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sábado, 3 de outubro de 2026

Quando o aluno pede ajuda em silêncio: lei de Ferreirinha antecipou uma urgência que chegou às escolas


Coautor do Selo Escola Amiga da Saúde Mental, candidato a deputado federal reúne experiência legislativa e de gestão; desafio nacional é transformar reconhecimento institucional em prevenção, formação de profissionais e acesso efetivo ao cuidado

Nem todo pedido de ajuda é feito em voz alta. Dentro das escolas, mudanças de comportamento, isolamento, queda repentina no rendimento, crises de ansiedade, automutilação e faltas frequentes podem revelar sofrimentos que ultrapassam os limites da sala de aula.

O tema ganhou urgência diante dos números mais recentes. Segundo levantamento divulgado pela Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro com dados da Secretaria de Estado de Saúde, as 27 UPAs estaduais realizaram 169.838 atendimentos relacionados à saúde mental entre 2023 e 2025. O total anual passou de 50.624 para 64.400 no período, crescimento aproximado de 27%.

No cenário nacional, o Atlas da Violência 2026 apontou que a taxa de internações por lesões autoprovocadas entre pessoas de 10 a 19 anos aumentou 73% em uma década, passando de 3,7 para 6,4 casos por 100 mil habitantes entre 2014 e 2024.

É nesse contexto que uma parte menos conhecida da trajetória de Renan Ferreirinha, candidato a deputado federal pelo PSD, volta a ganhar relevância. Antes de comandar a Secretaria Municipal de Educação do Rio, Ferreirinha participou da criação de leis estaduais voltadas à inclusão e à promoção da saúde mental em escolas e ambientes de trabalho.

Uma lei para reconhecer escolas comprometidas com a inclusão

Em 2019, quando exercia mandato na Assembleia Legislativa, Ferreirinha apresentou com a deputada Lucinha o projeto que deu origem à Lei Estadual 9.250/2021, responsável pela criação do Selo Escola Amiga da Saúde Mental.

A legislação prevê o reconhecimento de instituições de ensino que comprovem ações de inclusão social de pessoas com transtornos mentais e com Transtorno do Espectro Autista. Entre seus objetivos estão a conscientização das famílias e da sociedade, a humanização das relações, a prevenção ao suicídio e a promoção da saúde mental.

O selo tem validade de dois anos e pode ser renovado após nova avaliação. A fiscalização dos critérios cabe à Secretaria de Estado de Educação, que também pode cancelar a autorização quando a escola deixa de cumprir as exigências.

O ponto central da lei é colocar a saúde mental dentro da responsabilidade institucional da escola. A proposta rompe com a ideia de que o sofrimento emocional deve ser enfrentado exclusivamente pelo estudante e por sua família.

Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer os limites do instrumento: um selo não substitui atendimento psicológico, rede pública de saúde, profissionais capacitados ou protocolos de acolhimento. Seu valor depende da regulamentação, da fiscalização e da existência de práticas verificáveis dentro das instituições reconhecidas.

A preocupação também chegou ao ambiente de trabalho

Ferreirinha e Lucinha também são autores da Lei Estadual 8.613/2019, que criou o Selo Empresa Amiga da Saúde Mental no Rio de Janeiro.

Nesse caso, a certificação é direcionada a empresas que contribuam para a inclusão de pessoas com deficiências mentais em seus quadros ou entre os trabalhadores terceirizados. A lei exige ações de valorização, aperfeiçoamento e humanização das relações de trabalho.

As duas legislações revelam uma linha de atuação que atravessa diferentes etapas da vida: a inclusão dentro da escola e a construção de oportunidades no mercado de trabalho.

Não se trata de afirmar que essas leis, isoladamente, resolveram o problema. A ausência de informações públicas consolidadas sobre o número de instituições certificadas e os efeitos produzidos dificulta uma avaliação completa da implementação. Esse é justamente um dos desafios das políticas baseadas em selos: sem metas, indicadores e transparência, o reconhecimento pode perder força e se tornar apenas simbólico.

A escola não é consultório, mas não pode ignorar os sinais

Professores e gestores não devem substituir psicólogos, psiquiatras ou equipes do Sistema Único de Saúde. A escola, entretanto, ocupa uma posição estratégica para perceber alterações de comportamento, acolher o estudante e encaminhá-lo à rede de proteção.

Essa compreensão ganhou novo peso em 2026. A Lei Federal 15.413 incluiu no Estatuto da Criança e do Adolescente o direito de crianças e adolescentes a programas de saúde mental promovidos pelo SUS. A norma determina atendimento psicossocial básico e especializado, assistência de urgência e formação permanente dos profissionais responsáveis pela identificação de sinais de risco.

O avanço legal cria uma obrigação nacional, mas sua efetividade dependerá da articulação entre escolas, unidades básicas de saúde, Centros de Atenção Psicossocial, assistência social, conselhos tutelares e famílias.

Na prática, o desafio é impedir que o estudante seja simplesmente encaminhado de um serviço para outro sem receber atendimento. Uma política eficiente precisa definir fluxos, responsáveis, prazos e formas de acompanhamento.

Experiência de gestão amplia a responsabilidade

Entre 2021 e 2026, Ferreirinha comandou uma das maiores redes municipais de ensino do país. A experiência administrativa acrescentou uma dimensão prática à atuação legislativa: gerir uma rede com centenas de milhares de alunos significa lidar diariamente com situações de vulnerabilidade, conflitos familiares, violência, inclusão e dificuldades de aprendizagem.

Essa trajetória não autoriza atribuir a uma única pessoa todo o trabalho realizado pela rede. Resultados educacionais dependem de professores, gestores escolares, equipes técnicas, profissionais de apoio e das demais áreas do poder público.

Mas a combinação entre mandato parlamentar e gestão executiva oferece a Ferreirinha uma visão relevante sobre a distância existente entre aprovar uma lei e fazer a política funcionar na rotina de uma escola.

O que essa experiência pode representar em Brasília

Como candidato a deputado federal, Ferreirinha pode transformar esse histórico em uma agenda nacional de saúde mental ligada à educação. Isso não significa que todas as medidas abaixo já sejam projetos formalmente apresentados por ele. Trata-se das frentes em que um parlamentar federal pode atuar a partir da experiência acumulada:

  • ampliar recursos para a Rede de Atenção Psicossocial e para programas voltados a crianças e adolescentes;
  • apoiar a formação de professores e gestores para identificar sinais de risco sem transformar educadores em profissionais clínicos;
  • criar parâmetros nacionais para protocolos de acolhimento e encaminhamento;
  • fiscalizar a implementação do direito ao atendimento previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente;
  • fortalecer a integração entre educação, saúde e assistência social;
  • exigir indicadores públicos que permitam avaliar se certificações e programas produzem resultados concretos.

O Congresso também pode aperfeiçoar propostas que discutem a criação de um Selo Escola Amiga da Saúde Mental em âmbito nacional. A experiência fluminense ajuda a mostrar tanto o potencial quanto os limites desse modelo.

Saúde mental não pode aparecer somente na emergência

A maior dificuldade das políticas de saúde mental é vencer a lógica da reação tardia. Muitas vezes, a rede pública só é acionada quando o sofrimento já se transformou em crise.

Prevenção exige ambientes escolares seguros, combate ao bullying, formação permanente, escuta qualificada, diálogo com as famílias e acesso rápido ao atendimento especializado. Também exige cuidado com professores e demais profissionais da educação, que convivem com sobrecarga, violência e pressão por resultados.

Ao colocar o tema em leis voltadas às escolas e às empresas, Ferreirinha ajudou a abrir uma discussão necessária sobre inclusão e responsabilidade institucional. O próximo passo é mais exigente: transformar reconhecimento em política monitorada, com orçamento, profissionais e atendimento real.

Na véspera de uma eleição em que Ferreirinha disputa uma cadeira na Câmara dos Deputados, esse aspecto de sua trajetória revela uma pauta que vai além dos indicadores tradicionais da educação.

Uma escola preparada para ensinar também precisa estar preparada para acolher. E uma política pública só cumpre sua função quando o pedido de ajuda encontra uma porta aberta — antes que se transforme em emergência.

Fontes consultadas

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Setembro Amarelo começa com alerta: saúde mental exige escuta real, não frases prontas


Campanha de 2026 reforça a importância de acolher quem está em sofrimento e amplia o debate sobre prevenção, acesso a atendimento e responsabilidade na forma como o tema é tratado

Setembro começa com uma mobilização nacional voltada à valorização da vida e à prevenção do suicídio. Em 2026, o Centro de Valorização da Vida (CVV) adotou o tema “Escutar é estar presente”, destacando a importância de oferecer espaço real para que pessoas em sofrimento emocional possam falar sem julgamento, pressão ou respostas prontas.

A campanha ganha relevância justamente porque saúde mental passou a ocupar mais espaço nas redes sociais e no debate público, mas nem sempre esse aumento de visibilidade representa acolhimento efetivo. Frases motivacionais, cartões amarelos e mensagens genéricas podem contribuir para lembrar o tema, mas não substituem disponibilidade para ouvir, acesso a profissionais de saúde e uma rede capaz de agir diante de situações de crise.

O Ministério da Saúde trata o suicídio como um fenômeno complexo, relacionado a diferentes fatores pessoais, sociais e econômicos, e alerta que sinais de sofrimento não devem ser analisados isoladamente. Mudanças persistentes de comportamento, isolamento, agravamento de problemas emocionais e manifestações de desesperança merecem atenção, especialmente quando ocorrem simultaneamente.

A Organização Mundial da Saúde estima que mais de 720 mil pessoas morram por suicídio todos os anos no mundo. A entidade considera a prevenção uma questão de saúde pública e destaca que intervenções oportunas, apoio emocional e acesso adequado aos serviços de saúde podem reduzir mortes evitáveis.

Ouvir exige mais do que dizer “vai ficar tudo bem”

Um dos principais desafios do Setembro Amarelo é evitar que uma campanha necessária seja reduzida a gestos simbólicos durante apenas um mês.

Escutar alguém em sofrimento não significa apresentar soluções imediatas ou tentar minimizar aquilo que a pessoa sente. A orientação das instituições de saúde é permitir que ela fale, demonstrar disponibilidade e incentivar a procura por atendimento especializado quando necessário.

Em situações de risco imediato, a recomendação é não deixar a pessoa sozinha e buscar ajuda em serviços de saúde ou emergência. No Brasil, a rede pública inclui unidades básicas de saúde, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), UPAs, hospitais e o SAMU, pelo telefone 192.

O CVV atende gratuitamente pelo número 188, 24 horas por dia, oferecendo apoio emocional de forma sigilosa. O serviço também possui atendimento por canais digitais.

O dia 10 de setembro marca o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, mas a lógica da campanha é justamente lembrar que sofrimento emocional não segue calendário.

Álcool também precisa entrar na conversa

Outro ponto que merece atenção é a relação entre saúde mental e consumo de álcool. A Organização Mundial da Saúde reconhece associação entre transtornos relacionados ao uso de álcool, depressão, ansiedade, automutilação e comportamento suicida. O álcool também pode comprometer julgamento e controle de impulsos, especialmente em situações de crise.

Isso não significa estabelecer uma relação automática entre consumo de álcool e suicídio. Significa compreender que abuso e dependência são fatores que precisam ser considerados dentro de uma avaliação mais ampla de vulnerabilidade.

A própria Rede de Atenção Psicossocial do SUS inclui atendimento a pessoas com necessidades relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, integrando esse cuidado aos serviços de saúde mental.

Uma campanha que precisa sobreviver a setembro

O Setembro Amarelo cumpre seu papel quando leva informação, reduz preconceitos e facilita o acesso à ajuda. Perde força quando se limita a mensagens bonitas publicadas por empresas, instituições e perfis que, no restante do ano, ignoram sofrimento emocional, ambientes de trabalho adoecedores ou pessoas que pedem ajuda.

A crítica à superficialidade não diminui a campanha. Ao contrário, reforça sua finalidade.

Prevenção exige continuidade, serviços acessíveis, profissionais preparados, responsabilidade na comunicação e disposição para ouvir antes que uma situação de sofrimento se transforme em emergência.

É justamente essa a mensagem escolhida pelo CVV para 2026: presença não significa apenas estar fisicamente próximo. Significa oferecer tempo e atenção suficientes para que alguém consiga falar e seja levado a sério.

Para quem precisa conversar, o CVV atende pelo telefone 188 gratuitamente, todos os dias, 24 horas por dia. Em situações de emergência, também devem ser procurados serviços como CAPS, UPA, pronto-socorro, hospitais ou o SAMU 192.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Dia do Psicólogo: 27 de agosto marca 64 anos de uma profissão cada vez mais presente na vida dos brasileiros


Data lembra a regulamentação da Psicologia no país, em 1962, e chama atenção para a importância da escuta qualificada, do cuidado com a saúde mental e da escolha de profissionais habilitados para o atendimento psicológico

O Brasil celebra nesta quinta-feira, 27 de agosto, o Dia Nacional da Psicóloga e do Psicólogo. Mais do que uma homenagem profissional, a data marca um capítulo importante da história da saúde, da educação e das políticas públicas brasileiras: foi em 27 de agosto de 1962 que a Lei nº 4.119 regulamentou oficialmente a profissão e estabeleceu as bases para a formação e o exercício da Psicologia no país.

São, portanto, 64 anos de regulamentação profissional em 2026.

Sancionada pelo então presidente João Goulart, a Lei 4.119 estabeleceu os cursos de formação em Psicologia e definiu competências profissionais que passaram a exigir habilitação específica. O texto legal atribuiu aos psicólogos, entre outras funções, a utilização de métodos e técnicas psicológicas para diagnóstico, orientação profissional, orientação psicopedagógica e questões relacionadas ao ajustamento.

A escolha de 27 de agosto como data comemorativa surgiu justamente dessa regulamentação. Durante décadas, o dia foi lembrado informalmente pela categoria. Em 2016, a celebração passou oficialmente a integrar o calendário nacional com a Lei nº 13.407, que instituiu o Dia Nacional do Psicólogo.

De lá para cá, a profissão cresceu e se diversificou. Dados divulgados pelo Conselho Federal de Psicologia em 2025 apontavam mais de meio milhão de profissionais atuando nas diferentes regiões do Brasil. Segundo o próprio CFP, o país possui atualmente a maior comunidade profissional da Psicologia do mundo.

A imagem tradicional do psicólogo sentado em um consultório diante de um paciente, embora ainda represente uma parte importante da profissão, já não é suficiente para retratar a amplitude desse trabalho. Psicólogos estão presentes em hospitais, escolas, universidades, empresas, serviços de assistência social, sistema de Justiça, esporte, trânsito, segurança pública, serviços de acolhimento e diferentes políticas públicas, além da atividade clínica.

Uma profissão que ganhou espaço junto com o debate sobre saúde mental
Psicoterapia e registro profissional: uma diferença importante
Escutar profissionalmente não é apenas “dar conselhos”
Sigilo e ética fazem parte do atendimento
64 anos depois, uma profissão em permanente transformação

A expansão da Psicologia também acompanha uma mudança na forma como a sociedade brasileira fala sobre sofrimento emocional.

Temas como ansiedade, relações familiares, luto, dificuldades profissionais, conflitos escolares, desenvolvimento infantil, envelhecimento, violência e saúde mental passaram a ocupar muito mais espaço nas conversas cotidianas e nas redes sociais.

Essa maior abertura pode facilitar a procura por ajuda profissional, mas trouxe também um desafio: diferenciar conteúdo informativo, aconselhamento informal e atendimento psicológico propriamente dito.

Nas redes sociais, expressões da Psicologia passaram a fazer parte do vocabulário cotidiano. Termos técnicos são utilizados em vídeos, publicações e discussões sobre comportamento, muitas vezes fora do contexto em que foram originalmente desenvolvidos.

Esse movimento amplia o interesse pelo tema, mas também aumenta a importância de compreender que a Psicologia é uma profissão regulamentada e que o atendimento psicológico envolve formação universitária, responsabilidade técnica, princípios científicos e obrigações éticas.

Para atuar profissionalmente como psicólogo no Brasil, não basta ter diploma. O profissional precisa possuir inscrição ativa no Conselho Regional de Psicologia correspondente à região em que exerce a atividade. O CFP mantém um Cadastro Nacional de Psicólogas e Psicólogos no qual qualquer pessoa pode verificar a situação do registro de um profissional.

O registro não é apenas uma formalidade administrativa. Ele vincula o profissional às normas da categoria, ao Código de Ética e à fiscalização do Sistema Conselhos de Psicologia.

Isso permite, por exemplo, que eventuais condutas inadequadas sejam analisadas pelos órgãos responsáveis.

Há uma precisão importante quando o assunto é psicoterapia.

Embora psicólogos estejam entre os profissionais mais associados à prática psicoterapêutica, a palavra “psicoterapia” não designa atualmente uma atividade legalmente exclusiva da Psicologia no Brasil. O próprio Sistema Conselhos esclarece que outros profissionais podem oferecer psicoterapia, desde que não se apresentem indevidamente como psicólogos nem realizem atividades privativas da Psicologia sem habilitação.

Por outro lado, quando uma pessoa procura especificamente atendimento psicológico ou um psicólogo para realizar psicoterapia, a orientação do Conselho Federal de Psicologia é verificar se o profissional possui registro ativo no CRP.

Em campanha divulgada neste ano, o CFP reforçou justamente essa recomendação e destacou que o registro permite identificar formação reconhecida, atuação submetida ao Código de Ética e possibilidade de responsabilização profissional em caso de irregularidades.

A consulta pode ser feita no Cadastro Nacional de Psicólogas e Psicólogos utilizando informações como nome ou número de registro.

Essa verificação tornou-se ainda mais relevante com a expansão dos atendimentos pela internet.

A Psicologia brasileira incorporou de forma definitiva o atendimento por tecnologias digitais. Desde 2024, o profissional não precisa mais realizar cadastro específico na antiga plataforma e-Psi para oferecer atendimento psicológico on-line, mas continua obrigado a manter inscrição ativa no CRP e cumprir todas as exigências éticas e técnicas da profissão.

Ou seja: a tela mudou a forma do encontro, mas não eliminou as responsabilidades profissionais.

Outra dimensão lembrada neste 27 de agosto é a própria natureza do trabalho psicológico.

No senso comum, ainda existe a ideia de que o psicólogo seria alguém responsável por “dar conselhos”, dizer ao paciente o que fazer ou simplesmente ouvi-lo falar.

A atividade profissional é mais complexa.

A escuta psicológica ocorre dentro de um processo técnico, orientado por conhecimento científico, princípios éticos e métodos adequados à demanda apresentada.

Dependendo da área de atuação, o trabalho pode envolver avaliação psicológica, intervenções clínicas, acompanhamento de famílias, atuação institucional, orientação profissional, ações preventivas, pesquisas, desenvolvimento de políticas públicas ou participação em equipes multidisciplinares.

Também não existe uma única Psicologia.

Diferentes abordagens teóricas e métodos convivem dentro da profissão, sempre submetidos às exigências éticas e técnicas estabelecidas para o exercício profissional.

O Conselho Federal reconhece atualmente especialidades como Psicologia Clínica, Escolar e Educacional, Organizacional e do Trabalho, Jurídica, Hospitalar, do Esporte, do Trânsito, Social, Neuropsicologia, Psicologia em Saúde e Avaliação Psicológica, entre outras.

Essa diversidade ajuda a explicar por que psicólogos podem ser encontrados em contextos tão distintos.

Em uma escola, podem atuar em processos institucionais relacionados à educação e ao desenvolvimento. Em hospitais, integram equipes que lidam com pacientes, familiares e profissionais diante de situações de adoecimento. No sistema de Justiça, podem participar de avaliações e intervenções relacionadas a diferentes processos. Nas empresas, trabalham com relações organizacionais e saúde do trabalhador.

E, nos consultórios, acompanham pessoas que procuram compreender experiências, conflitos, comportamentos e formas de lidar com diferentes momentos da vida.

A relação entre profissional e usuário também é protegida por regras próprias.

Os serviços psicológicos exigem registro documental, responsabilidade sobre as informações produzidas e cuidados específicos com o sigilo. Mesmo nos atendimentos realizados por meios digitais, essas obrigações permanecem.

A existência dessas normas é um dos motivos pelos quais o registro profissional merece atenção no momento de escolher quem realizará um atendimento psicológico.

Não se trata apenas de saber se alguém estudou determinado método ou possui presença relevante nas redes sociais. O exercício da Psicologia implica deveres formais diante do paciente e da sociedade.

Esse aspecto ganhou nova importância justamente em uma época em que profissionais e conteúdos relacionados à saúde mental podem ser encontrados com poucos toques no celular.

A facilidade de acesso é positiva, mas exige do público uma capacidade maior de avaliar quem está oferecendo determinado serviço.

Para quem procura um psicólogo, verificar o CRP é uma medida simples e objetiva.

Quando a profissão foi regulamentada em 1962, o Brasil era muito diferente daquele em que psicólogas e psicólogos trabalham hoje.

Não existiam redes sociais, consultas por videochamada, prontuários digitais nem o atual debate público sobre saúde mental. A presença da Psicologia nas políticas públicas e em diversas instituições também era muito menor.

A profissão atravessou transformações sociais, políticas, científicas e tecnológicas e ampliou significativamente seus campos de atuação.

Em 1971, a criação do Conselho Federal e dos Conselhos Regionais de Psicologia estabeleceu a estrutura responsável pela orientação, disciplina e fiscalização do exercício profissional. Décadas depois, essa estrutura acompanha uma categoria que supera meio milhão de profissionais.

O Dia do Psicólogo chega, portanto, como uma homenagem, mas também como oportunidade para discutir a responsabilidade envolvida no cuidado psicológico.

Em uma sociedade em que falar de emoções, sofrimento e comportamento se tornou cada vez mais comum, a presença de informação qualificada é tão importante quanto a ampliação do acesso aos serviços.

A escuta pode acolher. O conhecimento técnico pode ajudar a compreender situações que parecem confusas. E procurar acompanhamento profissional não precisa estar restrito aos momentos em que uma pessoa acredita ter chegado ao limite.

Ao mesmo tempo, cuidado psicológico exige seriedade.

Por isso, neste 27 de agosto, a homenagem aos profissionais também deixa uma orientação simples para quem está do outro lado do atendimento: quando a procura for por serviços de Psicologia, confira a formação, procure o número do CRP e verifique se o registro está ativo.

Depois de 64 anos de regulamentação, talvez uma das maiores conquistas da Psicologia brasileira seja justamente esta: fazer com que a escuta seja reconhecida não apenas como um gesto de acolhimento, mas como uma atividade profissional que envolve ciência, ética e responsabilidade.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Bets entram na mira do STF: Flávio Dino levanta possibilidade de enquadramento como jogo de azar


Ministro pediu vista em julgamento sobre a validade da proibição dos jogos de azar e afirmou que o debate da Corte também deve alcançar as apostas eletrônicas. Decisão ainda não foi tomada sobre a legalidade das bets.

O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu uma nova frente de discussão sobre o futuro das apostas esportivas e dos jogos online no Brasil. Durante o julgamento que analisa a validade da norma que caracteriza a exploração de jogos de azar como contravenção penal, o ministro Flávio Dino pediu vista do processo e defendeu que o Tribunal examine conjuntamente o tema das chamadas bets.

O julgamento foi suspenso em 6 de agosto, após o pedido de vista de Dino. O processo discute se o artigo 50 da Lei das Contravenções Penais, prevista no Decreto-Lei nº 3.688/1941, foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988. A decisão terá repercussão geral e poderá afetar milhares de processos que discutem a exploração de jogos de azar no país.

DINO QUESTIONA TRATAMENTO DIFERENTE PARA AS BETS

Durante sua manifestação, Flávio Dino sustentou que não faria sentido discutir a natureza jurídica dos jogos de azar sem considerar as apostas realizadas pela internet.

Para o ministro, as apostas eletrônicas também devem ser incluídas na discussão sobre jogos de azar, especialmente diante dos efeitos sociais associados ao crescimento desse mercado.

Dino afirmou que, se a Corte reconhecer a validade da classificação dos jogos de azar como contravenção penal, será necessário avaliar de maneira coerente o tratamento jurídico dado às bets.

A manifestação, porém, não representa uma decisão do STF de que as apostas esportivas são contravenção penal. O tema ainda será analisado pelo Plenário.

O QUE ESTÁ SENDO JULGADO AGORA?

O processo em julgamento é o Recurso Extraordinário (RE) 966177, que possui repercussão geral reconhecida no Tema 924.

A discussão envolve especificamente a constitucionalidade da manutenção do artigo 50 da Lei das Contravenções Penais, que trata da exploração ou estabelecimento de jogos de azar.

O relator, ministro Luiz Fux, votou pela validade da norma e defendeu que a exploração de jogos de azar continue sendo considerada contravenção penal.

Fux também chamou atenção para os impactos sociais relacionados ao vício em jogos, incluindo situações de endividamento e consequências econômicas para as famílias.

Após o voto do relator, Flávio Dino pediu vista para analisar o processo e possibilitar que o tema seja apreciado em conjunto com outras ações relacionadas às apostas online.

AS BETS ESTÃO LEGALIZADAS NO BRASIL?

Atualmente, as apostas de quota fixa são regulamentadas no Brasil. O mercado foi estruturado inicialmente pela Lei nº 13.756/2018 e posteriormente ampliado pela Lei nº 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets.

Desde 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda podem operar nacionalmente. As plataformas autorizadas utilizam o domínio ".bet.br".

Isso significa que a discussão atual do STF não representa uma proibição imediata das bets.

O que está em debate é se o marco legal que regulamentou as apostas online é compatível com a Constituição e como essas atividades devem ser tratadas juridicamente diante das normas que restringem os jogos de azar.

OUTRAS AÇÕES JÁ ESTÃO NO STF

Além do processo sobre os jogos de azar físicos, existem ações diretas de inconstitucionalidade que discutem aspectos da regulamentação das bets.

Entre elas estão as ADIs 7.721, 7.723 e 7.749, sob relatoria do ministro Luiz Fux.

Os processos discutem questões como proteção dos consumidores, impactos das apostas sobre a saúde mental, utilização de recursos de programas sociais, publicidade direcionada a crianças e adolescentes e a própria suficiência das regras criadas para regulamentar o setor.

O STF já determinou medidas de proteção relacionadas às apostas. Em decisões anteriores, a Corte proibiu novos cadastros de beneficiários de programas sociais nas plataformas e determinou restrições à publicidade de apostas direcionada a crianças e adolescentes.

O QUE PODE ACONTECER?

A decisão de Flávio Dino não significa que as bets foram proibidas ou que passaram automaticamente a ser consideradas contravenção penal.

O que mudou, neste momento, foi o alcance do debate dentro do Supremo.

A intenção manifestada pelo ministro é que a Corte tenha condições de analisar conjuntamente diferentes processos relacionados aos jogos de azar e às apostas online, estabelecendo uma orientação mais ampla sobre o assunto.

O julgamento poderá definir os limites constitucionais da exploração dos jogos de azar e das apostas eletrônicas no país e terá impacto direto sobre um mercado que cresceu rapidamente nos últimos anos. Enquanto o STF não concluir a análise, as bets autorizadas continuam funcionando dentro do regime estabelecido pela legislação e pela regulamentação federal.

A discussão, entretanto, ganhou uma dimensão maior: o Supremo agora terá de enfrentar não apenas a questão da regulamentação das apostas, mas também os limites constitucionais de um mercado que movimenta bilhões de reais e que passou a provocar crescente preocupação com endividamento, saúde mental, publicidade e proteção de consumidores.

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Governo fecha o cerco contra as bets: milhões de brasileiros já estão impedidos de apostar


Sistema federal cruza CPFs e bloqueia beneficiários de programas sociais, pessoas com dívidas renegociadas e usuários que optaram pela autoexclusão. Medida amplia o debate sobre os impactos das apostas online no Brasil.

O cerco às plataformas de apostas esportivas no Brasil ganhou uma nova dimensão. O governo federal passou a utilizar um sistema capaz de cruzar automaticamente o CPF dos usuários com diferentes bases de dados públicas para impedir que determinados grupos abram ou mantenham contas em casas de apostas autorizadas no país.

A medida ganhou força após o Ministério da Fazenda informar que beneficiários do Bolsa Família, do Benefício de Prestação Continuada (BPC), do Fies e de programas de renegociação de dívidas não podem mais utilizar as plataformas regulamentadas de apostas.

O mecanismo utilizado para realizar os bloqueios está integrado ao Módulo de Impedidos do Sistema de Gestão de Apostas (SIGAP), desenvolvido pelo Serpro em parceria com a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda.

MAIS DE 3 MILHÕES DE BENEFICIÁRIOS JÁ FORAM BLOQUEADOS

O tamanho da operação chama atenção.

Segundo o Ministério da Fazenda, cerca de 3 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do BPC tiveram o acesso às plataformas de apostas bloqueado em cumprimento a uma determinação do Supremo Tribunal Federal.

O sistema também alcança pessoas que renegociaram dívidas. Em agosto, o governo informou que aproximadamente 800 mil pessoas nessa situação estavam impedidas de apostar. O grupo inclui cidadãos vinculados a programas de renegociação de dívidas e estudantes beneficiários do Fies.

Somados aos usuários que solicitaram voluntariamente a autoexclusão, os grupos impedidos representam uma parcela significativa das pessoas cadastradas no sistema oficial de apostas.

COMO FUNCIONA O BLOQUEIO

O sistema utiliza o CPF para verificar se o cidadão está incluído em alguma das bases de impedimento.

As casas de apostas precisam consultar o sistema em diferentes momentos, como na abertura de uma nova conta, no primeiro acesso do usuário a cada dia e periodicamente para toda a base de clientes.

Quando o CPF é identificado como impedido, a plataforma precisa interromper a possibilidade de realizar novas apostas e depósitos.

No caso dos beneficiários de programas sociais, existe ainda uma regra específica para o encerramento das contas. O período destinado ao saque de eventual saldo existente não permite que o usuário continue realizando apostas.

POR QUE O GOVERNO DECIDIU BLOQUEAR ESSAS PESSOAS?

A política está relacionada às decisões tomadas pelo Supremo Tribunal Federal e às recomendações do Tribunal de Contas da União.

A preocupação central é evitar que recursos destinados à proteção social sejam utilizados em apostas e, ao mesmo tempo, reduzir riscos relacionados ao endividamento e ao chamado jogo problemático.

A legislação brasileira que regulamenta as apostas de quota fixa também estabelece categorias de pessoas impedidas de realizar apostas.

O FENÔMENO DAS BETS GANHA UMA NOVA DIMENSÃO

O avanço dos bloqueios revela uma mudança importante na relação do Estado brasileiro com o mercado de apostas.

Depois de anos de crescimento acelerado das plataformas digitais, o debate deixou de envolver apenas a legalização e a tributação das empresas. Agora, entram no centro da discussão questões como saúde pública, endividamento, proteção de famílias vulneráveis, publicidade e responsabilidade das plataformas.

Outro dado chama atenção.

A plataforma federal de autoexclusão já recebeu mais de 1,2 milhão de pedidos de bloqueio voluntário. Segundo o Ministério da Fazenda, uma das principais justificativas apresentadas pelos usuários está relacionada à perda de controle sobre o jogo e a problemas associados à saúde mental.

O dado mostra que, além dos cidadãos impedidos por determinação legal, mais de um milhão de brasileiros procuraram espontaneamente uma ferramenta para se afastar das apostas.

A PRÓXIMA BATALHA: A PUBLICIDADE

Com o bloqueio das contas, surge uma questão que promete ganhar ainda mais espaço no debate público: se o Estado reconhece que determinados grupos precisam ser protegidos dos efeitos das apostas, até que ponto é aceitável manter uma publicidade agressiva das bets em espaços públicos?

O tema envolve especialmente anúncios em mobiliário urbano, eventos, transporte, estádios e outros locais de grande circulação.

A discussão tende a se intensificar porque a publicidade exerce papel fundamental na popularização das plataformas, enquanto o poder público amplia mecanismos de proteção contra seus possíveis efeitos sociais.

O Brasil vive, portanto, uma situação que alimenta um debate cada vez mais intenso: ao mesmo tempo em que regulamenta e arrecada com o mercado de apostas, o Estado amplia mecanismos para impedir que milhões de brasileiros tenham acesso a ele.

E essa pode ser a próxima grande discussão nacional sobre as bets: não apenas quem pode apostar, mas até onde a sociedade permitirá que esse mercado ocupe o espaço público e faça parte da vida cotidiana dos brasileiros.