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sábado, 3 de outubro de 2026

Quando o aluno pede ajuda em silêncio: lei de Ferreirinha antecipou uma urgência que chegou às escolas


Coautor do Selo Escola Amiga da Saúde Mental, candidato a deputado federal reúne experiência legislativa e de gestão; desafio nacional é transformar reconhecimento institucional em prevenção, formação de profissionais e acesso efetivo ao cuidado

Nem todo pedido de ajuda é feito em voz alta. Dentro das escolas, mudanças de comportamento, isolamento, queda repentina no rendimento, crises de ansiedade, automutilação e faltas frequentes podem revelar sofrimentos que ultrapassam os limites da sala de aula.

O tema ganhou urgência diante dos números mais recentes. Segundo levantamento divulgado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com dados da Secretaria de Estado de Saúde, as 27 UPAs estaduais realizaram 169.838 atendimentos relacionados à saúde mental entre 2023 e 2025. O total anual passou de 50.624 para 64.400 no período, crescimento aproximado de 27%.

No cenário nacional, o Atlas da Violência 2026 apontou que a taxa de internações por lesões autoprovocadas entre pessoas de 10 a 19 anos aumentou 73% em uma década, passando de 3,7 para 6,4 casos por 100 mil habitantes entre 2014 e 2024.

É nesse contexto que uma parte menos conhecida da trajetória de Renan Ferreirinha, candidato a deputado federal pelo PSD, volta a ganhar relevância. Antes de comandar a Secretaria Municipal de Educação do Rio, Ferreirinha participou da criação de leis estaduais voltadas à inclusão e à promoção da saúde mental em escolas e ambientes de trabalho.

Uma lei para reconhecer escolas comprometidas com a inclusão

Em 2019, quando exercia mandato na Assembleia Legislativa, Ferreirinha apresentou com a deputada Lucinha o projeto que deu origem à Lei Estadual 9.250/2021, responsável pela criação do Selo Escola Amiga da Saúde Mental.

A legislação prevê o reconhecimento de instituições de ensino que comprovem ações de inclusão social de pessoas com transtornos mentais e com Transtorno do Espectro Autista. Entre seus objetivos estão a conscientização das famílias e da sociedade, a humanização das relações, a prevenção ao suicídio e a promoção da saúde mental.

O selo tem validade de dois anos e pode ser renovado após nova avaliação. A fiscalização dos critérios cabe à Secretaria de Estado de Educação, que também pode cancelar a autorização quando a escola deixa de cumprir as exigências.

O ponto central da lei é colocar a saúde mental dentro da responsabilidade institucional da escola. A proposta rompe com a ideia de que o sofrimento emocional deve ser enfrentado exclusivamente pelo estudante e por sua família.

Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer os limites do instrumento: um selo não substitui atendimento psicológico, rede pública de saúde, profissionais capacitados ou protocolos de acolhimento. Seu valor depende da regulamentação, da fiscalização e da existência de práticas verificáveis dentro das instituições reconhecidas.

A preocupação também chegou ao ambiente de trabalho

Ferreirinha e Lucinha também são autores da Lei Estadual 8.613/2019, que criou o Selo Empresa Amiga da Saúde Mental no Rio de Janeiro.

Nesse caso, a certificação é direcionada a empresas que contribuam para a inclusão de pessoas com deficiências mentais em seus quadros ou entre os trabalhadores terceirizados. A lei exige ações de valorização, aperfeiçoamento e humanização das relações de trabalho.

As duas legislações revelam uma linha de atuação que atravessa diferentes etapas da vida: a inclusão dentro da escola e a construção de oportunidades no mercado de trabalho.

Não se trata de afirmar que essas leis, isoladamente, resolveram o problema. A ausência de informações públicas consolidadas sobre o número de instituições certificadas e os efeitos produzidos dificulta uma avaliação completa da implementação. Esse é justamente um dos desafios das políticas baseadas em selos: sem metas, indicadores e transparência, o reconhecimento pode perder força e se tornar apenas simbólico.

A escola não é consultório, mas não pode ignorar os sinais

Professores e gestores não devem substituir psicólogos, psiquiatras ou equipes do Sistema Único de Saúde. A escola, entretanto, ocupa uma posição estratégica para perceber alterações de comportamento, acolher o estudante e encaminhá-lo à rede de proteção.

Essa compreensão ganhou novo peso em 2026. A Lei Federal 15.413 incluiu no Estatuto da Criança e do Adolescente o direito de crianças e adolescentes a programas de saúde mental promovidos pelo SUS. A norma determina atendimento psicossocial básico e especializado, assistência de urgência e formação permanente dos profissionais responsáveis pela identificação de sinais de risco.

O avanço legal cria uma obrigação nacional, mas sua efetividade dependerá da articulação entre escolas, unidades básicas de saúde, Centros de Atenção Psicossocial, assistência social, conselhos tutelares e famílias.

Na prática, o desafio é impedir que o estudante seja simplesmente encaminhado de um serviço para outro sem receber atendimento. Uma política eficiente precisa definir fluxos, responsáveis, prazos e formas de acompanhamento.

Experiência de gestão amplia a responsabilidade

Entre 2021 e 2026, Ferreirinha comandou uma das maiores redes municipais de ensino do país. A experiência administrativa acrescentou uma dimensão prática à atuação legislativa: gerir uma rede com centenas de milhares de alunos significa lidar diariamente com situações de vulnerabilidade, conflitos familiares, violência, inclusão e dificuldades de aprendizagem.

Essa trajetória não autoriza atribuir a uma única pessoa todo o trabalho realizado pela rede. Resultados educacionais dependem de professores, gestores escolares, equipes técnicas, profissionais de apoio e das demais áreas do poder público.

Mas a combinação entre mandato parlamentar e gestão executiva oferece a Ferreirinha uma visão relevante sobre a distância existente entre aprovar uma lei e fazer a política funcionar na rotina de uma escola.

O que essa experiência pode representar em Brasília

Como candidato a deputado federal, Ferreirinha pode transformar esse histórico em uma agenda nacional de saúde mental ligada à educação. Isso não significa que todas as medidas abaixo já sejam projetos formalmente apresentados por ele. Trata-se das frentes em que um parlamentar federal pode atuar a partir da experiência acumulada:

  • ampliar recursos para a Rede de Atenção Psicossocial e para programas voltados a crianças e adolescentes;
  • apoiar a formação de professores e gestores para identificar sinais de risco sem transformar educadores em profissionais clínicos;
  • criar parâmetros nacionais para protocolos de acolhimento e encaminhamento;
  • fiscalizar a implementação do direito ao atendimento previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente;
  • fortalecer a integração entre educação, saúde e assistência social;
  • exigir indicadores públicos que permitam avaliar se certificações e programas produzem resultados concretos.

O Congresso também pode aperfeiçoar propostas que discutem a criação de um Selo Escola Amiga da Saúde Mental em âmbito nacional. A experiência fluminense ajuda a mostrar tanto o potencial quanto os limites desse modelo.

Saúde mental não pode aparecer somente na emergência

A maior dificuldade das políticas de saúde mental é vencer a lógica da reação tardia. Muitas vezes, a rede pública só é acionada quando o sofrimento já se transformou em crise.

Prevenção exige ambientes escolares seguros, combate ao bullying, formação permanente, escuta qualificada, diálogo com as famílias e acesso rápido ao atendimento especializado. Também exige cuidado com professores e demais profissionais da educação, que convivem com sobrecarga, violência e pressão por resultados.

Ao colocar o tema em leis voltadas às escolas e às empresas, Ferreirinha ajudou a abrir uma discussão necessária sobre inclusão e responsabilidade institucional. O próximo passo é mais exigente: transformar reconhecimento em política monitorada, com orçamento, profissionais e atendimento real.

Na véspera de uma eleição em que Ferreirinha disputa uma cadeira na Câmara dos Deputados, esse aspecto de sua trajetória revela uma pauta que vai além dos indicadores tradicionais da educação.

Uma escola preparada para ensinar também precisa estar preparada para acolher. E uma política pública só cumpre sua função quando o pedido de ajuda encontra uma porta aberta — antes que se transforme em emergência.

Fontes consultadas

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Plano não pode ficar no papel: Ferreirinha defende cobrança e execução das metas da educação até 2036


Novo Plano Nacional de Educação estabelece 73 metas para a próxima década; candidato a deputado federal sustenta que o país precisa transformar objetivos legais em orçamento, acompanhamento e resultados dentro das escolas

O Brasil já tem um novo Plano Nacional de Educação. A pergunta que passa a definir os próximos dez anos é outra: as metas sairão do papel e chegarão às salas de aula?

Sancionada em abril, a Lei 15.388/2026 instituiu o PNE 2026–2036 com 19 objetivos, 73 metas e 372 estratégias. O texto estabelece compromissos para creches, alfabetização, aprendizagem, educação integral, conectividade, formação dos professores, infraestrutura e financiamento.

Na disputa por uma vaga na Câmara dos Deputados, Renan Ferreirinha, candidato a deputado federal pelo PSD, coloca a implementação do plano entre os eixos de sua agenda educacional.

O ponto central de sua defesa é que uma lei extensa não transforma a escola sozinha: é preciso definir prioridades, garantir recursos, acompanhar indicadores e cobrar responsabilidades de União, estados e municípios.

O tema está ligado à atuação recente de Ferreirinha. Ele coordena o Fórum de Educação e Políticas Públicas da FGV Conhecimento, que reuniu gestores, especialistas e representantes da sociedade civil para discutir os desafios do PNE.

No encontro, Ferreirinha destacou a inclusão da equidade como princípio estruturante, o fortalecimento da colaboração entre os entes federativos e a necessidade de planejamento e investimentos de longo prazo.

Metas ambiciosas e um desafio ainda maior

Entre os compromissos do PNE está a ampliação da educação em tempo integral para 65% das escolas públicas, alcançando 50% dos estudantes da educação básica.

O plano também pretende atender toda a demanda manifesta por creches e alcançar, nacionalmente, pelo menos 60% das crianças de até 3 anos.

Na alfabetização, a meta é garantir que as crianças estejam alfabetizadas e apresentem aprendizagem adequada em Matemática até o fim do 2º ano do ensino fundamental.

O texto prevê ainda conectividade, educação digital, formação, valorização, carreira e melhores condições de trabalho para os profissionais da educação.

O tamanho do plano mostra por que sua execução exigirá mais do que discursos. Cada meta precisa ser transformada em programas, cronogramas, indicadores e decisões orçamentárias.

É nesse espaço que o mandato de um deputado federal pode produzir efeitos concretos: votar o orçamento, fiscalizar programas, cobrar o cumprimento das metas, propor aperfeiçoamentos legais e atuar para que o financiamento acompanhe as responsabilidades atribuídas às redes públicas.

A experiência do Rio como argumento

Ferreirinha usa os resultados de sua passagem pela Secretaria Municipal de Educação do Rio, entre 2021 e 2026, como base para defender uma participação mais direta na implementação nacional do PNE.

Durante sua gestão, a rede inaugurou o 300º Ginásio Educacional Tecnológico. Os GETs combinam ensino em tempo integral, tecnologia, cultura maker, ciências e metodologias práticas. O modelo ultrapassou 125 mil estudantes e continuou sendo ampliado depois de sua saída da secretaria.

O Rio também chegou à marca de 50% dos alunos atendidos em tempo integral, segundo balanço da Secretaria. O dado aproxima a experiência municipal de uma das principais metas nacionais para 2036.

Isso não significa, entretanto, que um modelo possa ser simplesmente copiado para todo o país. Municípios possuem estruturas, orçamentos e desafios diferentes, e a expansão dependerá de financiamento e adaptação local.

Na aprendizagem, o Ideb dos anos iniciais da rede carioca passou de 5,4, em 2021, para 6,2, em 2025, o melhor resultado histórico do município nessa etapa. O avanço foi de 14,8% no período.

Nos anos finais, porém, a evolução foi menor, reforçando que o país precisa de estratégias específicas para cada fase da educação básica.

Esses números dão consistência à candidatura, mas não eliminam os pontos de tensão. A valorização dos profissionais, prevista no PNE, exige diálogo permanente sobre carreira, remuneração, formação e condições de trabalho.

A gestão de Ferreirinha enfrentou conflitos com parte dos educadores, especialmente em torno das mudanças na jornada docente. Esse histórico torna ainda mais necessária a construção de compromissos transparentes com a categoria.

Da meta nacional à escola de cada bairro

O principal risco de um plano decenal é produzir uma grande lista de boas intenções sem alterar a realidade das redes. A diferença será determinada pela capacidade de monitorar resultados e corrigir políticas ao longo do caminho.

Ferreirinha defende que a experiência de administrar uma rede com mais de 1.500 escolas lhe deu conhecimento sobre a distância existente entre anunciar um programa e fazê-lo funcionar em unidades com realidades diferentes.

Também será necessário evitar que tecnologia seja confundida com a simples compra de equipamentos.

O debate coordenado por Ferreirinha na FGV apontou que recursos digitais e inteligência artificial devem ser incorporados com finalidade pedagógica, formação docente e acompanhamento da aprendizagem — e não apenas como elementos de propaganda.

O novo PNE oferece ao Brasil uma direção para a próxima década. O teste começa agora, quando a lei precisa disputar espaço no orçamento e se converter em políticas dentro das escolas.

Na reta final da eleição, Ferreirinha procura se apresentar como uma ponte entre a experiência municipal e esse desafio nacional. Sua missão, se eleito, será ajudar a impedir que 73 metas e 372 estratégias se transformem em mais um documento ambicioso esquecido em Brasília.

O país não precisa apenas de um plano para a educação. Precisa de responsáveis por fazê-lo acontecer, indicadores para medir seus resultados e fiscalização para corrigir o caminho quando as promessas não chegarem aos estudantes.