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segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Estudos alertam: pessoas podem estar entregando o próprio raciocínio à inteligência artificial


A inteligência artificial promete economizar tempo, organizar informações e ajudar na tomada de decisões. Mas uma série de estudos recentes levanta uma preocupação: ao delegar tarefas mentais às máquinas com frequência, parte dos usuários pode estar deixando de exercitar o próprio raciocínio.

O fenômeno é chamado de “terceirização cognitiva” ou “dependência cognitiva”. Ele ocorre quando uma pessoa deixa de analisar, comparar e questionar uma informação porque espera que a inteligência artificial faça esse trabalho por ela.

IA melhora o resultado imediato, mas pode enfraquecer a autonomia

Um estudo conduzido pelo MIT Media Lab acompanhou 67 pessoas durante quatro semanas em tarefas de identificação de notícias falsas.

Durante as atividades com auxílio de um chatbot, os participantes foram 21% mais precisos na identificação de desinformação. O problema apareceu quando a ferramenta foi retirada.

Ao final do período, o desempenho sem a IA caiu 15 pontos percentuais em relação ao início do experimento. Cerca de um quinto dos participantes também passou a apresentar um comportamento descrito pelos pesquisadores como aceitação mais passiva das respostas do sistema.

Em outras palavras, a IA ajudava a resolver o problema naquele momento, mas nem sempre contribuía para que a pessoa aprendesse a resolvê-lo sozinha.

O estudo teve limitações importantes, como o número reduzido de participantes, o período curto de acompanhamento e a concentração da amostra nos Estados Unidos e no Reino Unido. Os resultados, portanto, não significam que toda utilização de inteligência artificial provoque perda de capacidade crítica.

Confiança excessiva reduz o esforço de verificação

Outra pesquisa, publicada na conferência CHI 2025 por pesquisadores da Microsoft Research e da Carnegie Mellon University, analisou 319 profissionais e 936 exemplos reais de uso de inteligência artificial no trabalho.

O levantamento identificou uma relação entre a confiança depositada na IA e a quantidade de pensamento crítico empregado na tarefa. Quanto maior a confiança no sistema, menor tendia a ser o esforço de análise relatado pelos participantes.

A pesquisa também mostrou que o pensamento crítico não desaparece necessariamente. Ele pode mudar de função: em vez de elaborar a resposta desde o início, o usuário passa a verificar o conteúdo, integrar a resposta ao trabalho e supervisionar o resultado.

O risco surge quando essa supervisão também é abandonada.

O problema não é usar IA. É parar de pensar

Estudos sobre ferramentas digitais mostram que o chamado “descarregamento cognitivo” não é automaticamente negativo. Em determinadas situações, deixar uma tarefa mecânica para a tecnologia pode liberar tempo e energia para atividades mais complexas.

Uma pesquisa publicada em 2026 na Frontiers in Psychology encontrou resultados mais equilibrados: o uso de ferramentas digitais esteve associado a autoconfiança cognitiva, persistência e aprendizagem mais profunda quando os usuários continuavam envolvidos no processo.

A diferença está na forma de uso.

A IA pode funcionar como uma tutora, ajudando a apresentar argumentos, apontar contradições e fazer perguntas. Mas também pode se transformar em uma muleta, entregando respostas prontas que o usuário aceita sem conferir.

Como usar inteligência artificial sem terceirizar o raciocínio

Especialistas recomendam algumas práticas simples:

  • Tente formular uma hipótese antes de pedir a resposta à IA;

  • Solicite argumentos contrários e possíveis erros;

  • Confira informações importantes em fontes independentes;

  • Não trate uma resposta bem escrita como prova de que ela está correta;

  • Reescreva o resultado com suas próprias palavras;

  • Em temas sensíveis, consulte documentos oficiais e profissionais qualificados.

A discussão não é sobre abandonar a inteligência artificial. É sobre impedir que a conveniência substitua capacidades que continuam essenciais: interpretar, duvidar, comparar evidências e tomar decisões.

A pergunta mais importante talvez não seja se a IA consegue pensar.

É se, ao usá-la todos os dias, ainda estamos pensando por conta própria.

Cientistas recriam vídeos vistos por camundongos a partir da atividade cerebral


Pesquisadores da University College London conseguiram reconstruir vídeos observados por camundongos usando apenas registros da atividade cerebral dos animais.

O estudo, publicado na revista científica eLife, utilizou imagens do córtex visual — região do cérebro responsável pelo processamento das informações captadas pelos olhos. A equipe acompanhou a atividade de milhares de neurônios enquanto os camundongos assistiam a vídeos de aproximadamente 10 segundos.

Com esses dados, os cientistas desenvolveram um modelo computacional capaz de estimar quais imagens poderiam ter provocado determinada reação neural. O sistema então reconstruiu versões das cenas exibidas aos animais.

Os resultados conseguiram reproduzir movimentos, formas e mudanças visuais presentes nos vídeos originais. A semelhança média entre as imagens reais e as reconstruídas atingiu uma correlação de aproximadamente 0,57 em nível de pixels.

Apesar do avanço, o experimento não significa que os pesquisadores tenham “lido os pensamentos” dos camundongos. O sistema não recuperou um vídeo armazenado na mente dos animais. Ele fez uma reconstrução computacional baseada nos sinais registrados em uma área específica do cérebro.

A técnica também possui limitações. Os pesquisadores analisaram apenas uma parte do córtex visual, com campo de observação restrito. Detalhes muito pequenos e movimentos rápidos foram mais difíceis de reproduzir.

Mesmo assim, o trabalho pode ajudar a entender como o cérebro transforma estímulos visuais em percepção. A pesquisa também reforça que a atividade neural carrega informações suficientes para permitir que algoritmos façam estimativas sobre aquilo que um animal está observando.

Por enquanto, não existe uma aplicação imediata para “reconstruir pensamentos” em seres humanos. O resultado representa, principalmente, uma ferramenta para estudar o funcionamento do cérebro e a forma como a visão é processada.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

AVC E INFARTO: nova medida amplia medicamento que pode salvar vidas nas UPAs e no Samu pelo SUS


Lei sancionada nesta quarta-feira (2) reforça a oferta de trombolíticos na rede pública de urgência e emergência; tratamento pode dissolver coágulos e reduzir mortes e sequelas quando utilizado no tempo adequado

Uma mudança na legislação brasileira pode encurtar um dos intervalos mais decisivos da medicina de emergência: o tempo entre os primeiros sintomas de um infarto ou AVC isquêmico e o início do tratamento.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou nesta quarta-feira, 2 de setembro, o texto originado do Projeto de Lei 5.972/2023, que prevê a ampliação da oferta de medicamentos trombolíticos na rede de urgência e emergência do Sistema Único de Saúde (SUS), incluindo as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). A estratégia também alcança o Samu 192, onde o medicamento já pode ser administrado em unidades de Suporte Avançado de Vida habilitadas.

Os trombolíticos são medicamentos capazes de dissolver coágulos que bloqueiam a circulação sanguínea. No infarto agudo do miocárdio, a obstrução compromete o fluxo de sangue para o coração. No AVC isquêmico, um coágulo interrompe a circulação em uma região do cérebro.

Nos dois casos, tempo é determinante. Quanto mais rapidamente o paciente é diagnosticado e recebe o tratamento adequado, maiores podem ser as chances de sobrevivência e menores os riscos de sequelas permanentes.

O que muda na prática

A principal novidade não significa que todas as UPAs e ambulâncias do Samu passarão imediatamente a manter e aplicar trombolíticos.

Os protocolos do SUS já preveem o uso desses medicamentos em determinados serviços de urgência e emergência, inclusive nas UPAs. Até agora, porém, a aquisição dos remédios depende dos gestores locais. A nova legislação pretende fortalecer essa estrutura e ampliar a disponibilidade do tratamento em todo o país.

O Ministério da Saúde também criou um comitê para acompanhar a implementação das linhas de cuidado de AVC e infarto. O grupo deverá propor diretrizes para ampliar o acesso aos medicamentos, organizar os fluxos entre unidades de saúde e qualificar o atendimento.

A mudança pode ser particularmente importante em cidades afastadas de hospitais com estrutura para procedimentos de alta complexidade.

No caso de determinados tipos de infarto, por exemplo, o trombolítico pode ser indicado quando uma angioplastia não estiver disponível dentro do período recomendado. O medicamento pode então ser administrado enquanto é organizada a transferência do paciente para uma unidade de referência.

No AVC, entretanto, há uma diferença fundamental: o trombolítico é destinado a situações específicas de AVC isquêmico e somente pode ser aplicado depois da avaliação médica e da exclusão de contraindicações. O AVC também pode ser hemorrágico, provocado pelo rompimento de um vaso, condição que exige outra abordagem terapêutica.

Brasil registra centenas de milhares de casos

A dimensão do problema ajuda a explicar a relevância da medida.

O Ministério da Saúde estima que ocorram entre 300 mil e 400 mil casos de infarto por ano no Brasil. Somente em 2025, o SUS contabilizou 292 mil atendimentos relacionados a AVC, sendo aproximadamente 218 mil referentes a AVC isquêmico.

O uso de trombolíticos pelo Samu ainda está concentrado em parte do território nacional. Atualmente, 102 unidades de Suporte Avançado de Vida do Samu 192, distribuídas por sete estados, estão habilitadas para receber recursos destinados a esse tipo de assistência.

Em 2025, foram registradas 861 aplicações de tenecteplase pelo Samu 192 em todo o país. A expectativa do Ministério da Saúde é ampliar a quantidade de unidades preparadas para iniciar o tratamento quando houver indicação clínica.

Reconhecer rapidamente os sintomas pode salvar uma vida

A ampliação do tratamento não elimina um dos maiores obstáculos no enfrentamento ao AVC e ao infarto: a demora para buscar atendimento.

No caso do AVC, sinais como fraqueza ou formigamento de um lado do corpo, alteração repentina da fala, dificuldade de compreensão, perda de equilíbrio, alterações na visão e dor de cabeça súbita e intensa exigem atendimento imediato.

No infarto, os sinais mais conhecidos incluem dor ou pressão no peito, que pode irradiar para braços, costas ou rosto, além de falta de ar, suor frio, palidez e sensação de desmaio. Idosos e pessoas com diabetes podem apresentar sintomas menos típicos.

Diante de sintomas compatíveis com essas emergências, a orientação é acionar o Samu pelo telefone 192 ou procurar imediatamente um serviço de urgência.

Não se deve esperar que os sintomas desapareçam espontaneamente.

Impacto também interessa diretamente à Região dos Lagos

Para municípios da Região dos Lagos, onde o deslocamento entre uma unidade inicial de atendimento e hospitais de maior complexidade pode consumir um período decisivo, a ampliação efetiva dos protocolos merece acompanhamento.

A lei cria a possibilidade de aproximar uma terapia tempo-dependente do local onde muitos pacientes chegam primeiro: a UPA ou o próprio atendimento móvel de urgência.

O impacto real, entretanto, dependerá da regulamentação, da disponibilidade dos medicamentos, da capacitação das equipes e da estrutura diagnóstica oferecida por estados e municípios.

Por isso, o próximo ponto a ser observado será como a nova política chegará às UPAs e às bases do Samu da Região dos Lagos e quais unidades estarão preparadas para utilizar os trombolíticos dentro dos protocolos estabelecidos pelo Ministério da Saúde.

A mudança representa um avanço potencialmente importante, mas sua eficácia será medida longe de Brasília: no momento em que uma pessoa com AVC ou infarto chegar a uma unidade de emergência e encontrar diagnóstico, equipe, medicamento e estrutura disponíveis antes que o tempo se transforme em sequelas irreversíveis ou morte.