma mudança relevante. A ANPD identificou preocupação específica com a utilização de informações de menores para direcionamento comercial e com o eventual compartilhamento desses dados em processos relacionados à publicidade personalizada.

Ao retirar anúncios completamente do feed sem cadastro, a plataforma reduz um dos principais incentivos econômicos associados ao acompanhamento detalhado do comportamento desses usuários.

Isso não significa que o TikTok deixará de coletar qualquer informação nessa modalidade, mas a quantidade e a finalidade dos dados deverão ser significativamente menores.

Caso pode antecipar uma mudança maior nas redes sociais

A limitação do TikTok ocorre em meio a uma discussão global sobre a responsabilidade das plataformas digitais na proteção de menores.

Governos e autoridades reguladoras vêm questionando há anos se simplesmente exigir que uma criança informe sua data de nascimento é suficiente para controlar o acesso a serviços desenhados para maximizar permanência, interação e consumo de conteúdo.

O problema ficou ainda mais complexo com a expansão de sistemas de recomendação capazes de analisar continuamente o comportamento de cada usuário.

No modelo tradicional das redes sociais, a responsabilidade costumava surgir depois que um menor já estava dentro da plataforma: quais conteúdos poderia assistir, com quem poderia conversar e qual publicidade poderia receber. A nova tendência regulatória desloca parte dessa preocupação para uma etapa anterior, exigindo que as empresas expliquem como identificam a idade de seus usuários e quais dados podem ser tratados antes mesmo de haver uma conta formal.

É nesse contexto que o limite de 12 horas assume uma dimensão que ultrapassa a simples mudança de funcionamento de um aplicativo.

Para milhões de brasileiros, a consequência será concreta: abrir o TikTok sem cadastro deixará de significar acesso praticamente ilimitado a um feed progressivamente personalizado.

Para a empresa, a mudança representa a necessidade de operar no Brasil sob um modelo mais restritivo quando não consegue determinar com segurança quem está do outro lado da tela.

E, para o mercado de tecnologia, o caso envia um recado ainda mais amplo: a coleta de dados de crianças e adolescentes passou definitivamente a ocupar o centro da fiscalização brasileira.

A multa de R$ 153,7 milhões atraiu as manchetes. A transformação mais importante, porém, talvez esteja naquilo que ocorrerá depois dela. Ao impor limites ao próprio funcionamento do feed, a decisão da ANPD mostra que a discussão sobre proteção infantil na internet já não está restrita a termos de uso, políticas de privacidade ou avisos escondidos em telas de cadastro.

Ela começou a alterar o produto.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Republicano que votou por pena de morte em crimes sexuais contra crianças é preso sob acusação de abuso infantil na Flórida


Michael “Mike” Caruso, ex-deputado estadual, foi nomeado por Ron DeSantis para um dos principais cargos públicos do condado de Palm Beach e defendeu publicamente a reeleição de Donald Trump. Agora, permanece preso sem fiança diante de cinco acusações criminais envolvendo uma criança da própria família. A ironia política é ainda maior: em 2023, ele votou pela lei que permite buscar a pena de morte em determinados casos de violência sexual contra menores de 12 anos.

Poucas histórias recentes da política da Flórida carregam uma contradição tão difícil de ignorar.

Michael “Mike” Caruso, de 67 anos, passou anos integrando a bancada republicana na Câmara estadual, tornou-se aliado político próximo do governador Ron DeSantis e chegou a defender publicamente a recondução de Donald Trump à Casa Branca.

Em 2023, quando ainda exercia mandato parlamentar, Caruso votou a favor de uma das medidas criminais mais severas aprovadas pela Flórida nos últimos anos: uma lei que abriu caminho para a aplicação da pena de morte em determinados casos de violência sexual contra crianças menores de 12 anos. A proposta foi aprovada pela Câmara estadual por 95 votos a 14 e posteriormente sancionada por DeSantis.

Três anos depois, o próprio ex-parlamentar está atrás das grades sob acusações relacionadas a abuso sexual infantil.

Caruso foi preso em 18 de agosto de 2026 pelo Departamento de Aplicação da Lei da Flórida, o FDLE. Segundo o órgão, ele responde a acusações relacionadas a abuso sexual de uma criança e permanece alvo de uma investigação que ainda pode resultar em novas imputações.

Até esta quinta-feira, 27 de agosto, Caruso permanecia detido sem direito a fiança em Orange County. Uma audiência prevista para esta semana foi adiada, e seu próximo comparecimento judicial está marcado para 8 de setembro.

Caruso não foi condenado. Sua defesa afirma que ele é inocente e pretende contestar as acusações.

Esse ponto é fundamental: tudo o que envolve os supostos crimes continua submetido ao devido processo legal.

O que já está documentado, entretanto, é suficiente para transformar o caso em um dos episódios políticos mais explosivos da Flórida em 2026.

Cinco acusações e uma vítima menor de 12 anos

A ordem de prisão apresenta cinco acusações criminais contra Caruso.

Elas incluem sequestro, abuso sexual classificado pela legislação da Flórida como lewd or lascivious molestation, exposição indecente de natureza sexual, aliciamento ou atração de criança e abuso infantil com dano psicológico.

As autoridades afirmam que o caso envolve um parente menor de 12 anos e episódios que teriam acontecido entre 2024 e 2025.

O mandado judicial descreve diferentes situações em que Caruso teria tido acesso à criança sem supervisão. Um dos episódios investigados teria acontecido durante uma viagem familiar em 2025.

O Papo de Nível opta por não reproduzir os detalhes mais explícitos contidos nos documentos judiciais em respeito à proteção da criança.

Segundo as autoridades, a investigação continua aberta. O procurador-geral da Flórida, James Uthmeier, afirmou no anúncio da prisão que novas acusações poderiam ser apresentadas à medida que o caso avançasse.

A defesa de Caruso, por sua vez, sustenta que ele é inocente e deverá enfrentar o processo judicialmente.

A lei que Caruso ajudou a aprovar

É justamente aqui que o caso ganha uma dimensão incomum.

Em 2023, Caruso integrava a Câmara dos Representantes da Flórida quando foi votado o HB 1297, chamado oficialmente de Capital Sexual Battery.

A legislação autoriza promotores a buscar a pena de morte contra adultos condenados por determinados crimes de violência sexual contra crianças menores de 12 anos.

O projeto passou na Câmara estadual por 95 votos a 14 e no Senado por 34 a 5. Entrou em vigor em 1º de outubro de 2023.

Reportagens locais que reconstruíram o histórico legislativo de Caruso confirmaram que ele votou favoravelmente à medida.

Ron DeSantis não apenas sancionou a lei como declarou, naquele momento, estar disposto a levá-la até a Suprema Corte dos Estados Unidos.

Isso ocorre porque existe um enorme obstáculo constitucional.

Em Kennedy v. Louisiana, decisão de 2008, a Suprema Corte dos Estados Unidos estabeleceu que a pena de morte é desproporcional para o estupro de uma criança quando a vítima não morre.

A própria análise legislativa do HB 1297 reconhece expressamente essa jurisprudência e registra que a Flórida aprovou a lei com a intenção de provocar uma eventual revisão desse entendimento pela Suprema Corte.

Ao sancionar a medida, DeSantis declarou que pretendia levar a discussão “até a Suprema Corte” para tentar derrubar o precedente.

Caruso pode receber a pena de morte que ajudou a aprovar?

A resposta, neste momento, é: não automaticamente.

Apesar da repercussão provocada pela história, nenhuma das cinco acusações atualmente apresentadas contra Caruso corresponde formalmente ao crime de capital sexual battery previsto pela lei de 2023.

Isso significa que, com as acusações existentes hoje, a pena de morte não está disponível.

O cenário poderia mudar caso os promotores acrescentassem uma acusação de violência sexual enquadrada no dispositivo específico da legislação.

As próprias autoridades já disseram que a investigação continua e que novas acusações podem surgir.

Mesmo nesse caso, entretanto, a eventual tentativa de aplicação da pena capital provavelmente enfrentaria uma batalha constitucional, justamente por causa da decisão da Suprema Corte em Kennedy v. Louisiana.

Em outras palavras, existe uma ironia política evidente, mas juridicamente a situação é muito mais complexa do que dizer que Caruso simplesmente “será julgado pela lei que criou”.

Ele pode nem sequer ser denunciado pelo crime específico contemplado pela norma.

E, ainda que isso aconteça, a constitucionalidade da pena de morte nesse tipo de caso permanece em disputa.

DeSantis o nomeou exatamente um ano antes da prisão

Outro detalhe da cronologia tornou o caso ainda mais simbólico.

Em 18 de agosto de 2025, Ron DeSantis anunciou oficialmente a nomeação de Mike Caruso para o cargo de Clerk of the Circuit Court and Comptroller do condado de Palm Beach, função que reúne responsabilidades administrativas e financeiras importantes dentro da estrutura judicial local.

A nomeação passou a valer no dia seguinte.

Exatamente um ano depois, em 18 de agosto de 2026, Caruso foi preso.

Pouco depois da divulgação da prisão, DeSantis assinou a Ordem Executiva 2026-170, suspendendo Caruso do cargo.

A suspensão interrompeu suas funções, salário e demais prerrogativas enquanto o processo tramita.

DeSantis afirmou posteriormente que a decisão de afastá-lo havia sido simples diante da gravidade das acusações.

Caruso havia servido na Câmara estadual desde 2018 e ocupava o Distrito 87 antes de deixar o Legislativo para assumir a função em Palm Beach.

Republicano defendeu publicamente a volta de Trump à Presidência

Algumas publicações passaram a descrever Caruso genericamente como “aliado de Trump”.

A ligação política existe, mas merece uma formulação mais precisa.

Caruso era sobretudo um político republicano muito próximo de Ron DeSantis. Durante a disputa presidencial republicana anterior, chegou inclusive a integrar o grupo de legisladores associados à candidatura presidencial de DeSantis.

Depois, durante a eleição de 2024, manifestou apoio explícito à candidatura de Donald Trump contra os democratas.

Em julho daquele ano, ao comentar a corrida presidencial, Caruso declarou que era “imperativo” reeleger Trump como 47º presidente dos Estados Unidos.

Portanto, é correto situá-lo dentro do campo político trumpista naquele ciclo eleitoral, mas é mais rigoroso descrevê-lo como republicano que apoiou publicamente Trump do que sugerir uma relação pessoal próxima que não está demonstrada pelas informações disponíveis.

Um caso ainda mais delicado para o discurso político da Flórida

O caso provoca impacto político porque toca diretamente em uma das bandeiras mais exploradas pelos republicanos da Flórida nos últimos anos: o endurecimento das penas para crimes contra crianças.

DeSantis fez da legislação criminal uma das vitrines de sua administração e utilizou linguagem extremamente severa ao defender a pena de morte para autores de violência sexual infantil.

Caruso votou com essa agenda.

Agora, um integrante dessa mesma estrutura política enfrenta acusações que estão entre as mais graves que alguém pode receber.

Isso não torna as acusações verdadeiras por associação política.

Também não torna hipócrita, automaticamente, todo parlamentar que aprovou aquela legislação.

Mas torna inevitável o escrutínio sobre a distância entre o discurso público adotado por autoridades e o comportamento privado atribuído a uma pessoa que ocupava cargo de confiança.

A Justiça ainda terá de determinar o que efetivamente aconteceu.

Caruso continua, tecnicamente, na eleição

Há mais uma situação incomum.

Antes da prisão, Caruso disputava a eleição de novembro para permanecer definitivamente no cargo para o qual havia sido nomeado por DeSantis.

Mesmo preso e suspenso, seu nome continuava ligado à disputa eleitoral até esta quinta-feira, porque o processo de certificação da eleição interna republicana já havia sido concluído e a autoridade eleitoral local não havia recebido uma retirada formal da candidatura.

O Partido Republicano pode escolher outro candidato caso Caruso deixe oficialmente a corrida, mas as regras eleitorais tornam a substituição mais complexa depois dos prazos de impressão das cédulas.

É mais uma consequência política de um processo que começou como investigação criminal e rapidamente atingiu a estrutura institucional do condado.

Uma acusação antiga voltou à tona — e foi considerada infundada

Depois da prisão, veículos da Flórida também revisitaram documentos relacionados ao divórcio de Caruso mais de uma década atrás.

Registros indicam que, em 2012, existiu uma acusação anterior envolvendo abuso infantil.

A informação exige cuidado especial: a investigação daquela época foi encerrada como infundada e não resultou em acusação criminal contra Caruso.

O fato de um episódio antigo ter sido investigado não pode ser usado como prova das acusações atuais.

São situações juridicamente distintas.

A divulgação desses documentos apenas ganhou relevância porque Caruso seria posteriormente nomeado para uma posição pública de grande responsabilidade pelo governo estadual.

Da lei mais dura ao banco dos réus

A repercussão do caso não nasce apenas da gravidade das acusações.

Nasce da sequência.

Um político ajuda a aprovar uma lei destinada a aplicar uma das punições mais severas existentes contra quem pratica determinados crimes sexuais contra crianças.

Dois anos depois, é nomeado pelo governador para um cargo público de confiança.

Exatamente um ano após a nomeação, é preso acusado de crimes envolvendo uma criança da própria família.

O mesmo governador que o nomeou assina sua suspensão.

E os promotores deixam aberta a possibilidade de novas acusações.

É uma narrativa que parece escrita para provocar indignação nas redes sociais.

Mas o cuidado jornalístico exige deixar uma fronteira extremamente clara.

Mike Caruso é acusado. Não condenado.

O processo ainda precisa produzir provas, permitir contraditório e defesa e chegar a uma decisão judicial.

Também não é correto afirmar, neste momento, que ele enfrentará a pena de morte prevista na lei que ajudou a aprovar. Para isso, seria necessária uma nova acusação específica e, mesmo assim, começaria uma disputa constitucional de enorme alcance.

Ainda assim, um fato não depende de julgamento:

a lei existe.

Caruso votou a favor dela.

E agora ele próprio está no centro de uma investigação por crimes que pertencem justamente ao universo que aquela legislação pretendia punir com rigor máximo.

Na política, poucas contradições são mais poderosas do que aquelas que deixam de ser apenas retóricas e chegam a um tribunal.