Ausentes representaram 23,33% do eleitorado fluminense; se formassem um único bloco eleitoral, seriam capazes de construir a segunda maior bancada estadual e federal do Rio de Janeiro
As eleições de 2026 deixaram um número que vai muito além da disputa entre candidatos e partidos: 2.996.650 eleitores do Estado do Rio de Janeiro não compareceram às urnas no primeiro turno.
O Rio possuía 12.842.517 eleitores aptos. Desse total, 9.845.867 compareceram, o equivalente a 76,67% do eleitorado. A abstenção chegou a 23,33%, superando a média nacional de pouco mais de 21%.
Em termos absolutos, quase três milhões de fluminenses deixaram de participar da escolha do governador, dos senadores e dos representantes do estado na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados.
Mas qual seria o peso desse contingente na eleição proporcional? Quantos deputados poderiam ser eleitos se os ausentes comparecessem e votassem de maneira concentrada?
A resposta exige mais do que simplesmente comparar a abstenção com a votação individual dos candidatos.
Os números da abstenção no Rio
O resultado oficial apresenta o seguinte quadro:
Eleitorado apto: 12.842.517;
Comparecimento: 9.845.867 eleitores;
Percentual de comparecimento: 76,67%;
Abstenção: 2.996.650 eleitores;
Percentual de abstenção: 23,33%.
Isso significa que praticamente um em cada quatro eleitores do Rio de Janeiro não participou da votação.
O número de ausentes foi superior à população inteira de vários estados brasileiros e representou um contingente capaz de alterar profundamente a composição das bancadas estaduais e federais.
Comparação com o quociente eleitoral da Alerj
Na eleição para deputado estadual, foram contabilizados aproximadamente 8.479.505 votos válidos para a distribuição das 70 cadeiras da Assembleia Legislativa.
O quociente eleitoral oficial ficou em 121.136 votos por cadeira.
Em uma comparação direta com esse quociente:
2.996.650 ÷ 121.136 = 24,74
Portanto, usando apenas o quociente registrado na eleição, o número de ausentes corresponde a quase 25 quocientes eleitorais estaduais, ou a 24 quocientes completos.
Essa comparação, entretanto, é apenas ilustrativa. Caso os três milhões de ausentes realmente comparecessem e transformassem seus votos em votos válidos, o total de votos da eleição aumentaria. Consequentemente, o próprio quociente eleitoral também subiria.
Cenário corrigido: aproximadamente 18 cadeiras estaduais
Para construir uma projeção tecnicamente mais adequada, é necessário adicionar os votos dos ausentes ao total de votos válidos.
O cálculo ficaria assim:
Votos válidos apurados: 8.479.505;
Votos potenciais dos ausentes: 2.996.650;
Novo total hipotético de votos válidos: 11.476.155;
Número de cadeiras da Alerj: 70;
Novo quociente eleitoral estimado: aproximadamente 163.945 votos.
Dividindo os votos potenciais dos ausentes pelo novo quociente:
2.996.650 ÷ 163.945 = 18,28
Assim, se todos os eleitores ausentes comparecessem e votassem em uma única legenda ou federação, esse bloco teria força matemática equivalente a aproximadamente 18 deputados estaduais.
Dependendo da distribuição das sobras e das médias partidárias, o resultado poderia sofrer pequena variação. Mas a dimensão política é clara: os ausentes poderiam formar a segunda maior bancada da Alerj, atrás apenas do PL, que elegeu 21 parlamentares.
A bancada hipotética dos eleitores ausentes seria duas vezes maior que as bancadas do PT e do PSD, que elegeram nove deputados estaduais cada.
Efeito da abstenção na eleição para deputado federal
Na disputa pela Câmara dos Deputados, o Rio de Janeiro registrou aproximadamente 8.743.753 votos válidos para a distribuição de 46 cadeiras.
O quociente eleitoral federal ficou em 190.082 votos.
Utilizando apenas o quociente oficial registrado nas urnas:
2.996.650 ÷ 190.082 = 15,76
Nessa comparação simplificada, a abstenção corresponde a quase 16 quocientes eleitorais federais, sendo suficiente para completar 15 quocientes inteiros.
Novamente, esse cálculo não considera que a entrada de quase três milhões de votos aumentaria o total de votos válidos e, consequentemente, elevaria o próprio quociente.
Cenário corrigido: força equivalente a cerca de 12 deputados federais
Com a inclusão hipotética dos votos dos ausentes, o cálculo seria:
Votos válidos apurados: 8.743.753;
Votos potenciais dos ausentes: 2.996.650;
Novo total hipotético de votos válidos: 11.740.403;
Número de cadeiras federais do Rio: 46;
Novo quociente eleitoral estimado: aproximadamente 255.226 votos.
Aplicando o novo quociente:
2.996.650 ÷ 255.226 = 11,74
O contingente de ausentes teria, portanto, força proporcional equivalente a aproximadamente 12 deputados federais, sendo 11 quocientes completos e uma fração relevante para a disputa das vagas distribuídas pelas médias.
Uma bancada com cerca de 12 parlamentares seria a segunda maior representação federal do Rio de Janeiro, ficando atrás somente do PL, que elegeu 15 deputados.
O grupo hipotético dos ausentes teria o dobro da bancada do PT, que conquistou seis cadeiras, e seria maior que as bancadas do PP, PSOL, PSDB e PSD.
Resumo do impacto potencial
| Cargo | Quociente oficial | Equivalência usando o quociente já apurado | Cenário corrigido com aumento dos votos válidos |
|---|---|---|---|
| Deputado estadual | 121.136 votos | 24,74 cadeiras | 18,28 cadeiras |
| Deputado federal | 190.082 votos | 15,76 cadeiras | 11,74 cadeiras |
A primeira comparação mostra quantos quocientes atuais cabem dentro do total de abstenções. A segunda é mais adequada para uma simulação eleitoral, pois recalcula o quociente depois da entrada dos novos votos.
Por isso, a conclusão tecnicamente mais equilibrada é que os eleitores ausentes teriam força proporcional para eleger aproximadamente 18 deputados estaduais e 12 deputados federais, caso votassem de forma concentrada em um mesmo partido ou federação.
Ausentes não formam um grupo político homogêneo
É importante destacar que a abstenção não pode ser tratada como se fosse um partido político. Os quase três milhões de eleitores ausentes possuem opiniões, condições sociais, preferências ideológicas e motivações diferentes.
Entre as razões para o não comparecimento estão dificuldades de deslocamento, problemas de saúde, mudança de domicílio, desatualização cadastral, desinteresse político, ausência do município e decisão deliberada de não votar.
Não existe qualquer garantia de que esses votos seriam direcionados para os mesmos candidatos ou partidos.
O cálculo apresentado nesta reportagem é uma equivalência matemática destinada a demonstrar o tamanho eleitoral da abstenção — e não uma previsão de como os ausentes efetivamente votariam.
Abstenção tem peso maior que a maioria dos partidos
Mesmo com essa ressalva, o diagnóstico revela uma dimensão política impressionante. Nenhum partido, com exceção do PL, conquistou nas urnas uma força parlamentar comparável àquela representada pelo conjunto dos eleitores que não votaram.
Na Alerj, os ausentes representariam aproximadamente 26,11% dos votos válidos em um cenário de comparecimento integral. Na eleição federal, representariam cerca de 25,52%.
Em outras palavras, o grupo dos que não compareceram às urnas seria responsável por aproximadamente um quarto da força eleitoral efetiva do estado.
A abstenção não aparece nas cadeiras do Legislativo, não apresenta projetos, não fiscaliza o governo e não participa das votações parlamentares. Mas seu tamanho demonstra que uma parcela decisiva da sociedade fluminense permaneceu fora da escolha de quem ocupará o poder pelos próximos quatro anos.
Participação poderia alterar completamente o resultado
Em uma eleição proporcional, pequenas variações na votação das legendas podem mudar a distribuição das últimas cadeiras. A entrada de quase três milhões de votos teria potencial para alterar quocientes, médias, bancadas partidárias, suplências e a própria relação dos candidatos eleitos.
Não seria apenas uma questão de adicionar novos parlamentares. Como o número total de cadeiras permanece fixo — 70 na Alerj e 46 na Câmara — o crescimento de um bloco necessariamente reduziria o espaço ocupado pelos demais partidos.
Por isso, a abstenção deve ser compreendida não somente como um dado estatístico, mas como uma ausência com efeitos concretos sobre a representação política.
Os 2.996.650 eleitores que não compareceram tinham, juntos, peso suficiente para construir uma das maiores forças parlamentares do Rio de Janeiro.
A eleição terminou, os mandatos foram distribuídos e os vencedores estão definidos. Mas o tamanho da abstenção deixa uma pergunta para os próximos pleitos: como seria a representação política do estado se todos os eleitores transformassem sua insatisfação, esperança ou cobrança em voto?
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral — totalização das Eleições 2026 no Estado do Rio de Janeiro.
