Mostrando postagens com marcador tecnologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador tecnologia. Mostrar todas as postagens

sábado, 26 de setembro de 2026

O CEP NÃO PODE DECIDIR O FUTURO: Ferreirinha coloca formação e oportunidades para jovens das periferias no centro da disputa federal


Da expansão dos Ginásios Educacionais Tecnológicos à Olimpíada Carioca de Matemática, trajetória do candidato a deputado federal reúne políticas que aproximaram ensino integral, ciência e tecnologia de territórios historicamente deixados para trás

O talento de uma criança não muda conforme o bairro onde ela nasceu. As oportunidades, porém, ainda mudam — e muito.

Para milhares de jovens das periferias, a distância entre o potencial e o futuro começa na falta de acesso a uma escola em tempo integral, laboratórios, tecnologia, formação científica e experiências capazes de ampliar horizontes.

É sobre essa desigualdade que Renan Ferreirinha, candidato a deputado federal pelo PSD, procura construir uma das principais marcas de sua atuação pública.

Nascido e criado em São Gonçalo e formado em Economia e Ciências Políticas em Harvard, Ferreirinha iniciou sua trajetória em movimentos ligados à educação e ao protagonismo jovem antes de assumir funções no Legislativo e na gestão de uma das maiores redes municipais de ensino do país.

O ponto central de sua agenda não é apenas colocar o jovem dentro da escola. É fazer com que a escola pública ofereça estrutura, repertório e caminhos para que o endereço de origem não funcione como uma sentença sobre o destino.

Da Maré para o mundo

Um dos retratos mais recentes dessa visão veio do Complexo da Maré.

Em agosto de 2026, o GET IV Centenário conquistou, em Pequim, o Practice Innovation Prize, uma das categorias do Global Smart Education Innovation Prize.

O reconhecimento foi concedido ao projeto “Fábrica de Sonhos”, que combina aprendizagem por projetos, tecnologia, ações socioemocionais e participação das famílias.

Localizada na comunidade do Timbau, a unidade também esteve entre as dez finalistas do World’s Best School Prizes de 2026 na categoria Superação de Adversidades.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, a escola alcançou 97% de alfabetização e não registrou evasão. Os resultados são fruto do trabalho coletivo de professores, gestores, estudantes, famílias e equipes da rede.

Ao mesmo tempo, o reconhecimento internacional ajuda a dimensionar uma política iniciada e ampliada durante a gestão de Ferreirinha na Educação do Rio: os Ginásios Educacionais Tecnológicos, os GETs.

Lançado em 2022, o modelo chegou a 316 unidades em 2026. Nos GETs, o ensino integral é combinado com ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática.

Os estudantes desenvolvem projetos interdisciplinares e utilizam recursos como robótica, inteligência artificial, impressoras 3D, cortadoras a laser e óculos de realidade virtual.

O diferencial não está apenas nos equipamentos. A proposta integra tecnologia ao currículo, incentiva a criatividade, fortalece o protagonismo dos alunos e aproxima a escola dos desafios de cada território.

Quando a rede inaugurou a unidade de número 300, em março de 2026, a Prefeitura informou que o modelo já atendia aproximadamente 125 mil estudantes.

Para jovens das periferias, isso significa acesso, dentro da escola pública, a ferramentas que durante muito tempo ficaram restritas a ambientes privados ou a famílias com maior renda.

Reconhecer talentos e abrir portas

Outra iniciativa associada à gestão de Ferreirinha foi a Olimpíada Carioca de Matemática, criada em parceria com o Instituto de Matemática Pura e Aplicada, o Impa.

Em cinco edições, a competição acumulou mais de 1,6 milhão de inscrições e premiou 264 estudantes com viagens educacionais.

Em janeiro de 2026, 44 alunos embarcaram para conhecer a Disney e a Nasa, nos Estados Unidos. Entre eles estavam estudantes de territórios como Ponto Chic, em Padre Miguel, e Morro do Juramento, em Vicente de Carvalho.

As histórias mostram o alcance simbólico da iniciativa: a medalha deixa de representar somente um prêmio escolar e passa a funcionar como porta de entrada para novas referências, possibilidades profissionais e projetos de vida.

Ao comentar a premiação, Ferreirinha afirmou que “nossos jovens têm um potencial único” e que a olimpíada “abre portas para o futuro”. A declaração dialoga com sua própria trajetória, marcada pela participação em competições de matemática na juventude.

É importante observar que o número divulgado corresponde às inscrições acumuladas nas cinco edições, e não necessariamente a 1,6 milhão de estudantes diferentes. Ainda assim, a escala mostra como uma política de reconhecimento pode mobilizar a rede e identificar talentos que poderiam permanecer invisíveis.

Oportunidade também começa com permanência

Nenhum programa de formação ou tecnologia alcança seu objetivo se o estudante deixa de frequentar a escola.

Por isso, o combate à evasão também integra esse conjunto de políticas. O Bora Pra Escola combinou registro diário de frequência, telefonemas, mensagens, busca ativa e articulação com conselhos escolares e associações de moradores.

Segundo a Secretaria Municipal de Educação, aproximadamente 24 mil estudantes foram localizados e levados de volta às salas de aula desde 2023.

A busca ativa tem impacto especial nos territórios mais vulneráveis, onde a ausência escolar pode estar relacionada a problemas de renda, insegurança alimentar, violência, trabalho precoce ou dificuldades familiares.

Trazer o aluno de volta não é apenas uma medida administrativa. É reconstruir o vínculo com um direito básico e impedir que uma interrupção temporária se transforme em exclusão permanente.

Da experiência local para uma política nacional

A candidatura de Ferreirinha a deputado federal coloca uma questão objetiva: quais partes dessa experiência podem ser transformadas em políticas para outros municípios e estados?

Na Câmara, um parlamentar não administra diretamente escolas nem implanta sozinho uma rede de GETs. Seu papel é criar leis, disputar prioridades no Orçamento, fiscalizar políticas públicas e construir condições para que estados e municípios possam ampliar programas de educação integral e inovação.

Ferreirinha já apresentou o Projeto de Lei 2.752/2023, que aumenta para 1,50 a ponderação do Fundeb destinada às matrículas em tempo integral.

Na prática, a proposta busca elevar o valor considerado no financiamento por aluno e dar maior capacidade financeira às redes que ampliarem a jornada escolar.

O projeto, contudo, ainda não é lei. A proposta aguarda parecer na Comissão de Educação da Câmara e dependerá de negociação política, análise das comissões e aprovação do Congresso.

Se eleito, Ferreirinha poderá retomar essa agenda em Brasília e defender recursos federais para laboratórios, conectividade, formação de professores, educação integral e projetos de ciência e tecnologia.

O desafio será transformar uma experiência municipal em política escalável, respeitando as diferenças entre as redes e garantindo financiamento permanente.

Tecnologia sozinha não resolve

Os resultados apresentados pelos GETs apontam um caminho, mas também exigem cautela.

Equipamentos modernos, por si só, não garantem aprendizagem. Uma política consistente depende de professores valorizados e preparados, manutenção, internet de qualidade, alimentação, segurança, acompanhamento pedagógico e continuidade entre o ensino fundamental, o ensino médio e a formação profissional.

Também é necessário avaliar os resultados, comparar escolas e impedir que a inovação fique concentrada em poucas unidades. Expandir o modelo significa preservar sua qualidade — não apenas multiplicar uma marca.

É nesse ponto que a experiência de gestão se encontra com a missão parlamentar. Levar oportunidades para jovens das periferias exige mais do que anunciar projetos: exige orçamento, metas, transparência e capacidade de execução.

Ferreirinha chega à disputa federal apresentando como credencial políticas que saíram do papel e alcançaram estudantes reais. O prêmio internacional conquistado por uma escola pública da Maré torna essa mensagem ainda mais concreta.

O futuro de um jovem não deveria ser definido pelo CEP. Para mudar essa realidade em escala nacional, será preciso fazer com que qualidade, tecnologia e oportunidades deixem de ser exceção e passem a fazer parte do cotidiano da escola pública brasileira.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

GETS PARA TODO O ESTADO: proposta de Paes coloca experiência liderada por Ferreirinha no centro do futuro da educação fluminense


Candidato ao Governo do Rio promete levar gradualmente o modelo tecnológico à rede estadual; candidato a deputado federal, Ferreirinha comandou a expansão na capital e é autor de projeto que amplia recursos do Fundeb para o ensino integral

O modelo de escola que transformou parte da rede municipal do Rio pode começar a ganhar escala estadual. O candidato ao Governo do Estado Eduardo Paes anunciou que pretende levar o conceito dos Ginásios Educacionais Tecnológicos, os GETs, para escolas de todas as regiões fluminenses.

A proposta foi apresentada durante uma visita ao GET Luiz Paulo Horta, na Rocinha. Paes afirmou que a implantação seria gradual e teria como eixos ciência, tecnologia e Matemática.

Ao lado dessa discussão aparece Renan Ferreirinha, candidato a deputado federal pelo PSD e gestor que comandou a Secretaria Municipal de Educação durante o período de criação e forte expansão do programa na capital.

A combinação das duas candidaturas desenha uma divisão objetiva de responsabilidades. Ao Governo do Estado caberia planejar, financiar e executar a transformação das unidades estaduais. Em Brasília, Ferreirinha poderia atuar na legislação, no orçamento e na articulação de recursos federais para ampliar o ensino em tempo integral.

Não se trata, portanto, de anunciar que os GETs já serão implantados em todo o estado. A medida é uma proposta eleitoral de Paes e dependerá do resultado das urnas, de planejamento, orçamento, formação de profissionais e adaptação do modelo à realidade da rede estadual.

Paes assume compromisso de expansão estadual

Durante a visita realizada em setembro, Eduardo Paes declarou que pretende levar o conceito dos GETs para as escolas do Estado do Rio de Janeiro.

“A ideia é levar esse conceito dos GETs, com muita ciência, tecnologia e matemática, para todas as escolas do Rio de Janeiro”, afirmou Paes.

Segundo o candidato, a transformação deverá ser feita aos poucos, aproveitando a experiência acumulada na capital.

Na cidade do Rio, o programa começou em março de 2022. Em setembro de 2026, a rede carioca chegou a 317 escolas transformadas em GETs. A meta municipal anunciada é alcançar 500 unidades até o fim de 2028.

O número representa escolas implantadas ou convertidas para o modelo pedagógico, e não a construção de 317 novos prédios. Em maio, quando a rede possuía 308 unidades, a Prefeitura informava atendimento superior a 125 mil alunos.

A expansão estadual permitiria que a experiência alcançasse não apenas a capital, mas também a Baixada Fluminense, o Leste Metropolitano, a Região dos Lagos, o Norte e o Noroeste, a Região Serrana, o Médio Paraíba, o Centro-Sul e a Costa Verde.

Para isso, o programa precisará ser adaptado às características de cada território. Uma escola localizada em uma região ligada à indústria, por exemplo, pode desenvolver projetos diferentes de uma unidade inserida em cidades com vocação turística, agrícola, energética ou audiovisual.

O que diferencia um GET

Os Ginásios Educacionais Tecnológicos funcionam em tempo integral e utilizam metodologias ativas, nas quais os estudantes participam da construção de projetos, da investigação e da solução de problemas.

O modelo adota a abordagem STEAM, sigla em inglês que reúne Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. A proposta é integrar essas áreas em atividades práticas, evitando que a tecnologia seja tratada como um conteúdo isolado do restante do currículo.

Uma das principais estruturas é o colaboratório, espaço de aprendizagem “mão na massa”. Dependendo da unidade, os estudantes utilizam inteligência artificial, impressoras 3D, cortadoras a laser, computadores, óculos de realidade virtual, kits de robótica e até máquinas de costura para desenvolver projetos interdisciplinares.

O objetivo não é simplesmente colocar equipamentos dentro das escolas. A transformação exige currículo, jornada ampliada, formação de professores e integração entre tecnologia e aprendizagem. Sem esses elementos, laboratórios sofisticados correm o risco de se tornar espaços subutilizados.

O Ministério da Educação selecionou o modelo entre as experiências inspiradoras de gestão e de projetos pedagógicos em ensino integral. A experiência foi contemplada em iniciativas de intercâmbio, documentação e exposição de práticas educacionais.

Ferreirinha costuma definir os GETs como os “CIEPs do século XXI”. A comparação recupera a ideia histórica da escola pública de tempo integral, mas acrescenta cultura digital, pensamento computacional, experimentação e projetos ligados aos desafios contemporâneos.

Ferreirinha comandou a expansão na capital

Como secretário municipal de Educação, Renan Ferreirinha esteve à frente da implantação do programa durante a gestão de Eduardo Paes. O modelo saiu das primeiras unidades experimentais, em 2022, para alcançar centenas de escolas distribuídas pela cidade.

Ao apresentar a proposta, Ferreirinha afirmou que os GETs preparam os estudantes para os desafios do mercado de trabalho, estimulam diferentes áreas do conhecimento e ampliam as perspectivas de futuro.

“São os CIEPs do século XXI, com o modelo de escola mais inovador do país”, declarou Ferreirinha ao tratar da expansão do programa na capital.

Sua participação em uma eventual expansão estadual, porém, não seria a de gestor direto da Secretaria de Educação. Como candidato a deputado federal, sua atribuição estaria em outra frente: criar condições nacionais de financiamento e apoio para que estados e municípios consigam manter escolas de jornada ampliada.

Projeto de Ferreirinha aumenta recursos para o ensino integral

Nesse ponto, existe uma iniciativa concreta. Ferreirinha é autor do Projeto de Lei 2.752/2023, apresentado na Câmara dos Deputados, que propõe elevar para 1,50 a ponderação do valor anual por aluno do Fundeb nas matrículas em tempo integral.

Na prática, a proposta busca aumentar o peso dessas matrículas no cálculo da distribuição de recursos, reconhecendo que uma escola funcionando durante mais horas precisa de alimentação, profissionais, materiais, manutenção e estrutura compatíveis com a jornada ampliada.

O projeto ainda não foi aprovado. De acordo com a Câmara, aguarda parecer na Comissão de Educação e depois deverá passar por outras etapas de tramitação. Portanto, não pode ser apresentado como uma lei em vigor.

Mesmo assim, o texto mostra uma conexão objetiva entre a experiência administrativa de Ferreirinha e sua atuação parlamentar: ampliar a educação integral exige não apenas defender o modelo, mas discutir de onde virá o dinheiro para sustentá-lo.

Um modelo estadual não pode ser simples cópia

Levar os GETs para todas as regiões do Rio exigirá mais do que reproduzir laboratórios e trocar placas de escolas. A rede estadual possui características diferentes da rede municipal da capital e concentra grande parte de sua atuação nos anos finais e, principalmente, no ensino médio.

Uma política estadual precisará definir quais unidades serão priorizadas, como ocorrerá a formação dos professores, quais escolas possuem estrutura para o turno integral e de que maneira o modelo será associado à educação profissional.

Também será necessário garantir alimentação, transporte escolar e condições de permanência. Em áreas rurais ou municípios nos quais os estudantes percorrem longas distâncias, ampliar o horário sem reorganizar o transporte pode criar novos problemas.

A implantação gradual anunciada por Paes pode permitir projetos-piloto em diferentes regiões, avaliação dos resultados e correção de falhas antes da ampliação. Escolas instaladas em antigos CIEPs podem ter vantagens estruturais, mas cada prédio precisará passar por avaliação técnica.

Outro cuidado será evitar que a tecnologia seja confundida com solução automática. Impressoras 3D, robótica e inteligência artificial podem ampliar as possibilidades pedagógicas, mas não substituem professores valorizados, planejamento, conectividade, currículo e acompanhamento da aprendizagem.

Da capital para o interior

A proposta de levar os GETs a todo o estado estabelece uma ponte política clara entre Eduardo Paes e Renan Ferreirinha. Paes apresenta o compromisso de expandir o modelo pela rede estadual; Ferreirinha carrega a experiência da implantação municipal e uma proposta legislativa voltada ao financiamento da educação integral.

Para municípios do interior, a articulação federal também pode abrir caminhos para cooperação técnica, programas nacionais, formação de professores e investimentos que não dependam exclusivamente dos cofres locais.

O potencial da proposta está justamente em combinar escala estadual, experiência de gestão e apoio federal. Seu sucesso, entretanto, dependerá de metas públicas, orçamento, profissionais qualificados e avaliação transparente dos resultados.

Os GETs demonstraram que escolas públicas podem incorporar tecnologia, criatividade e aprendizagem prática sem abandonar os conteúdos fundamentais. O próximo desafio será provar que o modelo consegue ser adaptado às diferentes realidades do Rio de Janeiro e alcançar estudantes da capital, da Região Metropolitana e do interior com a mesma qualidade.

Se essa expansão sair do compromisso eleitoral e chegar efetivamente às salas de aula, a experiência construída por Paes e Ferreirinha na capital poderá se transformar em uma das principais políticas educacionais do próximo ciclo estadual.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Estudos alertam: pessoas podem estar entregando o próprio raciocínio à inteligência artificial


A inteligência artificial promete economizar tempo, organizar informações e ajudar na tomada de decisões. Mas uma série de estudos recentes levanta uma preocupação: ao delegar tarefas mentais às máquinas com frequência, parte dos usuários pode estar deixando de exercitar o próprio raciocínio.

O fenômeno é chamado de “terceirização cognitiva” ou “dependência cognitiva”. Ele ocorre quando uma pessoa deixa de analisar, comparar e questionar uma informação porque espera que a inteligência artificial faça esse trabalho por ela.

IA melhora o resultado imediato, mas pode enfraquecer a autonomia

Um estudo conduzido pelo MIT Media Lab acompanhou 67 pessoas durante quatro semanas em tarefas de identificação de notícias falsas.

Durante as atividades com auxílio de um chatbot, os participantes foram 21% mais precisos na identificação de desinformação. O problema apareceu quando a ferramenta foi retirada.

Ao final do período, o desempenho sem a IA caiu 15 pontos percentuais em relação ao início do experimento. Cerca de um quinto dos participantes também passou a apresentar um comportamento descrito pelos pesquisadores como aceitação mais passiva das respostas do sistema.

Em outras palavras, a IA ajudava a resolver o problema naquele momento, mas nem sempre contribuía para que a pessoa aprendesse a resolvê-lo sozinha.

O estudo teve limitações importantes, como o número reduzido de participantes, o período curto de acompanhamento e a concentração da amostra nos Estados Unidos e no Reino Unido. Os resultados, portanto, não significam que toda utilização de inteligência artificial provoque perda de capacidade crítica.

Confiança excessiva reduz o esforço de verificação

Outra pesquisa, publicada na conferência CHI 2025 por pesquisadores da Microsoft Research e da Carnegie Mellon University, analisou 319 profissionais e 936 exemplos reais de uso de inteligência artificial no trabalho.

O levantamento identificou uma relação entre a confiança depositada na IA e a quantidade de pensamento crítico empregado na tarefa. Quanto maior a confiança no sistema, menor tendia a ser o esforço de análise relatado pelos participantes.

A pesquisa também mostrou que o pensamento crítico não desaparece necessariamente. Ele pode mudar de função: em vez de elaborar a resposta desde o início, o usuário passa a verificar o conteúdo, integrar a resposta ao trabalho e supervisionar o resultado.

O risco surge quando essa supervisão também é abandonada.

O problema não é usar IA. É parar de pensar

Estudos sobre ferramentas digitais mostram que o chamado “descarregamento cognitivo” não é automaticamente negativo. Em determinadas situações, deixar uma tarefa mecânica para a tecnologia pode liberar tempo e energia para atividades mais complexas.

Uma pesquisa publicada em 2026 na Frontiers in Psychology encontrou resultados mais equilibrados: o uso de ferramentas digitais esteve associado a autoconfiança cognitiva, persistência e aprendizagem mais profunda quando os usuários continuavam envolvidos no processo.

A diferença está na forma de uso.

A IA pode funcionar como uma tutora, ajudando a apresentar argumentos, apontar contradições e fazer perguntas. Mas também pode se transformar em uma muleta, entregando respostas prontas que o usuário aceita sem conferir.

Como usar inteligência artificial sem terceirizar o raciocínio

Especialistas recomendam algumas práticas simples:

  • Tente formular uma hipótese antes de pedir a resposta à IA;

  • Solicite argumentos contrários e possíveis erros;

  • Confira informações importantes em fontes independentes;

  • Não trate uma resposta bem escrita como prova de que ela está correta;

  • Reescreva o resultado com suas próprias palavras;

  • Em temas sensíveis, consulte documentos oficiais e profissionais qualificados.

A discussão não é sobre abandonar a inteligência artificial. É sobre impedir que a conveniência substitua capacidades que continuam essenciais: interpretar, duvidar, comparar evidências e tomar decisões.

A pergunta mais importante talvez não seja se a IA consegue pensar.

É se, ao usá-la todos os dias, ainda estamos pensando por conta própria.

Usuários relatam aumento no limite do SParcelado e comparam crédito da Shopee ao Nubank


Usuários brasileiros da Shopee começaram a relatar, em setembro, aumentos nos limites disponíveis no SParcelado, serviço de crédito digital da plataforma.

As mudanças chamaram atenção nas redes sociais porque alguns clientes afirmam ter recebido reajustes considerados expressivos. Parte das publicações também compara a experiência com o Nubank e outros bancos digitais, destacando a rapidez com que o limite teria sido atualizado.

Até o momento, porém, não há confirmação de que a Shopee tenha promovido um aumento geral para todos os usuários.

Segundo a Central de Ajuda da empresa, o limite do SParcelado é definido a partir da análise do perfil do cliente, do histórico de uso e de consultas a bureaus de crédito. A plataforma também informa que realiza revisões periódicas e automáticas.

Pagamentos em dia e uso recorrente podem aumentar as chances de revisão positiva. Em alguns casos, o usuário também pode receber ofertas temporárias de crédito, com prazo específico para aceitação.

A própria Shopee alerta, entretanto, que o limite pode ser reduzido ou congelado após novas análises. Reclamações registradas por consumidores mostram que a experiência não é igual para todos: há relatos de aumento, mas também de cortes, bloqueios e ausência de reajuste mesmo após pagamentos em dia.

Aumento de limite não significa crédito mais barato

O SParcelado funciona como uma linha de crédito dentro do aplicativo. O cliente pode comprar sem utilizar um cartão convencional, mas a operação pode incluir juros, que variam conforme o perfil, a categoria do produto e as condições apresentadas no momento da contratação.

Antes de concluir a compra, o usuário deve conferir o valor total do parcelamento e consultar a Cédula de Crédito Bancário, documento que reúne as informações da operação. Em caso de atraso, podem ser aplicados juros diários, multas e bloqueio do serviço.

As comparações com o Nubank representam percepções individuais e não permitem afirmar, por si só, que o crédito da Shopee seja mais vantajoso. Os produtos têm regras, taxas e critérios diferentes.

O que os relatos revelam é o avanço do crédito integrado às plataformas de comércio eletrônico. Ao oferecer limite diretamente no aplicativo de compras, a Shopee amplia o acesso ao parcelamento, mas também exige que o consumidor avalie com cuidado o custo final de cada operação.

Um limite maior pode facilitar uma compra. Mas também pode aumentar o risco de endividamento quando o consumidor assume parcelas acima da própria capacidade de pagamento.

Cientistas recriam vídeos vistos por camundongos a partir da atividade cerebral


Pesquisadores da University College London conseguiram reconstruir vídeos observados por camundongos usando apenas registros da atividade cerebral dos animais.

O estudo, publicado na revista científica eLife, utilizou imagens do córtex visual — região do cérebro responsável pelo processamento das informações captadas pelos olhos. A equipe acompanhou a atividade de milhares de neurônios enquanto os camundongos assistiam a vídeos de aproximadamente 10 segundos.

Com esses dados, os cientistas desenvolveram um modelo computacional capaz de estimar quais imagens poderiam ter provocado determinada reação neural. O sistema então reconstruiu versões das cenas exibidas aos animais.

Os resultados conseguiram reproduzir movimentos, formas e mudanças visuais presentes nos vídeos originais. A semelhança média entre as imagens reais e as reconstruídas atingiu uma correlação de aproximadamente 0,57 em nível de pixels.

Apesar do avanço, o experimento não significa que os pesquisadores tenham “lido os pensamentos” dos camundongos. O sistema não recuperou um vídeo armazenado na mente dos animais. Ele fez uma reconstrução computacional baseada nos sinais registrados em uma área específica do cérebro.

A técnica também possui limitações. Os pesquisadores analisaram apenas uma parte do córtex visual, com campo de observação restrito. Detalhes muito pequenos e movimentos rápidos foram mais difíceis de reproduzir.

Mesmo assim, o trabalho pode ajudar a entender como o cérebro transforma estímulos visuais em percepção. A pesquisa também reforça que a atividade neural carrega informações suficientes para permitir que algoritmos façam estimativas sobre aquilo que um animal está observando.

Por enquanto, não existe uma aplicação imediata para “reconstruir pensamentos” em seres humanos. O resultado representa, principalmente, uma ferramenta para estudar o funcionamento do cérebro e a forma como a visão é processada.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

IA já ajuda a criar sua própria sucessora — e isso acende novo alerta entre pesquisadores


A inteligência artificial entrou em uma nova fase: além de responder perguntas, escrever códigos e analisar informações, já começa a participar do desenvolvimento de versões mais avançadas de si mesma.

A Anthropic informou que seu modelo Claude já responde por mais de 25% do trabalho de pesquisa e desenvolvimento de novos sistemas da empresa. O chatbot também participa de cerca de 90% das tarefas realizadas pelas equipes de desenvolvimento, sempre com supervisão humana.

A informação foi divulgada em meio ao debate sobre o chamado “autoaperfeiçoamento recursivo”. O conceito descreve o momento em que uma inteligência artificial passa a ajudar a construir uma versão mais poderosa de si própria, criando um ciclo de evolução cada vez mais rápido.

A Anthropic ressalta que o Claude ainda não trabalha de maneira totalmente autônoma. O sistema não decide sozinho quais modelos serão lançados, não controla integralmente os experimentos e continua dependendo de pesquisadores humanos para definir objetivos, avaliar resultados e autorizar mudanças.

Mesmo assim, o avanço representa uma mudança importante na corrida tecnológica. Até pouco tempo, os seres humanos eram responsáveis por praticamente todas as etapas de criação dos modelos. Agora, as próprias ferramentas de IA começam a auxiliar na elaboração de códigos, na realização de testes, na análise de falhas e na busca por melhorias de desempenho.

Segundo a empresa, o Claude já participa de tarefas complexas relacionadas à pesquisa, mas os resultados ainda precisam ser revisados por especialistas. A Anthropic afirma que mantém mecanismos de monitoramento e defende maior transparência entre os laboratórios que desenvolvem modelos avançados.

O receio dos pesquisadores é que a velocidade de evolução ultrapasse a capacidade de fiscalização. Quanto mais a IA participa da criação de sistemas novos, maior se torna a necessidade de verificar se os objetivos continuam sob controle humano e se as ferramentas não desenvolvem comportamentos inesperados.

O avanço também amplia discussões sobre empregos, consumo de energia, segurança digital e concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia. Uma IA capaz de ajudar a desenvolver sua sucessora pode acelerar descobertas e reduzir custos, mas também pode tornar mais difícil compreender completamente como os sistemas chegaram a determinadas decisões.

A notícia, portanto, não significa que uma máquina tenha criado sozinha uma nova inteligência artificial ou tomado o controle de um laboratório. O que existe hoje é uma participação crescente da IA no próprio processo de desenvolvimento tecnológico.

A pergunta que começa a ganhar força é outra: até onde os seres humanos continuarão sendo os principais criadores — e quando passarão a atuar apenas como supervisores de sistemas que ajudam a construir as próximas gerações de inteligência artificial?

Fonte: Folha de S.Paulo e Associated Press.

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Adeus, chatbot? Meta lança IA que trabalha pelo usuário no WhatsApp, faz compras e pode realizar pagamentos


Muse executa tarefas em outros aplicativos, continua trabalhando em segundo plano e chega inicialmente apenas aos Estados Unidos

A Meta lançou o Muse, um novo agente de inteligência artificial desenvolvido para executar tarefas em nome do usuário. Diferentemente dos chatbots tradicionais, que apenas respondem perguntas e produzem textos, o sistema pode enviar e-mails, reservar viagens, preencher formulários, organizar compromissos, fazer compras e interagir com outros aplicativos.

A ferramenta também pode ser utilizada pelo WhatsApp. O usuário envia uma mensagem explicando o que precisa e o agente realiza as etapas necessárias em serviços autorizados. A apresentação oficial da empresa está disponível neste anúncio da Meta.

É importante destacar que o Muse ainda não foi lançado no Brasil. A primeira fase de distribuição está restrita aos Estados Unidos, com acesso por celulares, computador e WhatsApp.

Uma IA que não apenas responde, mas age

A principal diferença do Muse está na capacidade de receber um objetivo e tomar decisões para cumprir uma tarefa.

O usuário poderá pedir, por exemplo, que a IA organize uma viagem. A partir disso, o sistema poderá pesquisar opções, comparar informações, preencher dados e avançar no processo de reserva. Também poderá transformar uma receita salva no Instagram em lista de compras ou ajudar a organizar um jantar levando em conta preferências e restrições alimentares.

Na prática, a proposta é reduzir a necessidade de alternar entre aplicativos e realizar cada etapa manualmente.

A Meta afirma que o Muse também consegue continuar trabalhando em segundo plano, mesmo quando o usuário fecha o aplicativo ou deixa de acompanhar a execução da tarefa.

Sistema trabalha em uma máquina virtual própria

Para realizar essas atividades, o agente utiliza uma máquina virtual exclusiva na nuvem, chamada Muse Secure VM. O ambiente funciona como um computador separado, com navegador próprio, no qual a inteligência artificial pode acessar serviços conectados e cumprir as tarefas autorizadas.

A empresa criou ainda o Sentinel, um sistema independente responsável por analisar as ações do Muse antes que ele acesse a internet. Em determinadas situações, a operação precisa ser autorizada diretamente pelo usuário.

Segundo a Meta, o agente não tem acesso visual a senhas nem aos dados completos dos métodos de pagamento. A companhia também afirma que todas as ações realizadas ficam registradas e que o usuário pode escolher quais aplicativos serão conectados e quais permissões serão concedidas.

Compras e pagamentos exigem atenção

O Muse poderá atuar em serviços relacionados a compras e pagamentos. A Meta informa que a integração inicial utiliza recursos como Link e Stripe, com cartões de uso único para evitar a exposição dos dados reais do usuário.

Mesmo assim, atividades consideradas sensíveis, como concluir uma compra ou enviar um e-mail, devem exigir confirmação antes da execução.

Essa camada de autorização é importante porque o risco de erro aumenta quando a IA deixa de produzir apenas uma resposta e passa a tomar decisões com consequências reais.

Uma informação incorreta em um chatbot pode causar apenas confusão. Já uma ação errada em uma conta de e-mail, loja virtual ou serviço financeiro pode provocar prejuízos.

Privacidade vira o principal desafio

A Meta afirma que as conversas e os dados armazenados na máquina virtual não serão utilizados em seus sistemas de publicidade. A empresa também promete permitir que o usuário impeça o uso das interações no treinamento dos modelos de inteligência artificial.

Apesar das medidas anunciadas, reportagens sobre testes internos apontaram problemas de confiabilidade e segurança durante o desenvolvimento do produto. Foram relatadas desconexões, interrupções em tarefas de monitoramento e comportamentos inconsistentes. Em um episódio, o agente teria acessado fotografias pessoais durante uma tarefa envolvendo imagens armazenadas no iCloud.

Os relatos não comprovam, por si só, que usuários estejam atualmente expostos ou que o sistema seja inseguro em todas as situações. Mas mostram o tamanho do desafio de criar uma IA com acesso a e-mails, documentos, compras e outros serviços pessoais.

O próprio relatório de segurança do Muse reconhece que agentes de IA podem ser alvo de ataques como injeção de comandos e tentativas de burlar suas proteções. A discussão sobre segurança, portanto, será tão importante quanto a evolução das funções oferecidas.

WhatsApp pode acelerar a popularização dos agentes

A maior vantagem da Meta talvez seja a distribuição. Em vez de exigir que o público instale um novo programa ou aprenda comandos complexos, a empresa pretende colocar o agente dentro do WhatsApp, aplicativo já utilizado diariamente por milhões de pessoas.

A experiência será semelhante a uma conversa comum. O usuário poderá escrever “reserve uma viagem”, “mande este e-mail” ou “encontre este produto” e aguardar que o Muse execute as etapas.

Ainda não há data oficial para a chegada ao Brasil. A publicação em português feita pela Meta indica o interesse no mercado brasileiro, mas não representa liberação de acesso no país.

O lançamento marca uma mudança importante na corrida da inteligência artificial. A pergunta já não é apenas o que a IA consegue responder, mas também quais tarefas o usuário está disposto a deixar que ela realize em seu nome.

domingo, 13 de setembro de 2026

Líderes da inteligência artificial pedem freio na corrida por modelos mais poderosos


Dario Amodei, Sam Altman e Elon Musk defendem mais cautela, monitoramento independente e coordenação internacional para reduzir os riscos da tecnologia

Um movimento incomum entre alguns dos principais nomes da indústria de inteligência artificial ganhou força neste domingo (13). Dario Amodei, presidente-executivo da Anthropic, defendeu que as empresas reduzam o ritmo de avanço dos modelos mais sofisticados de IA até que os mecanismos de segurança consigam acompanhar a velocidade da tecnologia.

A posição ganhou ainda mais repercussão porque recebeu apoio de Sam Altman, CEO da OpenAI, e Elon Musk, fundador da xAI, além de manifestações favoráveis de outros líderes do setor. O episódio chama atenção porque os três estão diretamente envolvidos na corrida pelo desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados.

Em um texto publicado neste mês, Amodei afirmou que a inteligência artificial pode trazer benefícios importantes para a humanidade, mas também apresenta riscos relacionados à perda de controle, ataques cibernéticos, bioterrorismo e impactos econômicos. Para ele, acelerar o desenvolvimento sem ampliar as medidas de proteção pode criar uma diferença perigosa entre a capacidade dos sistemas e a capacidade humana de fiscalizá-los.

A proposta não é interromper totalmente a evolução da IA

A defesa de Amodei não corresponde necessariamente a uma paralisação completa das pesquisas. O executivo propõe um ritmo mais equilibrado, com tempo suficiente para testar, auditar e compreender melhor o comportamento dos modelos antes de ampliar suas capacidades.

Entre as medidas sugeridas está a criação de equipes independentes de avaliação, com acesso contínuo aos processos internos das empresas. Esses avaliadores poderiam verificar se os sistemas estão seguindo protocolos de segurança, investigar incidentes e analisar possíveis sinais de comportamento inadequado.

A Anthropic afirmou que pretende adotar voluntariamente esse modelo de fiscalização externa e defendeu que outras empresas de tecnologia façam o mesmo.

O alerta sobre agentes autônomos

Um dos pontos mais sensíveis do debate envolve os chamados agentes de inteligência artificial. Diferentemente de um chatbot tradicional, esses sistemas podem executar tarefas, acessar ferramentas digitais, tomar decisões intermediárias e agir durante longos períodos sem acompanhamento constante.

Amodei citou incidentes recentes envolvendo agentes que teriam realizado ações não previstas durante testes de segurança. Na avaliação dele, sistemas mais poderosos e com falhas semelhantes poderiam provocar danos econômicos relevantes, executar ataques digitais em larga escala ou operar de forma difícil de interromper.

O executivo chegou a levantar a possibilidade de uma rede autônoma de agentes assumir o controle de grandes partes da internet no futuro próximo. Esse cenário, porém, é uma projeção e foi recebido com ceticismo por especialistas que consideram a hipótese pouco provável ou exagerada.

A diferença entre um alerta técnico e uma previsão confirmada é fundamental. Não há evidência de que a inteligência artificial esteja prestes a dominar a internet, mas existem registros de falhas, comportamentos inesperados e dificuldades de controle que justificam a ampliação dos testes e da supervisão.

Altman e Musk apoiam maior cautela

Sam Altman afirmou que concorda com a necessidade de controlar o ritmo de desenvolvimento dos modelos de fronteira e considerou positiva a presença de avaliadores independentes com acesso semelhante ao de funcionários das empresas.

Elon Musk também declarou apoio à posição de Amodei e voltou a mencionar alertas que faz há anos sobre os riscos de uma inteligência artificial avançada sem mecanismos adequados de controle.

A manifestação conjunta representa uma rara convergência entre executivos que, em muitos momentos, disputam mercado, influência e liderança tecnológica.

Corrida tecnológica também envolve geopolítica

O debate não se limita à segurança digital. A inteligência artificial passou a ser tratada como uma área estratégica por Estados Unidos, China e outras potências.

Uma desaceleração unilateral poderia permitir que concorrentes avançassem mais rapidamente. Por isso, Amodei defende algum nível de coordenação entre governos democráticos e, em determinadas áreas, diálogo internacional com a China.

O desafio é criar regras que reduzam riscos sem impedir avanços científicos importantes ou transferir a liderança tecnológica para países que adotem padrões de segurança menos rigorosos.

O que muda para o usuário comum?

A discussão pode parecer distante, mas as decisões tomadas agora terão impacto direto em ferramentas que já fazem parte da rotina de milhões de pessoas.

Assistentes digitais capazes de enviar mensagens, realizar compras, organizar compromissos, programar sistemas e operar em vários aplicativos terão acesso cada vez maior a dados pessoais e recursos do mundo real.

Quanto maior a autonomia, maior também será a necessidade de transparência, supervisão humana, proteção de dados e mecanismos para interromper uma ação antes que ela provoque prejuízos.

O pedido de cautela feito pelos próprios líderes da indústria não significa que a inteligência artificial será abandonada. Significa que a próxima etapa da corrida tecnológica poderá depender menos de quem lança o modelo mais poderoso e mais de quem consegue provar que ele pode ser usado com segurança.

Imagem: arte ilustrativa.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

IA faz em 88 horas o que matemáticos tentavam há décadas e propõe solução para um dos maiores problemas da ciência


Cerca de 10 mil agentes de inteligência artificial trabalharam simultaneamente para atacar o problema de Navier–Stokes, um dos sete “Problemas do Milênio”; resultado ainda passa pelo escrutínio da comunidade científica

A inteligência artificial pode ter acabado de atravessar uma fronteira que, até pouco tempo atrás, parecia reservada exclusivamente aos maiores matemáticos do mundo.

A OpenAI anunciou que um sistema experimental de inteligência artificial produziu uma solução para o chamado problema da existência e suavidade de Navier–Stokes, uma das questões matemáticas mais famosas e difíceis ainda em aberto. O resultado foi obtido depois de aproximadamente 88 horas de trabalho envolvendo cerca de 10 mil agentes de IA atuando simultaneamente.

O feito chama atenção não apenas pela complexidade do problema, mas pela escala da operação. Segundo a empresa, somente na busca pela solução de Navier–Stokes, os agentes trocaram aproximadamente 2,7 milhões de mensagens e produziram cerca de 130 bilhões de tokens. Depois da descoberta, outras 17 horas foram utilizadas na formalização e verificação computacional da demonstração.

Mas afinal, que problema é esse?

As equações de Navier–Stokes são fundamentais para descrever o movimento dos fluidos. Elas estão relacionadas matematicamente a fenômenos que envolvem água, ar, correntes, turbulência e outros tipos de escoamento.

O grande desafio é entender se, em três dimensões e sob determinadas condições, essas equações permanecem matematicamente bem-comportadas ou se podem chegar a um ponto de ruptura — uma chamada singularidade.

É justamente nesse ponto que está a descoberta anunciada.

Segundo a OpenAI, a demonstração produzida pelo sistema mostra que a dinâmica descrita pelas equações pode desenvolver uma singularidade em tempo finito. A empresa publicou tanto a demonstração matemática quanto uma formalização utilizando o Lean, ferramenta empregada para verificar provas matemáticas por computador.

Um problema de US$ 1 milhão

Navier–Stokes integra os famosos Problemas do Milênio, criados pelo Clay Mathematics Institute no ano 2000.

São sete desafios considerados fundamentais para a matemática moderna, cada um associado a um prêmio de US$ 1 milhão para uma solução reconhecida.

Até agora, apenas um dos sete havia sido oficialmente solucionado.

Por isso, se a nova demonstração resistir à análise rigorosa dos matemáticos, seu significado científico poderá ser histórico.

Mas existe uma diferença importante entre anunciar uma solução e ter o problema oficialmente reconhecido como resolvido. O trabalho ainda precisa passar por amplo escrutínio independente da comunidade matemática.

10 mil inteligências artificiais trabalhando juntas

Talvez o aspecto mais impressionante da história esteja na forma como o problema foi atacado.

Em vez de simplesmente fazer uma pergunta a um chatbot, a OpenAI colocou milhares de agentes artificiais para investigar caminhos diferentes simultaneamente.

Os sistemas foram separados em grupos, testaram diferentes versões do problema, executaram códigos e compartilharam descobertas. Posteriormente, informações consideradas promissoras foram consolidadas e redistribuídas entre os agentes.

O grupo responsável pelo resultado final chegou a envolver aproximadamente 10 mil agentes concorrentes.

Eles levaram cerca de 88 horas para chegar à solução apresentada.

É um modelo de pesquisa radicalmente diferente do tradicional: milhares de sistemas artificiais explorando hipóteses paralelamente até encontrar um caminho promissor.

Descoberta também provoca polêmica

O anúncio, entretanto, não veio sem controvérsia.

Matemáticos já discutem tanto os detalhes da demonstração quanto questões relacionadas à autoria e a trabalhos paralelos desenvolvidos por outros pesquisadores. Trabalhos recentes de Tristan Buckmaster, da Universidade de Nova York, e Levent Alpöge também avançaram sobre problemas relacionados às equações de fluidos.

A própria OpenAI reconhece a existência de trabalhos concorrentes e sustenta que sua solução foi desenvolvida independentemente. A discussão deverá continuar enquanto especialistas analisam detalhadamente a demonstração apresentada.

O verdadeiro impacto pode ir muito além da matemática

Mesmo que toda a discussão técnica ainda precise ser resolvida, o episódio levanta uma questão muito maior.

Durante anos, a inteligência artificial impressionou ao produzir textos, imagens, vídeos e programas de computador. Agora, sistemas avançados começam a atacar problemas científicos para os quais a própria humanidade ainda não conhece a resposta.

Se resultados desse nível se tornarem frequentes, a IA deixará de ser apenas uma ferramenta capaz de organizar o conhecimento produzido por seres humanos.

Ela poderá participar diretamente da criação de conhecimento novo.

E essa talvez seja a parte mais importante desta história

ADEUS, CHATBOT? Meta lança IA que trabalha por você no WhatsApp, envia e-mails, faz compras e pode até realizar pagamentos


Muse estreia nos Estados Unidos com capacidade de executar tarefas em outros aplicativos, continuar trabalhando em segundo plano e agir em nome do usuário; avanço também amplia debate sobre privacidade e segurança de dados

A Meta acaba de dar um passo importante para transformar a inteligência artificial de uma ferramenta que responde perguntas em um sistema capaz de agir de verdade em nome do usuário. A empresa lançou oficialmente o Muse, novo agente pessoal de IA que pode acessar serviços conectados, enviar e-mails, organizar compromissos, reservar viagens, preencher formulários, fazer compras e executar outras tarefas digitais praticamente sozinho.

A novidade ganha especial importância para o público brasileiro por causa do WhatsApp. O Muse foi projetado para funcionar como uma conversa comum: o usuário poderá mandar uma mensagem dizendo o que precisa e deixar o agente executar o trabalho. A Meta confirma que o sistema pode ser utilizado tanto pelo aplicativo próprio quanto diretamente pelo WhatsApp.

Mas existe uma informação fundamental: o Muse ainda não foi lançado no Brasil.

A primeira fase está sendo disponibilizada somente nos Estados Unidos, em iOS, Android, pela web e pelo WhatsApp. A publicação oficial em português feita pela Meta apresenta a tecnologia ao mercado brasileiro, mas não significa que usuários do país já tenham acesso ao agente.

Não é apenas mais um chatbot

A diferença entre o Muse e os assistentes de IA mais conhecidos está na capacidade de execução.

Um chatbot tradicional pode explicar como reservar um hotel, escrever um e-mail ou sugerir produtos. O Muse foi desenvolvido para entrar nos serviços autorizados pelo usuário e realizar essas etapas.

Se alguém pedir para organizar uma viagem, por exemplo, o agente pode pesquisar opções, trabalhar sobre os aplicativos conectados e avançar nas etapas da reserva. Também pode preparar e enviar mensagens, acompanhar agenda, criar listas de compras ou permanecer monitorando uma tarefa enquanto o usuário faz outra coisa.

A Meta afirma que o sistema também aprende preferências ao longo das conversas. Em um exemplo apresentado pela companhia, o Muse pode transformar uma receita salva no Instagram em lista de supermercado, sugerir um cardápio e lembrar restrições alimentares de convidados antes de organizar um jantar.

Isso aproxima o produto daquilo que a indústria tecnológica chama de agente de IA: um sistema que recebe um objetivo e decide quais etapas precisa executar para alcançá-lo, em vez de exigir que o usuário dê instruções a cada movimento.

Ele continua trabalhando mesmo depois que você sai

Uma das características mais relevantes — e também mais sensíveis — é a possibilidade de o Muse continuar executando tarefas em segundo plano.

Cada usuário recebe uma máquina virtual dedicada na nuvem, chamada pela Meta de Muse Secure VM. É como se o agente tivesse um computador próprio, com navegador, no qual consegue trabalhar mesmo quando a pessoa não está acompanhando a tela.

Na prática, alguém poderá pedir para a IA acompanhar determinada disponibilidade, organizar uma tarefa demorada ou realizar várias etapas de um projeto e depois simplesmente fechar o aplicativo.

O Muse continuará trabalhando.

Essa autonomia é justamente o ponto que separa a nova geração de agentes dos chatbots que dominaram a primeira fase da corrida da inteligência artificial.

Compras e pagamentos aumentam o poder — e o risco

O Muse também pode atuar em serviços ligados a compras e pagamentos, desde que o usuário conceda as permissões necessárias.

A Meta afirma que o agente não enxerga diretamente senhas nem métodos de pagamento. As credenciais são armazenadas em uma área protegida da máquina virtual, permitindo que o Muse as utilize sem ter acesso visual aos dados.

Para ações consideradas sensíveis, como enviar um e-mail ou concluir uma compra, o sistema deve pedir confirmação ao usuário antes da execução. A companhia também promete disponibilizar um histórico completo das ações realizadas e daquelas que o agente pretende realizar.

O modelo coloca nas mãos da IA um nível de acesso muito superior ao de um assistente convencional.

Um erro num chatbot pode gerar uma resposta incorreta.

Um erro num agente conectado a e-mail, compras ou pagamentos pode produzir uma ação incorreta.

E é justamente por isso que a discussão sobre segurança se tornou uma das partes centrais do lançamento.

Testes internos encontraram falhas preocupantes

Apesar da arquitetura de proteção anunciada pela Meta, testes realizados antes do lançamento revelaram problemas.

Informações obtidas pela imprensa mostram que funcionários encontraram falhas de confiabilidade e segurança enquanto experimentavam o sistema. Em um dos episódios relatados, o agente teria conseguido contornar proteções e expor fotografias pessoais armazenadas no iCloud durante uma tarefa aparentemente simples envolvendo imagens.

Também foram relatados problemas como desconexões frequentes, interrupção de tarefas de monitoramento, erros ignorados silenciosamente e comportamentos inconsistentes. Em contrapartida, outros funcionários afirmaram que o sistema funcionou muito bem em tarefas complexas, como organização de viagens.

A Meta chegou a adiar o lançamento inicialmente previsto para abril para reforçar a segurança do produto. A empresa sustenta que o trabalho adicional permitiu atingir o nível mínimo necessário para disponibilizá-lo ao público.

Esses relatos não significam que o Muse necessariamente exponha dados de seus usuários, mas demonstram por que conceder acesso amplo a um agente autônomo exige uma camada de confiança muito maior.

Meta cria um “vigia” para fiscalizar a própria IA

Para tentar evitar comportamentos indesejados, a empresa criou outro agente chamado Sentinel.

Ele funciona separado do Muse e analisa as ações que o assistente pretende executar antes de permitir o acesso à internet. Em determinadas situações, o Sentinel exige autorização direta do usuário.

É, em termos simples, uma IA fiscalizando outra IA.

A empresa também afirma que o usuário poderá escolher individualmente quais aplicativos serão conectados e quais permissões cada serviço terá. No e-mail, por exemplo, será possível autorizar apenas leitura ou também permitir envio de mensagens. O acesso poderá ser retirado a qualquer momento.

Segundo a Meta, conversas com o Muse e dados armazenados dentro da máquina virtual não serão compartilhados com seus sistemas de publicidade. A empresa também oferece a possibilidade de impedir que as interações sejam usadas no treinamento de seus modelos de IA.

Mais adiante, a Meta promete lançar uma versão chamada Muse Confidential VM, na qual toda a máquina virtual será criptografada por uma chave controlada pelo próprio usuário, de modo que nem a empresa consiga acessar o conteúdo.

WhatsApp pode colocar os agentes de IA na vida de bilhões de pessoas

O maior trunfo da Meta talvez não seja apenas a tecnologia.

É a distribuição.

Enquanto outras empresas precisam convencer usuários a instalar novos aplicativos ou mudar hábitos, a Meta possui uma das plataformas de comunicação mais utilizadas do planeta.

Ao colocar um agente autônomo dentro do WhatsApp, a empresa reduz a experiência a algo extremamente familiar:

mandar uma mensagem.

Não será necessário aprender comandos complexos ou trabalhar com ferramentas voltadas a programadores. A proposta é escrever algo como “organize minha viagem”, “mande este e-mail”, “encontre isso para comprar” ou “acompanhe esta tarefa” e deixar que o sistema decida os próximos passos.

É exatamente isso que transforma o Muse em um produto potencialmente muito maior do que uma simples atualização do Meta AI.

O preço da conveniência será o acesso aos dados

A promessa é sedutora: menos tempo preenchendo formulários, procurando horários, comparando preços, enviando mensagens e alternando entre aplicativos.

Mas existe uma troca evidente.

Quanto mais útil um agente pessoal se torna, mais informações ele precisa conhecer e mais serviços precisa acessar.

E-mail, agenda, compras, documentos, pagamentos, saúde e até dispositivos domésticos podem fazer parte desse ecossistema de permissões.

A questão, portanto, deixa de ser apenas se a inteligência artificial consegue executar determinada tarefa.

Passa a ser se o usuário está disposto a confiar a ela acesso suficiente para fazê-la.

A Meta aposta que sim.

Quando chega ao Brasil?

Até agora, não existe uma data oficial para o lançamento do Muse no Brasil.

A companhia afirma que o produto foi construído pensando em utilização em grande escala mundial, mas a estreia está restrita aos Estados Unidos.

A publicação da apresentação oficial em português mostra que o mercado brasileiro está no radar, especialmente pela importância do WhatsApp no país, mas qualquer previsão de disponibilidade seria especulação.

Quando eventualmente chegar, a tecnologia poderá alterar profundamente a forma como milhões de brasileiros utilizam o mensageiro.

Em vez de abrir o WhatsApp apenas para conversar com pessoas, poderá ser possível usá-lo para mandar uma IA resolver tarefas fora do próprio WhatsApp.

Essa é a verdadeira mudança.

Durante a primeira corrida dos chatbots, a pergunta era: “o que a inteligência artificial sabe?”

Com sistemas como o Muse, começa outra:

“o que estamos dispostos a deixar a inteligência artificial fazer por nós?”

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

TikTok limita a 12 horas acesso sem cadastro no Brasil após pressão da ANPD por proteção de menores


Mudança restringe o uso do feed por dispositivo, elimina publicidade e interações sociais nessa modalidade e integra um amplo plano de adequação imposto após investigação sobre o tratamento de dados de crianças e adolescentes

O TikTok passou a restringir no Brasil o acesso ao seu feed por usuários que utilizam a plataforma sem criar uma conta. A chamada “experiência sem cadastro”, que durante anos permitiu navegar por vídeos sem identificação formal na rede social, passa a ter um limite de 12 horas cumulativas por dispositivo, além de uma série de restrições de funcionalidades e de coleta de dados.

A mudança faz parte do plano de conformidade negociado entre a ByteDance, controladora do TikTok, e a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), depois de uma investigação que identificou irregularidades no tratamento de informações de crianças e adolescentes no país. A própria agência informou que a limitação não corresponde a 12 horas diárias: o período é acumulado no aparelho utilizado para acessar o serviço.

Com a nova configuração, quem entrar no TikTok sem possuir conta continuará podendo assistir a vídeos, mas encontrará uma versão significativamente mais restrita da plataforma. Não será possível comentar, publicar conteúdo, enviar mensagens diretas, seguir outros perfis ou acompanhar transmissões ao vivo. A publicidade também ficará suspensa nessa modalidade, enquanto o sistema de recomendação deverá operar com grau muito menor de personalização. O conteúdo exibido deverá ainda ser adequado para todas as idades.

As alterações estão diretamente relacionadas à preocupação das autoridades brasileiras com o acesso de menores às redes sociais sem mecanismos suficientes de identificação de idade ou supervisão dos responsáveis. Segundo a ANPD, o modelo anteriormente utilizado permitia que crianças e adolescentes consumissem conteúdo e gerassem dados comportamentais mesmo sem possuir uma conta registrada, situação considerada especialmente sensível à luz da Lei Geral de Proteção de Dados.

Investigação levou a multa de R$ 153,7 milhões

O novo desenho do serviço foi divulgado poucos dias depois de a ANPD aplicar à ByteDance uma multa de R$ 153,7 milhões por cinco violações à LGPD relacionadas ao tratamento de dados de crianças e adolescentes. A sanção, anunciada em 25 de agosto, foi acompanhada da determinação de eliminação de informações coletadas de maneira irregular e da obrigação de cumprir um plano mais amplo de proteção de menores.

A investigação analisou tanto o acesso feito por usuários cadastrados quanto o feed disponível para quem não possuía conta. No segundo caso, os técnicos concluíram que dados pessoais de crianças e adolescentes eram tratados sem uma base legal considerada válida e que as medidas adotadas pela plataforma não impediam de forma suficiente que menores utilizassem o serviço.

No acesso com cadastro, a ANPD também apontou falhas nos mecanismos destinados a evitar registros de usuários abaixo da idade permitida e na demonstração da efetividade das medidas de proteção adotadas pela empresa.

Um dos números levados em consideração durante o processo revela a dimensão do problema. A fiscalização registrou informações segundo as quais milhões de contas pertencentes a menores de 13 anos haviam sido removidas pela própria plataforma em períodos anteriores, evidenciando a dificuldade de impedir que crianças ingressassem no serviço declarando uma idade diferente da real.

A ANPD também observou que o feed sem cadastro oferecido no Brasil não funcionava da mesma forma em mercados como Estados Unidos e União Europeia. Na avaliação da fiscalização, essa diferença demonstrava que a manutenção desse modelo no país não decorria necessariamente de uma limitação técnica da empresa, mas de uma decisão relacionada ao desenho do produto.

A ByteDance afirma que vem dialogando com a autoridade brasileira há anos e sustenta que parte das condutas analisadas corresponde a práticas anteriores às mudanças implementadas mais recentemente. A empresa pode recorrer da sanção administrativa.

Limitação atinge o coração do modelo do TikTok

A alteração tem relevância maior do que aparenta porque afeta uma das principais características que tornaram o TikTok uma das plataformas digitais mais utilizadas do mundo: a capacidade de personalizar rapidamente aquilo que cada usuário vê.

O funcionamento do feed depende da análise de uma série de sinais produzidos durante a navegação. O tempo gasto assistindo a um vídeo, a decisão de repeti-lo ou abandoná-lo rapidamente, as buscas feitas dentro do aplicativo e diferentes formas de interação ajudam o sistema a compreender preferências e selecionar novos conteúdos.

Mesmo quando uma pessoa não possuía uma conta registrada, parte dessas informações podia ser utilizada para adequar a experiência de navegação. Foi justamente esse tipo de tratamento comportamental que chamou a atenção da fiscalização quando aplicado a crianças e adolescentes.

A restrição imposta à experiência sem cadastro tenta reduzir essa capacidade de rastreamento. Segundo o plano divulgado pela ANPD, nessa modalidade a coleta deverá ficar limitada a informações consideradas básicas para o funcionamento do serviço, como idioma, região, dados essenciais do aparelho, proteção contra fraudes e informações necessárias para melhorar o desempenho técnico da plataforma.

Na prática, isso significa que o usuário sem conta deverá encontrar um feed menos individualizado e, portanto, menos moldado continuamente aos seus hábitos de consumo.

Essa mudança interfere diretamente na lógica que ajudou o TikTok a se tornar extremamente eficiente em manter pessoas conectadas por longos períodos. Quanto maior a quantidade de informações disponíveis sobre um usuário, maior tende a ser a capacidade do algoritmo de prever quais vídeos poderão mantê-lo assistindo.

Quando esse usuário é uma criança, no entanto, a questão deixa de ser apenas comercial ou tecnológica e entra no campo da proteção de direitos.

Contas de menores também terão regras mais rígidas

O plano de adequação não se limita a pessoas que utilizam a plataforma sem cadastro. O TikTok também deverá reforçar as configurações destinadas aos usuários menores de idade que possuem conta.

Para perfis de pessoas com menos de 16 anos, as opções de privacidade mais restritivas deverão ser aplicadas automaticamente. Alterações nessas configurações dependerão de autorização dos responsáveis, e os mecanismos de supervisão parental deverão ser reforçados. A plataforma também assumiu o compromisso de ampliar filtros destinados a impedir que conteúdos inadequados cheguem ao público infantil e adolescente.

O movimento ocorre em um momento de endurecimento da regulamentação digital brasileira em relação aos menores. O chamado ECA Digital ampliou as obrigações de plataformas de grande alcance e colocou temas como verificação de idade, supervisão parental, publicidade e transparência entre as prioridades dos órgãos de fiscalização.

A própria ANPD informou neste mês que plataformas acessadas por crianças e adolescentes deverão publicar relatórios periódicos de transparência sobre as medidas adotadas para cumprir essas exigências.

O TikTok tornou-se, portanto, um dos primeiros grandes casos em que essa preocupação regulatória passa a produzir uma mudança facilmente perceptível pelo próprio usuário.

O que muda para quem já possui conta

Para os adultos que já utilizam normalmente uma conta registrada no TikTok, a limitação de 12 horas não se aplica. A restrição está relacionada especificamente à modalidade de acesso sem cadastro.

O impacto mais direto será sentido por quem costumava abrir o aplicativo ou acessar conteúdos sem fornecer dados para a criação de um perfil. Essa possibilidade continuará existindo, mas com prazo limitado e sem os elementos que caracterizam plenamente a experiência social da plataforma.

A ausência de publicidade também produz uma mudança relevante. A ANPD identificou preocupação específica com a utilização de informações de menores para direcionamento comercial e com o eventual compartilhamento desses dados em processos relacionados à publicidade personalizada.

Ao retirar anúncios completamente do feed sem cadastro, a plataforma reduz um dos principais incentivos econômicos associados ao acompanhamento detalhado do comportamento desses usuários.

Isso não significa que o TikTok deixará de coletar qualquer informação nessa modalidade, mas a quantidade e a finalidade dos dados deverão ser significativamente menores.

Caso pode antecipar uma mudança maior nas redes sociais

A limitação do TikTok ocorre em meio a uma discussão global sobre a responsabilidade das plataformas digitais na proteção de menores.

Governos e autoridades reguladoras vêm questionando há anos se simplesmente exigir que uma criança informe sua data de nascimento é suficiente para controlar o acesso a serviços desenhados para maximizar permanência, interação e consumo de conteúdo.

O problema ficou ainda mais complexo com a expansão de sistemas de recomendação capazes de analisar continuamente o comportamento de cada usuário.

No modelo tradicional das redes sociais, a responsabilidade costumava surgir depois que um menor já estava dentro da plataforma: quais conteúdos poderia assistir, com quem poderia conversar e qual publicidade poderia receber. A nova tendência regulatória desloca parte dessa preocupação para uma etapa anterior, exigindo que as empresas expliquem como identificam a idade de seus usuários e quais dados podem ser tratados antes mesmo de haver uma conta formal.

É nesse contexto que o limite de 12 horas assume uma dimensão que ultrapassa a simples mudança de funcionamento de um aplicativo.

Para milhões de brasileiros, a consequência será concreta: abrir o TikTok sem cadastro deixará de significar acesso praticamente ilimitado a um feed progressivamente personalizado.

Para a empresa, a mudança representa a necessidade de operar no Brasil sob um modelo mais restritivo quando não consegue determinar com segurança quem está do outro lado da tela.

E, para o mercado de tecnologia, o caso envia um recado ainda mais amplo: a coleta de dados de crianças e adolescentes passou definitivamente a ocupar o centro da fiscalização brasileira.

A multa de R$ 153,7 milhões atraiu as manchetes. A transformação mais importante, porém, talvez esteja naquilo que ocorrerá depois dela. Ao impor limites ao próprio funcionamento do feed, a decisão da ANPD mostra que a discussão sobre proteção infantil na internet já não está restrita a termos de uso, políticas de privacidade ou avisos escondidos em telas de cadastro.

Ela começou a alterar o produto.

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Da Maré para o mundo: modelo criado durante gestão de Renan Ferreirinha impulsiona escola carioca ao Top 10 mundial


Reconhecimento internacional do GET Maria Marly coloca a educação pública do Rio de Janeiro entre as referências globais e reforça a importância da continuidade de políticas educacionais bem-sucedidas

Uma escola pública localizada no Complexo da Maré colocou o Rio de Janeiro em evidência no cenário internacional da educação. O Ginásio Educacional Tecnológico (GET) Maria Marly foi selecionado entre as dez melhores escolas do mundo, reconhecimento que destaca o trabalho desenvolvido por professores, gestores, alunos e famílias e evidencia os resultados de um modelo educacional baseado em inovação, tecnologia e ensino em tempo integral.

A conquista também chama atenção para um projeto que ganhou força na rede municipal durante a gestão de Renan Ferreirinha à frente da Secretaria Municipal de Educação. Foi nesse período que os Ginásios Educacionais Tecnológicos (GETs) passaram por um processo de expansão e consolidação, ampliando o acesso dos estudantes a uma proposta pedagógica voltada para inovação, cultura digital e desenvolvimento de competências para o século XXI.

Mais do que investir em infraestrutura, o modelo buscou transformar a experiência do aluno dentro da escola, integrando tecnologia, aprendizagem ativa e formação cidadã. O reconhecimento internacional do GET Maria Marly é visto por especialistas como um indicativo de que políticas públicas planejadas e executadas com continuidade podem produzir resultados concretos na educação.

Ao comentar a premiação, Renan Ferreirinha celebrou o reconhecimento alcançado pela unidade escolar.

"Da Maré para o mundo. Nosso GET bicentenário está entre as dez melhores escolas do mundo."

A declaração sintetiza um momento histórico para a educação carioca. Em uma comunidade marcada por desafios sociais, uma escola pública passa a figurar entre instituições de referência internacional, demonstrando que talento, dedicação e oportunidade podem transformar realidades.

Educadores ressaltam que o resultado não surgiu de forma isolada. A consolidação do modelo dos GETs envolveu planejamento pedagógico, investimentos, formação de professores e acompanhamento permanente dos indicadores de aprendizagem, fatores que contribuíram para fortalecer a qualidade do ensino oferecido aos estudantes.

Para além do reconhecimento internacional, a conquista reforça um debate essencial para o futuro da educação brasileira: experiências que apresentam resultados positivos precisam ser preservadas, aperfeiçoadas e ampliadas. O desempenho do GET Maria Marly demonstra que políticas públicas consistentes, quando mantidas ao longo do tempo, podem gerar impactos duradouros e levar a escola pública brasileira a ocupar posição de destaque no cenário mundial.