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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Adeus, chatbot? Meta lança IA que trabalha pelo usuário no WhatsApp, faz compras e pode realizar pagamentos


Muse executa tarefas em outros aplicativos, continua trabalhando em segundo plano e chega inicialmente apenas aos Estados Unidos

A Meta lançou o Muse, um novo agente de inteligência artificial desenvolvido para executar tarefas em nome do usuário. Diferentemente dos chatbots tradicionais, que apenas respondem perguntas e produzem textos, o sistema pode enviar e-mails, reservar viagens, preencher formulários, organizar compromissos, fazer compras e interagir com outros aplicativos.

A ferramenta também pode ser utilizada pelo WhatsApp. O usuário envia uma mensagem explicando o que precisa e o agente realiza as etapas necessárias em serviços autorizados. A apresentação oficial da empresa está disponível neste anúncio da Meta.

É importante destacar que o Muse ainda não foi lançado no Brasil. A primeira fase de distribuição está restrita aos Estados Unidos, com acesso por celulares, computador e WhatsApp.

Uma IA que não apenas responde, mas age

A principal diferença do Muse está na capacidade de receber um objetivo e tomar decisões para cumprir uma tarefa.

O usuário poderá pedir, por exemplo, que a IA organize uma viagem. A partir disso, o sistema poderá pesquisar opções, comparar informações, preencher dados e avançar no processo de reserva. Também poderá transformar uma receita salva no Instagram em lista de compras ou ajudar a organizar um jantar levando em conta preferências e restrições alimentares.

Na prática, a proposta é reduzir a necessidade de alternar entre aplicativos e realizar cada etapa manualmente.

A Meta afirma que o Muse também consegue continuar trabalhando em segundo plano, mesmo quando o usuário fecha o aplicativo ou deixa de acompanhar a execução da tarefa.

Sistema trabalha em uma máquina virtual própria

Para realizar essas atividades, o agente utiliza uma máquina virtual exclusiva na nuvem, chamada Muse Secure VM. O ambiente funciona como um computador separado, com navegador próprio, no qual a inteligência artificial pode acessar serviços conectados e cumprir as tarefas autorizadas.

A empresa criou ainda o Sentinel, um sistema independente responsável por analisar as ações do Muse antes que ele acesse a internet. Em determinadas situações, a operação precisa ser autorizada diretamente pelo usuário.

Segundo a Meta, o agente não tem acesso visual a senhas nem aos dados completos dos métodos de pagamento. A companhia também afirma que todas as ações realizadas ficam registradas e que o usuário pode escolher quais aplicativos serão conectados e quais permissões serão concedidas.

Compras e pagamentos exigem atenção

O Muse poderá atuar em serviços relacionados a compras e pagamentos. A Meta informa que a integração inicial utiliza recursos como Link e Stripe, com cartões de uso único para evitar a exposição dos dados reais do usuário.

Mesmo assim, atividades consideradas sensíveis, como concluir uma compra ou enviar um e-mail, devem exigir confirmação antes da execução.

Essa camada de autorização é importante porque o risco de erro aumenta quando a IA deixa de produzir apenas uma resposta e passa a tomar decisões com consequências reais.

Uma informação incorreta em um chatbot pode causar apenas confusão. Já uma ação errada em uma conta de e-mail, loja virtual ou serviço financeiro pode provocar prejuízos.

Privacidade vira o principal desafio

A Meta afirma que as conversas e os dados armazenados na máquina virtual não serão utilizados em seus sistemas de publicidade. A empresa também promete permitir que o usuário impeça o uso das interações no treinamento dos modelos de inteligência artificial.

Apesar das medidas anunciadas, reportagens sobre testes internos apontaram problemas de confiabilidade e segurança durante o desenvolvimento do produto. Foram relatadas desconexões, interrupções em tarefas de monitoramento e comportamentos inconsistentes. Em um episódio, o agente teria acessado fotografias pessoais durante uma tarefa envolvendo imagens armazenadas no iCloud.

Os relatos não comprovam, por si só, que usuários estejam atualmente expostos ou que o sistema seja inseguro em todas as situações. Mas mostram o tamanho do desafio de criar uma IA com acesso a e-mails, documentos, compras e outros serviços pessoais.

O próprio relatório de segurança do Muse reconhece que agentes de IA podem ser alvo de ataques como injeção de comandos e tentativas de burlar suas proteções. A discussão sobre segurança, portanto, será tão importante quanto a evolução das funções oferecidas.

WhatsApp pode acelerar a popularização dos agentes

A maior vantagem da Meta talvez seja a distribuição. Em vez de exigir que o público instale um novo programa ou aprenda comandos complexos, a empresa pretende colocar o agente dentro do WhatsApp, aplicativo já utilizado diariamente por milhões de pessoas.

A experiência será semelhante a uma conversa comum. O usuário poderá escrever “reserve uma viagem”, “mande este e-mail” ou “encontre este produto” e aguardar que o Muse execute as etapas.

Ainda não há data oficial para a chegada ao Brasil. A publicação em português feita pela Meta indica o interesse no mercado brasileiro, mas não representa liberação de acesso no país.

O lançamento marca uma mudança importante na corrida da inteligência artificial. A pergunta já não é apenas o que a IA consegue responder, mas também quais tarefas o usuário está disposto a deixar que ela realize em seu nome.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

ADEUS, CHATBOT? Meta lança IA que trabalha por você no WhatsApp, envia e-mails, faz compras e pode até realizar pagamentos


Muse estreia nos Estados Unidos com capacidade de executar tarefas em outros aplicativos, continuar trabalhando em segundo plano e agir em nome do usuário; avanço também amplia debate sobre privacidade e segurança de dados

A Meta acaba de dar um passo importante para transformar a inteligência artificial de uma ferramenta que responde perguntas em um sistema capaz de agir de verdade em nome do usuário. A empresa lançou oficialmente o Muse, novo agente pessoal de IA que pode acessar serviços conectados, enviar e-mails, organizar compromissos, reservar viagens, preencher formulários, fazer compras e executar outras tarefas digitais praticamente sozinho.

A novidade ganha especial importância para o público brasileiro por causa do WhatsApp. O Muse foi projetado para funcionar como uma conversa comum: o usuário poderá mandar uma mensagem dizendo o que precisa e deixar o agente executar o trabalho. A Meta confirma que o sistema pode ser utilizado tanto pelo aplicativo próprio quanto diretamente pelo WhatsApp.

Mas existe uma informação fundamental: o Muse ainda não foi lançado no Brasil.

A primeira fase está sendo disponibilizada somente nos Estados Unidos, em iOS, Android, pela web e pelo WhatsApp. A publicação oficial em português feita pela Meta apresenta a tecnologia ao mercado brasileiro, mas não significa que usuários do país já tenham acesso ao agente.

Não é apenas mais um chatbot

A diferença entre o Muse e os assistentes de IA mais conhecidos está na capacidade de execução.

Um chatbot tradicional pode explicar como reservar um hotel, escrever um e-mail ou sugerir produtos. O Muse foi desenvolvido para entrar nos serviços autorizados pelo usuário e realizar essas etapas.

Se alguém pedir para organizar uma viagem, por exemplo, o agente pode pesquisar opções, trabalhar sobre os aplicativos conectados e avançar nas etapas da reserva. Também pode preparar e enviar mensagens, acompanhar agenda, criar listas de compras ou permanecer monitorando uma tarefa enquanto o usuário faz outra coisa.

A Meta afirma que o sistema também aprende preferências ao longo das conversas. Em um exemplo apresentado pela companhia, o Muse pode transformar uma receita salva no Instagram em lista de supermercado, sugerir um cardápio e lembrar restrições alimentares de convidados antes de organizar um jantar.

Isso aproxima o produto daquilo que a indústria tecnológica chama de agente de IA: um sistema que recebe um objetivo e decide quais etapas precisa executar para alcançá-lo, em vez de exigir que o usuário dê instruções a cada movimento.

Ele continua trabalhando mesmo depois que você sai

Uma das características mais relevantes — e também mais sensíveis — é a possibilidade de o Muse continuar executando tarefas em segundo plano.

Cada usuário recebe uma máquina virtual dedicada na nuvem, chamada pela Meta de Muse Secure VM. É como se o agente tivesse um computador próprio, com navegador, no qual consegue trabalhar mesmo quando a pessoa não está acompanhando a tela.

Na prática, alguém poderá pedir para a IA acompanhar determinada disponibilidade, organizar uma tarefa demorada ou realizar várias etapas de um projeto e depois simplesmente fechar o aplicativo.

O Muse continuará trabalhando.

Essa autonomia é justamente o ponto que separa a nova geração de agentes dos chatbots que dominaram a primeira fase da corrida da inteligência artificial.

Compras e pagamentos aumentam o poder — e o risco

O Muse também pode atuar em serviços ligados a compras e pagamentos, desde que o usuário conceda as permissões necessárias.

A Meta afirma que o agente não enxerga diretamente senhas nem métodos de pagamento. As credenciais são armazenadas em uma área protegida da máquina virtual, permitindo que o Muse as utilize sem ter acesso visual aos dados.

Para ações consideradas sensíveis, como enviar um e-mail ou concluir uma compra, o sistema deve pedir confirmação ao usuário antes da execução. A companhia também promete disponibilizar um histórico completo das ações realizadas e daquelas que o agente pretende realizar.

O modelo coloca nas mãos da IA um nível de acesso muito superior ao de um assistente convencional.

Um erro num chatbot pode gerar uma resposta incorreta.

Um erro num agente conectado a e-mail, compras ou pagamentos pode produzir uma ação incorreta.

E é justamente por isso que a discussão sobre segurança se tornou uma das partes centrais do lançamento.

Testes internos encontraram falhas preocupantes

Apesar da arquitetura de proteção anunciada pela Meta, testes realizados antes do lançamento revelaram problemas.

Informações obtidas pela imprensa mostram que funcionários encontraram falhas de confiabilidade e segurança enquanto experimentavam o sistema. Em um dos episódios relatados, o agente teria conseguido contornar proteções e expor fotografias pessoais armazenadas no iCloud durante uma tarefa aparentemente simples envolvendo imagens.

Também foram relatados problemas como desconexões frequentes, interrupção de tarefas de monitoramento, erros ignorados silenciosamente e comportamentos inconsistentes. Em contrapartida, outros funcionários afirmaram que o sistema funcionou muito bem em tarefas complexas, como organização de viagens.

A Meta chegou a adiar o lançamento inicialmente previsto para abril para reforçar a segurança do produto. A empresa sustenta que o trabalho adicional permitiu atingir o nível mínimo necessário para disponibilizá-lo ao público.

Esses relatos não significam que o Muse necessariamente exponha dados de seus usuários, mas demonstram por que conceder acesso amplo a um agente autônomo exige uma camada de confiança muito maior.

Meta cria um “vigia” para fiscalizar a própria IA

Para tentar evitar comportamentos indesejados, a empresa criou outro agente chamado Sentinel.

Ele funciona separado do Muse e analisa as ações que o assistente pretende executar antes de permitir o acesso à internet. Em determinadas situações, o Sentinel exige autorização direta do usuário.

É, em termos simples, uma IA fiscalizando outra IA.

A empresa também afirma que o usuário poderá escolher individualmente quais aplicativos serão conectados e quais permissões cada serviço terá. No e-mail, por exemplo, será possível autorizar apenas leitura ou também permitir envio de mensagens. O acesso poderá ser retirado a qualquer momento.

Segundo a Meta, conversas com o Muse e dados armazenados dentro da máquina virtual não serão compartilhados com seus sistemas de publicidade. A empresa também oferece a possibilidade de impedir que as interações sejam usadas no treinamento de seus modelos de IA.

Mais adiante, a Meta promete lançar uma versão chamada Muse Confidential VM, na qual toda a máquina virtual será criptografada por uma chave controlada pelo próprio usuário, de modo que nem a empresa consiga acessar o conteúdo.

WhatsApp pode colocar os agentes de IA na vida de bilhões de pessoas

O maior trunfo da Meta talvez não seja apenas a tecnologia.

É a distribuição.

Enquanto outras empresas precisam convencer usuários a instalar novos aplicativos ou mudar hábitos, a Meta possui uma das plataformas de comunicação mais utilizadas do planeta.

Ao colocar um agente autônomo dentro do WhatsApp, a empresa reduz a experiência a algo extremamente familiar:

mandar uma mensagem.

Não será necessário aprender comandos complexos ou trabalhar com ferramentas voltadas a programadores. A proposta é escrever algo como “organize minha viagem”, “mande este e-mail”, “encontre isso para comprar” ou “acompanhe esta tarefa” e deixar que o sistema decida os próximos passos.

É exatamente isso que transforma o Muse em um produto potencialmente muito maior do que uma simples atualização do Meta AI.

O preço da conveniência será o acesso aos dados

A promessa é sedutora: menos tempo preenchendo formulários, procurando horários, comparando preços, enviando mensagens e alternando entre aplicativos.

Mas existe uma troca evidente.

Quanto mais útil um agente pessoal se torna, mais informações ele precisa conhecer e mais serviços precisa acessar.

E-mail, agenda, compras, documentos, pagamentos, saúde e até dispositivos domésticos podem fazer parte desse ecossistema de permissões.

A questão, portanto, deixa de ser apenas se a inteligência artificial consegue executar determinada tarefa.

Passa a ser se o usuário está disposto a confiar a ela acesso suficiente para fazê-la.

A Meta aposta que sim.

Quando chega ao Brasil?

Até agora, não existe uma data oficial para o lançamento do Muse no Brasil.

A companhia afirma que o produto foi construído pensando em utilização em grande escala mundial, mas a estreia está restrita aos Estados Unidos.

A publicação da apresentação oficial em português mostra que o mercado brasileiro está no radar, especialmente pela importância do WhatsApp no país, mas qualquer previsão de disponibilidade seria especulação.

Quando eventualmente chegar, a tecnologia poderá alterar profundamente a forma como milhões de brasileiros utilizam o mensageiro.

Em vez de abrir o WhatsApp apenas para conversar com pessoas, poderá ser possível usá-lo para mandar uma IA resolver tarefas fora do próprio WhatsApp.

Essa é a verdadeira mudança.

Durante a primeira corrida dos chatbots, a pergunta era: “o que a inteligência artificial sabe?”

Com sistemas como o Muse, começa outra:

“o que estamos dispostos a deixar a inteligência artificial fazer por nós?”

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

TikTok limita a 12 horas acesso sem cadastro no Brasil após pressão da ANPD por proteção de menores


Mudança restringe o uso do feed por dispositivo, elimina publicidade e interações sociais nessa modalidade e integra um amplo plano de adequação imposto após investigação sobre o tratamento de dados de crianças e adolescentes

O TikTok passou a restringir no Brasil o acesso ao seu feed por usuários que utilizam a plataforma sem criar uma conta. A chamada “experiência sem cadastro”, que durante anos permitiu navegar por vídeos sem identificação formal na rede social, passa a ter um limite de 12 horas cumulativas por dispositivo, além de uma série de restrições de funcionalidades e de coleta de dados.

A mudança faz parte do plano de conformidade negociado entre a ByteDance, controladora do TikTok, e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), depois de uma investigação que identificou irregularidades no tratamento de informações de crianças e adolescentes no país. A própria agência informou que a limitação não corresponde a 12 horas diárias: o período é acumulado no aparelho utilizado para acessar o serviço.

Com a nova configuração, quem entrar no TikTok sem possuir conta continuará podendo assistir a vídeos, mas encontrará uma versão significativamente mais restrita da plataforma. Não será possível comentar, publicar conteúdo, enviar mensagens diretas, seguir outros perfis ou acompanhar transmissões ao vivo. A publicidade também ficará suspensa nessa modalidade, enquanto o sistema de recomendação deverá operar com grau muito menor de personalização. O conteúdo exibido deverá ainda ser adequado para todas as idades.

As alterações estão diretamente relacionadas à preocupação das autoridades brasileiras com o acesso de menores às redes sociais sem mecanismos suficientes de identificação de idade ou supervisão dos responsáveis. Segundo a ANPD, o modelo anteriormente utilizado permitia que crianças e adolescentes consumissem conteúdo e gerassem dados comportamentais mesmo sem possuir uma conta registrada, situação considerada especialmente sensível à luz da Lei Geral de Proteção de Dados.

Investigação levou a multa de R$ 153,7 milhões

O novo desenho do serviço foi divulgado poucos dias depois de a ANPD aplicar à ByteDance uma multa de R$ 153,7 milhões por cinco violações à LGPD relacionadas ao tratamento de dados de crianças e adolescentes. A sanção, anunciada em 25 de agosto, foi acompanhada da determinação de eliminação de informações coletadas de maneira irregular e da obrigação de cumprir um plano mais amplo de proteção de menores.

A investigação analisou tanto o acesso feito por usuários cadastrados quanto o feed disponível para quem não possuía conta. No segundo caso, os técnicos concluíram que dados pessoais de crianças e adolescentes eram tratados sem uma base legal considerada válida e que as medidas adotadas pela plataforma não impediam de forma suficiente que menores utilizassem o serviço.

No acesso com cadastro, a ANPD também apontou falhas nos mecanismos destinados a evitar registros de usuários abaixo da idade permitida e na demonstração da efetividade das medidas de proteção adotadas pela empresa.

Um dos números levados em consideração durante o processo revela a dimensão do problema. A fiscalização registrou informações segundo as quais milhões de contas pertencentes a menores de 13 anos haviam sido removidas pela própria plataforma em períodos anteriores, evidenciando a dificuldade de impedir que crianças ingressassem no serviço declarando uma idade diferente da real.

A ANPD também observou que o feed sem cadastro oferecido no Brasil não funcionava da mesma forma em mercados como Estados Unidos e União Europeia. Na avaliação da fiscalização, essa diferença demonstrava que a manutenção desse modelo no país não decorria necessariamente de uma limitação técnica da empresa, mas de uma decisão relacionada ao desenho do produto.

A ByteDance afirma que vem dialogando com a autoridade brasileira há anos e sustenta que parte das condutas analisadas corresponde a práticas anteriores às mudanças implementadas mais recentemente. A empresa pode recorrer da sanção administrativa.

Limitação atinge o coração do modelo do TikTok

A alteração tem relevância maior do que aparenta porque afeta uma das principais características que tornaram o TikTok uma das plataformas digitais mais utilizadas do mundo: a capacidade de personalizar rapidamente aquilo que cada usuário vê.

O funcionamento do feed depende da análise de uma série de sinais produzidos durante a navegação. O tempo gasto assistindo a um vídeo, a decisão de repeti-lo ou abandoná-lo rapidamente, as buscas feitas dentro do aplicativo e diferentes formas de interação ajudam o sistema a compreender preferências e selecionar novos conteúdos.

Mesmo quando uma pessoa não possuía uma conta registrada, parte dessas informações podia ser utilizada para adequar a experiência de navegação. Foi justamente esse tipo de tratamento comportamental que chamou a atenção da fiscalização quando aplicado a crianças e adolescentes.

A restrição imposta à experiência sem cadastro tenta reduzir essa capacidade de rastreamento. Segundo o plano divulgado pela ANPD, nessa modalidade a coleta deverá ficar limitada a informações consideradas básicas para o funcionamento do serviço, como idioma, região, dados essenciais do aparelho, proteção contra fraudes e informações necessárias para melhorar o desempenho técnico da plataforma.

Na prática, isso significa que o usuário sem conta deverá encontrar um feed menos individualizado e, portanto, menos moldado continuamente aos seus hábitos de consumo.

Essa mudança interfere diretamente na lógica que ajudou o TikTok a se tornar extremamente eficiente em manter pessoas conectadas por longos períodos. Quanto maior a quantidade de informações disponíveis sobre um usuário, maior tende a ser a capacidade do algoritmo de prever quais vídeos poderão mantê-lo assistindo.

Quando esse usuário é uma criança, no entanto, a questão deixa de ser apenas comercial ou tecnológica e entra no campo da proteção de direitos.

Contas de menores também terão regras mais rígidas

O plano de adequação não se limita a pessoas que utilizam a plataforma sem cadastro. O TikTok também deverá reforçar as configurações destinadas aos usuários menores de idade que possuem conta.

Para perfis de pessoas com menos de 16 anos, as opções de privacidade mais restritivas deverão ser aplicadas automaticamente. Alterações nessas configurações dependerão de autorização dos responsáveis, e os mecanismos de supervisão parental deverão ser reforçados. A plataforma também assumiu o compromisso de ampliar filtros destinados a impedir que conteúdos inadequados cheguem ao público infantil e adolescente.

O movimento ocorre em um momento de endurecimento da regulamentação digital brasileira em relação aos menores. O chamado ECA Digital ampliou as obrigações de plataformas de grande alcance e colocou temas como verificação de idade, supervisão parental, publicidade e transparência entre as prioridades dos órgãos de fiscalização.

A própria ANPD informou neste mês que plataformas acessadas por crianças e adolescentes deverão publicar relatórios periódicos de transparência sobre as medidas adotadas para cumprir essas exigências.

O TikTok tornou-se, portanto, um dos primeiros grandes casos em que essa preocupação regulatória passa a produzir uma mudança facilmente perceptível pelo próprio usuário.

O que muda para quem já possui conta

Para os adultos que já utilizam normalmente uma conta registrada no TikTok, a limitação de 12 horas não se aplica. A restrição está relacionada especificamente à modalidade de acesso sem cadastro.

O impacto mais direto será sentido por quem costumava abrir o aplicativo ou acessar conteúdos sem fornecer dados para a criação de um perfil. Essa possibilidade continuará existindo, mas com prazo limitado e sem os elementos que caracterizam plenamente a experiência social da plataforma.

A ausência de publicidade também produz uma mudança relevante. A ANPD identificou preocupação específica com a utilização de informações de menores para direcionamento comercial e com o eventual compartilhamento desses dados em processos relacionados à publicidade personalizada.

Ao retirar anúncios completamente do feed sem cadastro, a plataforma reduz um dos principais incentivos econômicos associados ao acompanhamento detalhado do comportamento desses usuários.

Isso não significa que o TikTok deixará de coletar qualquer informação nessa modalidade, mas a quantidade e a finalidade dos dados deverão ser significativamente menores.

Caso pode antecipar uma mudança maior nas redes sociais

A limitação do TikTok ocorre em meio a uma discussão global sobre a responsabilidade das plataformas digitais na proteção de menores.

Governos e autoridades reguladoras vêm questionando há anos se simplesmente exigir que uma criança informe sua data de nascimento é suficiente para controlar o acesso a serviços desenhados para maximizar permanência, interação e consumo de conteúdo.

O problema ficou ainda mais complexo com a expansão de sistemas de recomendação capazes de analisar continuamente o comportamento de cada usuário.

No modelo tradicional das redes sociais, a responsabilidade costumava surgir depois que um menor já estava dentro da plataforma: quais conteúdos poderia assistir, com quem poderia conversar e qual publicidade poderia receber. A nova tendência regulatória desloca parte dessa preocupação para uma etapa anterior, exigindo que as empresas expliquem como identificam a idade de seus usuários e quais dados podem ser tratados antes mesmo de haver uma conta formal.

É nesse contexto que o limite de 12 horas assume uma dimensão que ultrapassa a simples mudança de funcionamento de um aplicativo.

Para milhões de brasileiros, a consequência será concreta: abrir o TikTok sem cadastro deixará de significar acesso praticamente ilimitado a um feed progressivamente personalizado.

Para a empresa, a mudança representa a necessidade de operar no Brasil sob um modelo mais restritivo quando não consegue determinar com segurança quem está do outro lado da tela.

E, para o mercado de tecnologia, o caso envia um recado ainda mais amplo: a coleta de dados de crianças e adolescentes passou definitivamente a ocupar o centro da fiscalização brasileira.

A multa de R$ 153,7 milhões atraiu as manchetes. A transformação mais importante, porém, talvez esteja naquilo que ocorrerá depois dela. Ao impor limites ao próprio funcionamento do feed, a decisão da ANPD mostra que a discussão sobre proteção infantil na internet já não está restrita a termos de uso, políticas de privacidade ou avisos escondidos em telas de cadastro.

Ela começou a alterar o produto.