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domingo, 6 de setembro de 2026

PF aponta pedido de Dr. Serginho para conter fiscalização ambiental; sequência de controvérsias amplia questionamentos sobre sua atuação política


Relatório da Operação Sem Refino 2 afirma que o atual prefeito de Cabo Frio teria pedido a suspensão de operações do Inea em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até as eleições de 2024; episódio se soma a outras investigações e controvérsias envolvendo estruturas públicas e o entorno político do prefeito

Uma revelação da Polícia Federal coloca novamente Dr. Serginho (PL), prefeito de Cabo Frio, diante de um questionamento que ultrapassa uma disputa partidária: até que ponto interesses eleitorais podem interferir no funcionamento normal de órgãos públicos?

Segundo trecho da representação da PF reproduzido na decisão da Operação Sem Refino 2, Dr. Serginho, quando ainda disputava a Prefeitura de Cabo Frio em 2024, teria solicitado ao então secretário estadual do Ambiente, Bernardo Rossi, que não fossem realizadas operações de fiscalização ambiental em Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até a eleição municipal.

A informação não representa uma condenação do prefeito, tampouco demonstra isoladamente a prática de crime. Mas, se confirmada, revela um comportamento institucionalmente grave: a tentativa de condicionar o calendário de fiscalização ambiental ao calendário eleitoral.

De acordo com a PF, Bernardo Rossi teria repassado a solicitação ao então presidente do Instituto Estadual do Ambiente, Renato Jordão Bussiere. Bussiere respondeu que uma equipe já havia fiscalizado São Pedro da Aldeia naquela semana, mas indicou que aquilo não voltaria a ocorrer no período mencionado. Os investigadores afirmaram que, naquele contexto, as “costuras políticas se sobressaíam” à proteção ambiental.

Esse é o ponto mais grave do episódio.

Não se discute aqui uma declaração infeliz, uma briga partidária ou uma interpretação sobre determinada política pública. O que aparece num relatório policial é a hipótese de que a atuação de um órgão de Estado teria sido ajustada para não criar dificuldades políticas a um candidato durante uma eleição.

Região ambientalmente sensível torna episódio ainda mais sério

Cabo Frio e São Pedro da Aldeia não são municípios onde a fiscalização ambiental pode ser tratada como atividade secundária.

Os dois fazem parte do Parque Estadual da Costa do Sol, unidade de conservação administrada pelo Inea que protege quase 10 mil hectares de ecossistemas da Região dos Lagos. Cabo Frio também integra a Área de Proteção Ambiental do Pau-Brasil, enquanto São Pedro da Aldeia possui áreas da APA da Serra de Sapiatiba, que protege remanescentes florestais e parte da Lagoa de Araruama.

O próprio histórico de atuação do Inea na região envolve combate a desmatamento, loteamentos clandestinos, ocupações de áreas protegidas e outras infrações ambientais. Em operações anteriores, o instituto chegou a desmontar invasões e construções irregulares dentro de unidades de conservação da Costa do Sol.

Por isso, a hipótese de suspender operações durante semanas por conveniência eleitoral não pode ser reduzida a uma questão burocrática.

Fiscalização ambiental existe justamente para ocorrer quando a irregularidade é identificada — não quando o calendário político considera conveniente.

Não é a primeira vez que o nome de Serginho aparece em controvérsias envolvendo estruturas públicas

O novo episódio chama atenção também porque não surge isoladamente na trajetória política de Dr. Serginho.

Em abril de 2025, a residência do prefeito foi alvo de mandado de busca e apreensão na Operação Teatro Invisível 2, da Polícia Federal. A investigação apurava uma rede que teria utilizado atores para encenar conversas falsas em locais públicos com o objetivo de influenciar eleitores, além de suspeitas envolvendo contratos públicos. Dr. Serginho foi alvo da busca, mas isso não equivale a culpa ou condenação.

Na ocasião, o prefeito negou qualquer participação no esquema. Disse que não conhecia as pessoas investigadas, afirmou não possuir relação com as empresas envolvidas e declarou ser vítima de um equívoco da investigação.

Esse contraditório é fundamental: ser alvo de busca não significa ser culpado.

Mas também é legítimo observar que, para um agente político, a repetição de episódios envolvendo Polícia Federal, estruturas governamentais e campanhas eleitorais produz um desgaste que não pode ser eliminado simplesmente pela ausência, até aqui, de condenação definitiva.

Uerj e Faetec também já colocaram entorno político sob suspeita

Outro episódio ocorreu durante a eleição de 2022.

Uma investigação jornalística do UOL identificou pessoas ligadas às campanhas de Dr. Serginho e de outros parlamentares entre contratados remunerados com recursos de projetos da Uerj financiados pela Faetec. Parte dos entrevistados afirmou não ter realizado os serviços universitários pelos quais aparecia recebendo, embora tivesse participado de atividades eleitorais.

Dr. Serginho negou influência política sobre as contratações.

O caso provocou apurações no Tribunal de Contas do Estado, Ministério Público do Rio e Procuradoria Regional Eleitoral, e a própria Uerj anunciou revisão de projetos e afirmou que eventual seleção por critérios políticos ou pagamento sem prestação de serviço seria ilegal e deveria ser punido.

Novamente, isso não autoriza afirmar que Dr. Serginho tenha sido responsável por desvio de recursos ou contratação de funcionários fantasmas.

Autoriza, contudo, registrar que pessoas politicamente relacionadas a sua campanha apareceram numa estrutura pública posteriormente submetida a investigações.

Antes disso, um assessor foi exonerado após áudio sobre vagas no Hospital Unilagos

Em 2021, quando Serginho comandava a Secretaria estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação, outro episódio causou repercussão em Cabo Frio.

Áudios atribuídos a um assessor da pasta, Leonardo da Costa Fonseca, indicavam que candidatos aprovados num processo seletivo para o Hospital Unilagos seriam posteriormente eliminados até que as vagas chegassem a pessoas ligadas ao grupo político. Após a divulgação, a secretaria anunciou a exoneração do assessor.

A própria secretaria contestou a interpretação dos áudios, afirmou que o processo seletivo era conduzido autonomamente pela Uerj e declarou que nenhum servidor da pasta tinha acesso à seleção. Também anunciou apuração interna.

Mais uma vez, não há base para atribuir a Dr. Serginho a autoria daquele diálogo.

Mas, quando episódios diferentes ao longo dos anos colocam repetidamente seu entorno político próximo de discussões sobre nomeações, contratos, campanhas, fiscalização e funcionamento de órgãos públicos, o debate deixa de ser apenas sobre cada caso isoladamente.

Passa a ser também sobre método político.

Uma vitória eleitoral expressiva não elimina a obrigação de prestar contas

Dr. Serginho não chegou à Prefeitura de Cabo Frio por acaso.

Em 2024, conquistou 84.317 votos, equivalentes a 69,19% dos votos válidos, derrotando com ampla vantagem a então prefeita Magdala Furtado. É um mandato eleitoral expressivo e precisa ser reconhecido como tal.

Mas força eleitoral e fiscalização pública são coisas diferentes.

Uma vitória nas urnas não concede imunidade política, administrativa ou jornalística. Ao contrário: quanto maior o poder concedido a uma autoridade, maior deve ser o escrutínio sobre a forma como esse poder é exercido.

É nesse contexto que a nova revelação da Polícia Federal merece atenção.

Serginho não é acusado, nesse trecho, de ter cometido pessoalmente um crime ambiental. O que a PF registra é outra coisa: ele teria buscado influência política para impedir que o órgão responsável justamente por fiscalizar possíveis infrações ambientais atuasse em dois municípios até o fim da eleição da qual participava.

Se essa versão estiver correta, a gravidade não depende da existência de uma multa, uma obra irregular específica ou um beneficiário identificado.

O problema está na própria lógica da solicitação.

Órgãos públicos não podem funcionar quando favorecem o calendário eleitoral de determinada liderança e parar quando sua atuação passa a representar inconveniência política.

O padrão que precisa ser explicado

É importante evitar duas simplificações.

A primeira seria declarar Dr. Serginho culpado por fatos que ainda estão sob investigação ou que não produziram condenação.

A segunda seria considerar cada episódio irrelevante simplesmente porque não existe sentença definitiva contra ele.

Jornalismo sério trabalha exatamente entre esses dois extremos.

Há um prefeito eleito democraticamente e com forte apoio popular. Há também uma trajetória cercada por episódios concretos que envolveram processos seletivos públicos, funcionários ligados a campanhas, operação da Polícia Federal e, agora, uma alegada tentativa de interferência em fiscalização ambiental durante período eleitoral.

Nenhum desses fatos, isoladamente ou em conjunto, permite ao jornal decretar culpa criminal.

Mas permitem perguntar se existe uma forma de exercício do poder em que relações políticas parecem se aproximar excessivamente do funcionamento de estruturas que deveriam obedecer exclusivamente ao interesse público.

Essa é a dimensão potencialmente nociva do episódio: não uma sentença sobre a pessoa de Dr. Serginho, mas o risco institucional de que influência política, interesse eleitoral e funcionamento da máquina pública se confundam.

A pergunta que o prefeito precisa responder

Até a publicação desta reportagem, não localizamos manifestação pública específica de Dr. Serginho respondendo ao trecho da Operação Sem Refino 2 que menciona o pedido para interromper fiscalizações ambientais. O espaço permanece aberto para sua manifestação.

A explicação é necessária.

Se não houve pedido para suspender operações, o prefeito precisa contestar objetivamente o conteúdo atribuído a ele.

Se houve uma conversa, mas com contexto diferente daquele interpretado pela Polícia Federal, esse contexto precisa ser apresentado.

E, caso tenha efetivamente solicitado que o Inea deixasse de fiscalizar Cabo Frio e São Pedro da Aldeia até as eleições, cabe explicar por que um candidato a prefeito considerava legítimo interferir no calendário de atuação de um órgão ambiental estadual.

Não se trata de oposição ou situação.

Não se trata de ser contra ou a favor de Dr. Serginho.

Trata-se de uma regra elementar da administração pública: a fiscalização deve servir à lei e à sociedade, nunca à conveniência eleitoral de quem exerce ou pretende exercer o poder.

E é precisamente porque Dr. Serginho se tornou uma das figuras politicamente mais poderosas da Região dos Lagos que essas perguntas precisam ser feitas com ainda mais rigor.