Reconhecimento conquistado pelo GET IV Centenário, em Pequim, projeta modelo criado na gestão de Eduardo Paes e Renan Ferreirinha; candidato a deputado federal quer articular financiamento e apoio nacional para levar a experiência a outras regiões do Rio e do Brasil
Uma escola pública localizada no Complexo da Maré atravessou fronteiras e colocou a educação carioca no centro de um debate internacional sobre inovação, tecnologia e transformação social.
O Ginásio Educacional Tecnológico IV Centenário venceu o Practice Innovation Prize, uma das categorias do Global Smart Education Innovation Prize 2026. A premiação ocorreu durante conferência realizada entre os dias 18 e 20 de agosto, em Pequim, na China.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, o ex-secretário municipal de Educação e candidato a deputado federal Renan Ferreirinha comemorou o resultado e destacou o significado de uma unidade pública da Maré ser reconhecida internacionalmente.
“Uma escola pública da Maré sendo reconhecida do outro lado do mundo. Vocês têm noção disso?”, afirmou Ferreirinha.
O reconhecimento foi concedido ao projeto Fábrica de Sonhos, que combina aprendizagem tecnológica, atividades práticas e acompanhamento socioemocional. A proposta aproxima estudantes, professores, famílias e território, estimulando as crianças a desenvolver projetos e imaginar perspectivas de futuro para além das adversidades enfrentadas em seu cotidiano.
A escola também foi selecionada entre as dez finalistas do World’s Best School Prizes 2026, na categoria Superação de Adversidades. Isso significa que ficou entre as dez melhores escolas inscritas naquela categoria específica — e não entre as dez melhores do mundo em uma classificação geral. O GET IV Centenário foi a única escola pública brasileira presente nessa relação de finalistas. Confira o perfil da unidade na T4 Education.
Tecnologia, acolhimento e aprendizagem dentro da Maré
O GET IV Centenário atende crianças do primeiro ao quinto ano do Ensino Fundamental na comunidade do Timbau.
Segundo as informações apresentadas à organização internacional, a unidade perdeu 37 dias letivos em 2024 em consequência da violência no território. Mesmo diante desse cenário, registrou frequência superior a 90%, ausência de evasão, alfabetização de 97% dos estudantes na idade esperada e Ideb de 6,6 em 2023.
A escola utiliza robótica, realidade virtual, computadores, impressoras 3D e outros recursos tecnológicos. Entretanto, o projeto premiado mostra que a proposta não se resume à compra de equipamentos.
Um dos exemplos é o Café com Música e Prosa, realizado antes do início das atividades. Nesse momento, estudantes e professores compartilham sentimentos e conversam sobre os desafios vividos dentro e fora da escola. A prática procura criar segurança emocional para crianças expostas à violência e à instabilidade.
Os alunos também identificam problemas ou ideias, pesquisam, criam protótipos, apresentam soluções e avaliam o trabalho desenvolvido. A tecnologia funciona como ferramenta para estimular criatividade, colaboração, autonomia e resolução de problemas.
O prêmio recebido em Pequim reconheceu justamente essa combinação entre inovação pedagógica, inclusão, equidade e capacidade de responder às dificuldades do território. Veja os detalhes da premiação.
Um projeto construído por Eduardo Paes e Ferreirinha
Os Ginásios Educacionais Tecnológicos começaram a ser implantados em março de 2022, durante a administração do então prefeito Eduardo Paes, quando Ferreirinha comandava a Secretaria Municipal de Educação.
O modelo reúne ensino em tempo integral, aprendizagem por projetos e abordagem STEAM, sigla que representa Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática. As unidades possuem espaços conhecidos como colaboratórios, nos quais os estudantes utilizam ferramentas tecnológicas e desenvolvem atividades práticas.
Em junho de 2024, Paes e Ferreirinha inauguraram juntos o GET de número 200. Naquele momento, o programa atendia aproximadamente 100 mil estudantes. Relembre a inauguração do 200º GET.
Em março de 2026, a rede alcançou 300 unidades e cerca de 125 mil alunos. Em agosto, já eram 316 GETs em funcionamento. A Prefeitura trabalha com a meta de chegar a 350 unidades e 150 mil estudantes ainda em 2026, além de alcançar 500 GETs até o final de 2028.
Esses números representam escolas que passaram a operar segundo o modelo GET. Não significam que todos os prédios foram construídos do zero: o processo envolve novas unidades, reformas e transformação pedagógica de escolas existentes.
A expansão aconteceu dentro de uma rede que atendia mais de 586 mil estudantes em 1.558 escolas em 2025. Nesse período, o Ideb dos anos iniciais do Ensino Fundamental passou de 5,4, em 2021, para 6,2, em 2025. Nos anos finais, o avanço foi menor, de 5,0 para 5,2. Consulte os resultados divulgados pela SME.
A evolução da rede não pode ser atribuída exclusivamente aos GETs. Ela resulta do trabalho de professores, gestores, profissionais da educação e de diferentes políticas de alfabetização, reforço, avaliação e combate ao abandono. Ainda assim, o crescimento do programa e o reconhecimento internacional mostram que o modelo se tornou uma das principais marcas educacionais da gestão.
O próximo passo: levar a experiência para o estado
Agora candidato a deputado federal pelo PSD, Ferreirinha apresenta a expansão dos GETs para além da capital como uma das possibilidades para transformar a educação fluminense.
A proposta ganha dimensão política com a candidatura de Eduardo Paes ao Governo do Estado. Paes foi oficializado pelo PSD como candidato a governador em julho de 2026 e apresenta os GETs entre as realizações de sua gestão municipal. Veja a confirmação da candidatura.
Uma eventual ampliação para todo o estado dependeria de uma atuação conjunta. O governador e a Secretaria Estadual de Educação teriam a responsabilidade de planejar, financiar e implantar uma versão do modelo na rede estadual. As prefeituras, que possuem autonomia sobre suas redes, poderiam participar por meio de adesão e cooperação.
Ferreirinha, se eleito deputado federal, não teria poder para abrir ou administrar escolas estaduais diretamente. Sua atuação aconteceria no Congresso, onde poderia trabalhar para ampliar os recursos disponíveis, apresentar emendas ao Orçamento, articular programas com o Ministério da Educação e criar incentivos nacionais para redes que adotem educação integral associada à inovação pedagógica.
Essa divisão de responsabilidades torna a aliança com Paes relevante: enquanto o governo estadual teria os instrumentos executivos para adaptar o modelo ao Rio de Janeiro, o mandato federal poderia buscar financiamento e apoio nacional.
Fundeb e educação integral no centro da atuação federal
Ferreirinha já apresentou uma proposta relacionada ao financiamento da educação integral.
O PL 2.752/2023 pretende elevar para 1,50 a ponderação do valor anual por estudante do Fundeb nas matrículas em tempo integral. Na prática, a mudança busca ampliar os recursos destinados aos estados e municípios que mantêm os alunos por mais tempo na escola.
O projeto ainda está em tramitação e aguarda parecer na Comissão de Educação da Câmara. Portanto, não é uma regra em vigor. Acompanhe o PL 2.752/2023.
Um mandato dedicado à expansão desse modelo também poderia trabalhar por recursos federais para conectividade, laboratórios, formação continuada de professores, materiais pedagógicos e avaliação independente dos resultados.
O governo federal já mantém o Programa Escola em Tempo Integral, que considera integrais as matrículas com jornada mínima de sete horas diárias ou 35 horas semanais. A articulação com essa política permitiria adaptar elementos dos GETs a redes com estruturas e necessidades diferentes.
Replicar a experiência, porém, exige mais do que instalar impressoras 3D ou equipamentos de robótica. É necessário garantir internet de qualidade, manutenção, professores preparados, segurança, alimentação, infraestrutura e acompanhamento constante da aprendizagem.
Também será importante avaliar quanto custa o modelo por estudante e comparar os resultados de escolas GETs com outras unidades de perfil semelhante. O prêmio conquistado por uma escola da Maré é um sinal relevante de qualidade, mas a expansão em grande escala precisa ser acompanhada por transparência e evidências.
Da experiência local para uma agenda nacional
A trajetória recente de Ferreirinha oferece um exemplo de como uma política municipal pode alcançar o debate nacional.
Depois de implantar a restrição dos celulares nas escolas do Rio, ele atuou como relator na Comissão de Constituição e Justiça do projeto que deu origem à Lei Federal 15.100/2025, aplicada às escolas públicas e particulares de todo o país. Ferreirinha não foi o autor original da proposta, mas teve participação decisiva como relator. Confira o histórico na Câmara.
Em 2025, também foi eleito presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação das Capitais, função que ampliou sua articulação com gestores de diferentes regiões brasileiras. Veja a eleição para o Consec.
Como candidato a deputado federal, Ferreirinha procura ocupar justamente esse espaço: o de um gestor que participou da implantação de políticas em uma das maiores redes públicas do país e que agora pretende transformá-las em propostas para o Rio de Janeiro e para o Brasil.
O reconhecimento conquistado pelo GET IV Centenário não pertence apenas a uma administração ou a um candidato. Como o próprio Ferreirinha ressaltou no vídeo, a conquista é dos professores, gestores, estudantes, famílias e profissionais que mantêm a escola funcionando diariamente dentro da Maré.
Politicamente, porém, o resultado fortalece o argumento defendido por ele e por Eduardo Paes: experiências implantadas na capital podem servir de referência para uma nova política educacional estadual.
O desafio será transformar reconhecimento em escala sem perder qualidade. Se conseguir combinar a capacidade executiva do governo estadual com financiamento, legislação e articulação federal, a parceria poderá levar educação integral, tecnologia e aprendizagem prática a um número muito maior de estudantes.
Da Maré para Pequim, o GET IV Centenário mostrou o potencial da escola pública. O compromisso apresentado por Ferreirinha agora é fazer com que oportunidades semelhantes não sejam uma exceção, mas uma possibilidade concreta para crianças e jovens de todo o Rio de Janeiro — e uma referência para a educação brasileira.

