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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Operação da PF coloca relação de Cezinha com Mendonça e Vorcaro no centro da investigação


Deputado é alvo da terceira fase da Operação Transparência, que apura suspeitas de tráfico de influência junto a tribunais superiores

A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira (14) a terceira fase da Operação Transparência, que investiga suspeitas de tráfico de influência, exploração de prestígio, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Entre os alvos está o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).

Foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Distrito Federal. A operação foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, e é um desdobramento de uma investigação iniciada em dezembro de 2025 para apurar possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares.

Segundo a PF, os investigados teriam negociado pagamentos expressivos condicionados ao resultado de processos judiciais, sob a alegação de que poderiam influenciar decisões em tribunais superiores. A apuração ainda está em andamento e não representa condenação ou comprovação definitiva dos crimes investigados.

Encontro com Daniel Vorcaro

A ligação de Cezinha com o ministro André Mendonça ganhou destaque porque o deputado articulou, em março de 2025, um encontro entre Mendonça e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.

A reunião ocorreu na sede do Instituto Iter, em São Paulo, e foi confirmada pelo próprio ministro. Mendonça afirmou que o encontro teve caráter institucional e negou ter recebido qualquer pedido de favorecimento.

A relação passou a ser observada com maior atenção após as investigações envolvendo Vorcaro e o Banco Master provocarem uma crise interna no Supremo. O ministro André Mendonça é relator de processos relacionados ao caso e também tomou decisões que aumentaram a divergência entre integrantes da Corte.

A operação, no entanto, não é dirigida contra Mendonça. A própria Polícia Federal informou que, até o momento, não encontrou elementos que indiquem a participação de integrantes do Poder Judiciário nos fatos apurados. Veja os detalhes da investigação.

Pressão política sobre a Assembleia de Deus de Madureira

Cezinha é uma figura ligada à Assembleia de Deus Ministério de Madureira e construiu sua atuação política dentro da bancada evangélica. A proximidade com o grupo religioso dá à operação uma dimensão que ultrapassa o inquérito policial.

A investigação coloca sob pressão uma rede de relações políticas que envolve o deputado, o ministro do STF e o empresário que se tornou personagem central do caso Banco Master. O simples fato de Cezinha ter intermediado o encontro não prova irregularidade, mas explica por que seu nome passou a ocupar posição central nos novos desdobramentos.

A apuração busca esclarecer se contatos políticos e jurídicos foram utilizados para oferecer influência sobre processos em andamento e se houve negociação financeira relacionada a essas promessas.

Até o momento, não há decisão judicial reconhecendo a prática dos crimes. A PF ainda deverá analisar documentos, celulares e outros materiais recolhidos durante as buscas para identificar a extensão das relações investigadas e a eventual participação de outras pessoas.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Crise se aprofunda no STF: Dino reintegra chefe da PF e Fachin cancela sessão do plenário


Decisão reverte afastamento determinado por André Mendonça, reconduz diretor de inteligência da Polícia Federal e amplia tensão interna na Corte

A crise interna no Supremo Tribunal Federal ganhou um novo capítulo nesta quarta-feira, 9 de setembro, com uma disputa direta entre decisões de ministros da própria Corte. O ministro Flávio Dino determinou a reintegração imediata de Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal e também reconduziu Leandro Almada à direção de inteligência da corporação.

Os dois haviam sido afastados na terça-feira por decisão do ministro André Mendonça, em um episódio relacionado a relatórios de inteligência produzidos pela Polícia Federal e às investigações envolvendo o Banco Master, o ministro Alexandre de Moraes e o empresário Daniel Vorcaro.

A decisão de Dino reverteu, na prática, a medida tomada pelo colega apenas um dia antes. O ministro afirmou que o afastamento poderia comprometer investigações em andamento e interromper atividades consideradas essenciais da Polícia Federal. A determinação tem efeito imediato, mas deverá ser submetida ao plenário do Supremo para análise definitiva. A decisão foi noticiada pela Folha de S.Paulo.

Questionamento sobre a atuação de Mendonça

Ao justificar a reintegração, Flávio Dino questionou a possibilidade de André Mendonça decidir sobre relatórios que mencionavam o próprio ministro. Na avaliação apresentada pelo relator, uma autoridade diretamente citada em documentos de inteligência não deveria utilizar esse material como fundamento para uma decisão capaz de interferir no funcionamento da Polícia Federal.

Dino também afirmou que divergências pessoais ou funcionais não poderiam justificar uma medida com impacto sobre investigações e trabalhos policiais. O ministro sustentou ainda que Andrei Rodrigues teria apenas cumprido determinações judiciais ao participar da produção dos relatórios questionados.

O afastamento havia sido determinado por Mendonça após a divulgação de informações relacionadas a documentos da PF utilizados em uma investigação que envolvia o próprio ministro. O caso acabou provocando uma sequência de reações entre integrantes do Supremo.

Antes da decisão de Mendonça, Alexandre de Moraes havia solicitado a abertura de investigação contra o colega por suspeitas relacionadas à condução dos casos do Banco Master e do Instituto Nacional do Seguro Social. Mendonça, por sua vez, tornou público um relatório que mencionava relações entre Moraes e Daniel Vorcaro, ex-presidente do banco.

As acusações e respostas cruzadas transformaram uma disputa envolvendo documentos de investigação em uma crise institucional que passou a atingir diretamente o comando da Polícia Federal e o funcionamento do Supremo.

Fachin cancela sessão plenária

Pouco depois da decisão de Flávio Dino, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, cancelou a sessão plenária que estava prevista para esta quarta-feira.

O próprio Supremo confirmou oficialmente o cancelamento, informando que a decisão foi tomada pela Presidência da Corte. A comunicação foi publicada no portal oficial do STF.

A medida foi considerada atípica porque as sessões plenárias de quarta e quinta-feira integram a rotina regular do tribunal e normalmente só deixam de ocorrer em feriados, recessos ou situações previamente previstas no calendário.

Segundo a coluna de Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, não havia registro de cancelamento semelhante havia 17 anos. O episódio anterior ocorreu em 2009, depois de um confronto público entre os ministros Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa.

A pauta desta quarta-feira incluía o julgamento de uma ação sobre a contribuição previdenciária de trabalhadores rurais, conhecida como Funrural. A possibilidade de novas divergências no plenário teria contribuído para a decisão de suspender a sessão em meio ao ambiente de tensão.

Uma guerra de decisões dentro da Corte

A sequência dos acontecimentos expôs uma situação incomum: uma decisão individual de um ministro afastou o diretor-geral da Polícia Federal, outra decisão individual revogou o afastamento e, em seguida, a Presidência do STF cancelou uma sessão plenária prevista no calendário oficial.

A decisão de Flávio Dino também determinou que o caso seja analisado pelo plenário completo do Supremo, e não apenas pela Segunda Turma. Atualmente, a Corte é composta por dez ministros, já que uma cadeira está vaga.

O plenário deverá avaliar se a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada será mantida. Até que haja uma nova deliberação, a decisão de Dino permanece em vigor.

O conflito ocorre em meio ao avanço das apurações relacionadas ao Banco Master e à divulgação de mensagens e relatórios que colocaram ministros do Supremo no centro de questionamentos sobre relações institucionais, possíveis conflitos de interesse e procedimentos adotados em investigações.

As informações divulgadas até agora não representam, por si só, uma conclusão definitiva sobre eventuais irregularidades. Os fatos ainda estão sob análise e envolvem versões divergentes apresentadas pelos próprios ministros e pelas instituições citadas.

Crise chega às vésperas das eleições

A crise interna do Supremo ocorre a menos de um mês do primeiro turno das eleições gerais de 2026, marcado para 4 de outubro. A disputa entre ministros passou a ter impacto político porque envolve o comando da Polícia Federal, investigações de grande repercussão e acusações relacionadas a autoridades do Judiciário e do Executivo.

O episódio também aumenta a pressão sobre Edson Fachin, que assumiu a Presidência do STF com a promessa de apresentar uma resposta institucional à crise da Corte. O cancelamento da sessão, porém, evidencia a dificuldade de preservar a rotina do tribunal enquanto ministros divergem publicamente e decisões passam a se sobrepor em um intervalo de poucas horas.

O que começou como uma disputa sobre relatórios de inteligência e a condução de investigações transformou-se em uma crise aberta sobre os limites da atuação individual dos ministros, a independência da Polícia Federal e a capacidade do Supremo de resolver seus próprios conflitos.

A próxima decisão do plenário será determinante para indicar se a Corte conseguirá reorganizar internamente o caso ou se a sequência de medidas individuais continuará ampliando o desgaste institucional do tribunal.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Mensagens colocam Moraes no centro da organização de eventos de Vorcaro em Londres e ampliam crise no STF


Relatório da Polícia Federal indica que ministro participava da definição de convidados e da programação de fóruns patrocinados pelo empresário do Banco Master; revelações aprofundam questionamentos sobre a proximidade entre um integrante do Supremo e um banqueiro posteriormente alvo de uma das maiores investigações financeiras do país

As novas mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro ampliaram de forma significativa os questionamentos sobre a relação do ex-controlador do Banco Master com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes. O material indica que a proximidade entre os dois não se limitava a encontros sociais ou conversas ocasionais: Moraes teria participado diretamente da preparação de eventos privados organizados no exterior pelo empresário, opinando sobre convidados, programação e envio de convites a autoridades.

As informações constam de um relatório de 218 páginas elaborado pela Polícia Federal a partir do celular apreendido com Vorcaro durante a Operação Compliance Zero. O documento teve o sigilo retirado nesta terça-feira (1º) pelo ministro André Mendonça, relator das investigações relacionadas ao Banco Master no Supremo.

Entre os eventos analisados estão duas edições do Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, previstas para 2024 e 2025. A segunda acabou cancelada. Mensagens trocadas entre Vorcaro e funcionários responsáveis pela organização revelam que o nome de Moraes aparecia repetidamente nas decisões sobre o encontro.

Em uma das conversas, quando uma funcionária sugeriu o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, como moderador de uma mesa, Vorcaro rejeitou imediatamente a possibilidade e escreveu: “Alexandre morre se vc fizer isso. Aliás nos mata”. Em outra troca, o empresário pediu que uma lista de convidados não fosse enviada antes de passar pela aprovação do ministro.

As mensagens não demonstram, por si mesmas, a prática de crime por Moraes. Mas criam um problema institucional que não pode ser tratado como detalhe de agenda. Um ministro do Supremo aparece, segundo o material produzido pela PF, exercendo influência concreta sobre a organização de encontros privados financiados por um empresário que mantinha extensa rede de relacionamento com integrantes dos Três Poderes e que posteriormente seria preso numa investigação sobre graves suspeitas envolvendo o sistema financeiro.

O ponto central já não é apenas saber se Moraes conhecia Vorcaro. É compreender qual era a extensão dessa proximidade e por que um magistrado da mais alta Corte do país aparentemente possuía tamanho peso na estruturação de eventos privados ligados ao banqueiro.

Moraes teria reclamado da programação e participado de ajustes

Outro conjunto de mensagens reforça a percepção de envolvimento.

Em julho de 2025, Vorcaro comunicou à equipe que Moraes havia feito fortes reclamações sobre a organização do evento de Londres. Segundo o banqueiro, o ministro considerava o encontro desorganizado e teria demonstrado incômodo com o destaque atribuído a Tarcísio de Freitas na programação. A assessoria do governador paulista declarou posteriormente que Tarcísio nunca teve participação prevista naquele evento.

No dia seguinte, uma funcionária informou a Vorcaro que havia passado o dia com Moraes e com sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes, fechando o programa do encontro e que diversas alterações haviam sido feitas.

Há ainda mensagens indicando que convites para autoridades eram enviados ou acompanhados pelo próprio ministro. Em março de 2025, Vorcaro foi informado de que Moraes já estaria distribuindo avisos de reserva de data para o fórum. Dias depois, o banqueiro reclamou com sua equipe porque, segundo ele, Moraes havia cobrado a ausência de convites destinados a algumas pessoas.

Tomadas isoladamente, essas decisões podem parecer questões burocráticas de um seminário.

Quando analisadas em conjunto, porém, revelam um grau de envolvimento que exige explicações públicas mais robustas.

Ministros de tribunais superiores participam regularmente de congressos, seminários e fóruns jurídicos no Brasil e no exterior. Não há ilegalidade automática nisso. Também não é incomum que contribuam com sugestões de painéis ou indiquem especialistas.

O que torna o episódio diferente é quem financiava e articulava aqueles eventos e qual relação se desenvolveu paralelamente entre o empresário e pessoas ligadas ao ministro.

A proximidade com Vorcaro deixou de ser uma questão meramente social

A divulgação das mensagens ocorre no momento em que outras informações do relatório da PF já colocam a relação Moraes-Vorcaro sob escrutínio.

Os investigadores localizaram registros de diferentes encontros entre ambos, contatos intermediados inicialmente pelo ex-ministro das Comunicações Fábio Faria e mensagens nas quais Vorcaro buscava orientação ou apoio diante do avanço das investigações sobre o Banco Master.

Também vieram a público documentos relacionados ao contrato firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes Advogados, comandado por Viviane Barci de Moraes.

Metadados de uma versão do documento analisada pela investigação indicam que Alexandre de Moraes participou da revisão de uma minuta contratual. O escritório afirmou que o ministro foi consultado exclusivamente para verificar a existência de eventual impedimento legal para a contratação e sustentou que ele jamais julgou processos envolvendo o Banco Master.

A existência de um contrato de advocacia envolvendo o escritório de um familiar de magistrado não constitui, por si só, ilegalidade. Da mesma forma, revisar um documento para avaliar impedimentos não demonstra automaticamente favorecimento.

Mas, novamente, o problema surge quando os elementos são colocados lado a lado.

Há o contrato milionário com o escritório da esposa.

Há os encontros pessoais.

Há as mensagens de Vorcaro buscando interlocução com o ministro.

Há agora registros indicando influência de Moraes na organização de eventos internacionais bancados pelo ambiente empresarial ligado ao banqueiro.

Essa acumulação de fatos transforma aquilo que poderia ser explicado como convivência social em uma questão de confiança institucional.

O problema é especialmente grave porque se trata de um ministro do STF

Um ministro do Supremo possui um poder que poucos agentes públicos brasileiros concentram.

Pode decidir sobre investigações envolvendo autoridades, suspender atos dos demais Poderes, determinar medidas cautelares, julgar processos criminais de pessoas com foro privilegiado e participar de decisões capazes de alterar profundamente a política e a economia nacionais.

Justamente por isso, a exigência de distância em relação a interesses privados é muito maior.

Não é necessário demonstrar que um magistrado efetivamente praticou um ato ilegal para que uma relação levante questionamentos legítimos. A própria aparência de conflito de interesses pode corroer a confiança numa instituição cuja autoridade depende fundamentalmente da percepção de independência de seus integrantes.

O relatório da PF ainda não apresenta prova conclusiva de que Moraes tenha praticado um ato concreto para favorecer ilegalmente Vorcaro. Especialistas em Direito ouvidos após a divulgação do material também ressaltaram essa diferença: eventual responsabilização criminal dependeria da demonstração de que o ministro efetivamente utilizou sua função para beneficiar interesse privado.

É exatamente por isso que o aprofundamento da investigação é indispensável.

Não para condenar previamente Alexandre de Moraes, mas porque um ministro do Supremo não pode permanecer protegido de perguntas que seriam inevitáveis se os mesmos fatos envolvessem qualquer outra autoridade pública.

André Mendonça leva caso ao centro do Supremo

A crise já ultrapassou os limites da Polícia Federal.

André Mendonça retirou o sigilo do relatório e passou a defender que as questões envolvendo Moraes sejam analisadas pelo plenário do STF. Ele conversou com o presidente da Corte, Edson Fachin, sobre a possibilidade de levar o assunto a uma sessão pública.

A iniciativa provocou reação interna.

Ministros ouvidos pela imprensa questionaram o procedimento adotado por Mendonça e sustentaram que uma investigação formal contra integrante do Supremo deveria obedecer a ritos específicos, inclusive com participação da Procuradoria-Geral da República. Há, portanto, discussão jurídica também sobre a forma como o material foi produzido e tornado público.

Essa controvérsia não elimina o conteúdo das mensagens.

Pode influenciar sua utilização processual, pode alterar o caminho de uma eventual investigação e pode provocar disputas dentro da própria Corte. Mas as informações tornadas públicas continuarão exigindo respostas políticas e institucionais.

A oposição no Senado já passou a usar as revelações para renovar pressões por impeachment do ministro, movimento que enfrenta forte resistência da presidência da Casa e de partidos do centro.

O risco evidente é que um assunto que deveria ser esclarecido com transparência seja reduzido a mais uma batalha entre bolsonaristas e adversários de Bolsonaro.

Seria um erro.

A pergunta sobre a conduta de um ministro do Supremo não pertence à direita nem à esquerda.

Pertence à República.

Moraes precisa explicar mais, não menos

A divulgação dos novos elementos coloca Alexandre de Moraes diante de uma responsabilidade que vai além da defesa jurídica.

Ele precisa explicar publicamente qual era sua relação com Daniel Vorcaro, por que interferia na seleção de participantes e na programação de eventos vinculados ao banqueiro, qual era a natureza de sua participação nesses encontros e em que medida suas ações se limitavam a uma colaboração institucional comum.

Também precisa ser esclarecido se houve qualquer situação em que interesses do Banco Master ou de Vorcaro passaram pela esfera de atuação direta ou indireta do ministro.

Até agora, o relatório não comprova que Moraes recebeu recursos de Vorcaro. Também não demonstra, de maneira conclusiva, que ele tenha usado seu cargo para impedir uma investigação ou beneficiar ilegalmente o banqueiro. Uma apuração responsável precisa registrar esses limites.

Mas jornalismo responsável também não pode usar a ausência de uma condenação como desculpa para ignorar fatos politicamente constrangedores.

Um banqueiro investigado discutia listas de convidados como se a aprovação do ministro fosse decisiva.

Funcionários relatavam passar horas com Moraes e sua esposa fechando o programa de um evento.

O empresário dizia que o ministro reclamava da organização e do destaque concedido a determinados nomes.

Convites eram ajustados conforme as preferências atribuídas a Moraes.

Esse conjunto de informações não permite declarar culpa criminal.

Permite — e exige — questionar.

Transparência é a única saída aceitável

Alexandre de Moraes construiu nos últimos anos uma atuação pública baseada numa defesa enfática das instituições, do Estado Democrático de Direito e da responsabilidade daqueles que exercem poder.

A mesma régua precisa valer quando os questionamentos chegam ao próprio Supremo.

Não seria aceitável que mensagens semelhantes envolvendo um presidente da República, um ministro de Estado, um senador ou um dirigente de agência reguladora fossem tratadas como simples relações pessoais sem necessidade de esclarecimento.

Muito menos deve ser assim com um integrante da mais alta Corte do país.

O Supremo não perde autoridade quando investiga seus próprios ministros.

Perde autoridade quando parece incapaz de fazê-lo.

Se as explicações demonstrarem que a participação de Moraes nos eventos era legítima, compatível com sua função e sem qualquer consequência para decisões públicas, isso deve ser estabelecido por fatos.

Se surgirem elementos indicando interferência imprópria, eles também devem ser apurados com independência.

O que não parece mais razoável é tratar a relação entre Moraes e Vorcaro como uma sucessão de coincidências sem relevância institucional.

As mensagens retiradas do celular do banqueiro tornaram essa interpretação cada vez mais difícil.

Daniel Vorcaro era um empresário com profundo trânsito entre autoridades brasileiras. Moraes era uma das autoridades que aparecem repetidamente nesse círculo.

Agora, a Polícia Federal colocou documentos, mensagens e registros diante do país.

O mínimo que uma instituição que exige transparência dos outros Poderes deve oferecer é exatamente o mesmo.